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Edição 337 - Ano 18 - Maringá, PR 
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Em busca da pauta que ninguém mais vê
Eis que descubro o que daria de presente: fazer valer a pena o conhecimento que estou acumulando com o avançar dos dias

 Ana Luiza Verzola
 "Estou feliz por ser adotada por pessoas com ricas histórias para contar"
Ana Luiza Verzola
A saudade de fazer relatórios impulsionou-me, ainda que mentalmente, ao que escreveria ao chegar em casa. Sabe, é mal de toda vez que saio para fazer matéria de bairro. Até mesmo ir a um lugar que não conheço e procurar algo novo, externar para a sociedade... Ou mesmo ir a um lugar conhecido e tentar explorar algo ainda não visto. Pequenos detalhes me levam mais à certeza de que estou no caminho certo. De que é isso mesmo que eu quero para a minha vida. Inteira.

Eis que descubro o que daria de presente para a professora, em comemoração à idade nova dali 24h: fazer valer a pena todo o conhecimento que estou acumulando com o avançar dos dias. Tudo que eu pude aprender – e ensinar – com a oportunidade que o jornal-laboratório trouxe.

Para se ter ideia, gosto ainda mais quando tenho de fazer tudo em cima da hora, sabia? Parece que dou conta, é o mesmo que estar em um jornal diário, que requer produção diária. Meu dia começou cedo, na companhia do melhor amigo. Era preciso chegar ao bairro – a qual nunca havia ido – e descobrir algo interessante. Desafio. Conversei quem já tinha ido ao local. A resposta não foi das melhores. “Muito difícil de achar pauta, o bairro é grande... eu sofri pra caramba”. Pronto, e meu tempo era escasso - das 10h às 13h para achar algo. Já desanimada com o fato de ter “pouco” tempo para buscar algo, as referências que obtive do Conjunto residencial Hermann Moraes de Barros contribuíram para que o pessimismo invadisse meus pensamentos: bairro perigoso, distante, violento. E eu, na minha dependência da TCCC, não tive opção, senão encarar o que estava por vir.

Fui até a escola de inglês, da qual dois amigos faziam aula – dali fomos para o terminal. A Camila fez companhia até a metade do caminho e me desejou sorte para achar pauta. Internamente eu realmente quis que aquele desejo de boa sorte funcionasse. Embarcamos em mais uma ida sem saber o que nos aguardava. Chegando ao bairro, falei com um morador que, no calor infernal que nos acompanha desde o início da semana, estava lavando a calçada. Ele nos informou que o bairro que queríamos ficava da esquina seguinte adiante. Sem opção, lá fomos nós...

Parei uma velhinha na rua, uma simpatia! Aliás, eu acho que tenho sorte com moradores de bairro. Até hoje todos foram bem cordiais. Conheci pessoas que valiam à pena! O que me deixa imensamente feliz. Como ela mudou-se para a região havia três meses, tudo ainda “é lindo”. Inclusive o acesso do transporte coletivo, que é bem frequente – uma raridade, todos os moradores dos demais bairros em que estive reclamavam da TCCC por não ter ponto de ônibus ou por demorar demais para passar. Olhei para meu amigo, que entendeu imediatamente: achei a pauta. Descemos a rua e abordei duas meninas, uma de 12 e uma de 18, estudantes que dependiam do transporte coletivo: confirmaram o que a senhora felicíssima disse – a praticidade e rapidez do ônibus ali era um fato. O acesso aos demais cantos da cidade era beneficiado.

Quando pensei ter encontrado a pauta nos primeiros cinco minutos circulando pelas ruas do conjunto, resolvi que era hora de partir, e fomos ao encontro com a avenida que corta as demais travessas, para pegarmos o transporte tão acessível. Olhei para o lado direito da rua que descíamos: um painel cheio de tapetes coloridos. Não hesitei: corri e bati palmas. Ninguém. Bati de novo. “Já vou! Quem tá aí?”. Respondi com outra pergunta: “é a senhora que faz os tapetes?”. “Minha filha, um momento... Ô Dulce! Ô DULCEEE!!!”. Eis que conheci a dona Dulce, outra simpatia. E uma história e tanto: ela mesma faz os tapetes, funciona como um negócio próprio, e ela aprendeu sozinha. Saí da casa com um sorriso de orelha a orelha. Meu companheiro de pautas e bairros perguntou: “Mas e agora, qual das histórias você vai fazer?” Dos tapetes, óbvio. Pensei: poderia muito bem fazer as duas.

Já na avenida, cinco “jaulinhas” cheias de filhotes de cachorro em adoção atraiu o nosso olhar. Não resisti e adotei a Mel, uma vira lata de 40 dias. Entrei na minha “Mercedes-Benz” com o filhote dentro da bolsa, para que ninguém visse. Minha sorte, fiel escudeira, foi que a tagarelice das senhoras ao lado escondeu o choro da pequena, que voltou dormindo com a cabecinha para fora da mochila.

Uma pena a Mel não ficar muito tempo comigo. O passeio de ônibus fora o suficiente para que eu desse a atenção necessária que a mesticinha merecia. Caminho ainda tinha para ser percorrido: voltando para casa do terminal, a pé, resolvi pegar a Rua Joubert de Carvalho, pensando “vou passar pelo que foi a vida do professor Fabio [Dias, de fotografia] durante um ano”. Confesso, nunca gostei daquela rua, mas as fotos que ele fez de lá fizeram com que eu mudasse alguns conceitos. Ao menos atiçaram a curiosidade histórica. A cachorrinha no meu colo. Passei em frente a uma das tantas lojas de roupas e tecidos de lá, quando uma moça me chamou – “Que coisa linda, me deixa ver?”, entrei com a Mel, que logo foi “raptada” dos meus braços para que todos os funcionários ali resolvessem mimá-la de uma só vez.

A que me chamou por causa da cadelinha contou que a vizinha perdera o animalzinho de estimação havia uma semana. No bairro onde ela mora, a menina foi na padaria buscar pão para a mãe e levou a cachorrinha junto – até o ônibus chegar...

Engraçado que foi por causa do ônibus que cheguei até a Mel, até onde estava agora. Instantaneamente perguntei: “você não quer levar para ela?”. Silêncio. Repeti. Ela me olhou incrédula. “Você não vai ficar com ela?”. Expliquei que moro em apartamento, que provavelmente eu ia levá-la a outro lugar. Ela não hesitou mais.

Saímos juntas da loja, eu, em direção à minha casa, ela, correndo pegar o ônibus, aproveitando o horário de almoço para fazer uma surpresa para a menina que mora ao lado da casa dela.
Voltei ainda mais feliz, pois sabia que tinha encontrado um lar para a Mel, se é que agora teria esse nome. Feliz, não por ter adotado um filhote por meia hora, mas por ser adotada por essas pessoas a cada vez que ouso me aventurar nas matérias de bairro que a “Dona Pauta” [a professora] nos faz vivenciar.

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