Crítica de Mídia | Edição #481 - 11/06/2018

O meu, meu, e somente o meu interesse

Cobertura da imprensa sobre a greve dos caminhoneiros tem lado certo, o próprio

Gabriel Trevisan
Estudante de Jornalismo

Na greve dos caminhoneiros Rede Globo tem um lado, o próprio ( Imagem/ Pixabey ) [1]

Na greve dos caminhoneiros Rede Globo tem um lado, o próprio (Imagem/ Pixabey)

A paralisação dos caminhoneiros retrata mais uma vez como o mass mídia está distante da população, negando-se a mostrar a real situação econômica e social que o país está vivendo. A imprensa, já com baixa credibilidade, se prejudicou ainda mais com alguns erros de cobertura.

Nas primeiras reportagens sobre os dias iniciais da greve, a Rede Globo encabeça como motivo da paralisação a questão dos impostos dos combustíveis. Culpando os impostos, a emissora “esquece” de falar da política da Petrobras de reduzir a produção interna de derivados, aumentar a importação e repassar diariamente as oscilações dos custos do dólar e do petróleo para os preços dos combustíveis.

A oscilação em questão pode ser vista como principal motivo do aumento do preço do combustível, que, segundo a própria Rede Globo, chegou a subir 125 vezes só este ano. Mas por que não é falado dessa medida responsável por tantos aumentos? Simples: essa política beneficia os acionistas e o mercado financeiro, que são de interesse da emissora.

Faltou vontade da emissora tentar melhorar a própria imagem perante o público

Outro ponto a se pensar a respeito da cobertura da emissora carioca foi o do, já péssimo, hábito de imagens aéreas. Com várias tomadas aéreas da paralisação, a cobertura deixou a desejar a respeito da situação na qual o caminheiro grevista se encontrava por baixo das belas imagens em altura. Todos os desafios que eles tinham que passar, todo o sofrimento por causa da falta de estrutura, toda a dificuldade de alimentação, de higiene. Ou seja, todo labor de uma greve.

Além do mais, a distância entre jornalistas e grevistas não ficou só em enquadramentos e escolhas de câmeras. A cobertura se limitou apenas a entrevistas e imagens de lideranças, as famosas “fontes oficiais”, que foram amplamente divulgadas a cada novo “acordo” com as “lideranças dos caminhoneiros” que não os representavam. Os problemas dessa alta cobertura de fontes oficiais foram vários, desde ameaças aos grevistas por meio de uso de força militar para liberar as estradas, até comentários infelizes de ministros que condenam a greve como “coisa de irresponsável”.

Não se pode negar que cobrir uma greve de âmbito nacional, sem liderança estabelecida, com falta de combustível que dificulta a locomoção de jornalistas, diversas fontes produtoras de informação, muitas vezes fake news, é de extrema dificuldade. Entretanto, não pode ser usado como muleta.  Faltou vontade da emissora tentar melhorar a própria imagem perante o público. Uma pena ter escolhido mais uma vez defender interesses empresariais em discursos já vistos anteriormente.


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