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  • Última Edição: #482 | 18/06/2018 - Ano XIX
 
Cidade | Edição #481 - 11/06/2018

“Não fazemos jornal para o sindicato ou partido político”

Visão do jornalista Adailton Bittencourt é sobre cautela no noticiário

Equipe JMP
edição especial

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Gereba, chefe de redação da RPC Maringá (Imagem/ Caio Manzano

Gereba, chefe de Redação da RPC Maringá
(Imagem/ Caio Manzano

O jornalismo feito no coletivo. A correria, a preocupação em buscar a notícia, a procura sobre a veracidade da informação, encontrar fontes e mantê-las em sigilo, a organização para que seja repassado um material de qualidade e o anseio de produzir um bom trabalho para ser consumido pelo público.Tudo isso circula pelas Redações.

O grande número de notícias a que somos expostos durante o dia passam por um processo. Em momentos que as notícias falsas, as fakenews,têm 70% mais chances de serem viralizadas, segundo o MIT (Instituto de Tecnologia de Massachussets), é preciso o zelo na produção da notícia dentro da Redação para que a informação seja transmitida com excelência e clareza.

Em entrevista ao Jornal Matéria Prima, o jornalista Adailton Bittencourt, 50,o Gereba, coordenador chefe da Redação da RPC (Rede Paranaense de Comunicação) em Maringáe jornalista há 20 anos, esclareceu algumas questões sobre os pontos cruciais da Redação,a rotina e apuração dos fatos transmitidos à populaçãotodos os dias.

 

Considerando que todas as informações chegam como oportunidade de repassar notícias de última hora. Como jornalista, agora chefe de uma Redação, como lidar com as notícias inverídicas?

O furo é uma consequência. O furo nunca pode ser o teu objetivo principal. Senão, você vai dar notícia falsa o tempo todo. Se você não tiver tempo de checar, se você não tiver 100% de certeza, vai dar margem de colocar uma notícia errada. Se eu não tenho, pelos meus próprios meios de comprovar que essa notícia é verídica, mesmo que outro canal esteja noticiando e caso estejam corretos, mérito deles.

Inúmeras notícias de divergentes assuntos circulam durante todo o dia. Qual o critério de noticiabilidade até chegar ao telespectador?

Proximidade, impacto, importância; mas o foco principal sem sombra de dúvidas deverá ser o telespectador e o cidadão comum. Essa notícia irá impactar o diaadia desse cidadão? Se a resposta for sim, já sobe para a lista de prioridades.Às vezes, mesmo quando parece ter menor relevância, como a redistribuição do trânsito por causa de uma obra. Não fazemos jornal para o sindicato ou partido político, nossa preocupação é para o cidadão comum. Nesse caso da greve, por exemplo[greve dos caminhoneiros], praticamente várias ações impactavam a vida das pessoas, então, ganhavam destaque por isso [mobilidade, escassez de alimentos, falta de combustíveis etc].

Foco principal sem sombra de dúvida deverá ser o telespectador e o cidadão comum

Como é feita a cobertura com o cuidado para que não seja tendencioso? Já que vivemos um momento polarizado, exemplo: chegou-se a especular que haveria manifestação dos caminhoneiros em frente ao prédio da RPC.

Eu considero uma certeza que estamos fazendo um trabalho correto. Se você pegar os dois lados da história, irão afirmar que estamos em lados opostos – a direita afirma que estamos beneficiando a esquerda, a esquerda afirma que estamos beneficiando a direita.  Não temos a necessidade de agradar um ou outro, tem que colocar a notícia no ar da maneira que ela é. Não entramos nessa briga, sem juízo de valor. É notícia pura e crua.

Deve- se ter cuidado não somente com as notícias, mas também com a equipe.Existecerto receio de colocar os repórteres na rua?

Sim. Em primeiro lugar segurança. Não é essa greve, emqualquer manifestação a imprensa em geral acaba virando alvo de alguma forma. A recomendação é: parar longe, desça sem identificação, afinal, é uma zona de conflito. Se existe risco de brigas, quebra-quebra e não existe segurança, não vamos agir. Temos que ter uma responsabilidade com a notícia, mas também com a segurança física, que é o patrimônio das pessoas.É fundamental e daremos outro jeito de cobrir. Algumas situações optamos por não ir, mesmo que tenha uma um clima amistoso, porque assim que a câmera liga algumas pessoas se sentem compelidas a tomar uma atitude mais drástica, que não aconteceria se a impressa não estivesse lá. Mesmo que fosse sensacional ter uma imagem dos fatos.

Sabemos que a RPC é uma das afiliadas da Rede Globo, uma grande rede de comunicação. Existe uma preocupação com esse padrão nacional de jornalismo?

Seguimos normas editoriais da Rede Globo. O padrão Globo de qualidade vai do jornalismo ao entretenimento, temos que manter esse padrão. Não existe mais o sotaque bonitinho, português quase colonial, isso não existe mais. A gente hoje procura falar a língua que os brasileiros falam na rua. É a riqueza da cultura do país e não se pode pasteurizar.

Existe a teoria de que no meio jornalísticodeve haver imparcialidade. Você, como uma pessoa que trabalha na imprensa, acredita que os outros veículos, pelo menos os de maior exposição, conseguem certa neutralidade?

Um terreno muito amplo. Eu posso dizer o que acontece aqui dentro. O cuidado que às vezes devemos tomar aqui dentro é com as pessoas que são mais realistas que o rei, ninguém pediu nada, mas a pessoa imagina que tomando uma atitude a empresa que eu trabalho vai ficar mais feliz, e não é assim. A empresa vai ficar mais feliz se você fizer a coisa certa e eu vejo várias situações em que as pessoas tinham uma relação equivocada com o que faziam. Quando eu fui contratado, há quase 20 anos, o doutor Francisco [da Cunha Pereira, fundador da Rede Paranaense de Comunicação, atual RPC] pediu para conversar comigo e outros chefes das Redações do interior e disse: “Estou te dando um canhão carregado nas suas mãos, saiba usá-lo. Saiba o que você está fazendo porque se um dia você estragar a vida alguém, isso não tem volta”.

Nunca tive uma única interferência no meu trabalho, a única orientação é: “Faça o seu trabalho bem feito”. Esse é um mantra básico do Evandro Carlos de Andrade que foi diretor de jornalismo da Rede Globo durante muito tempo. Ele dizia que a nossa principal função é: saber a diferença do que é interesse do público e o que é interesse público, nós temos que focar no interesse público e saber essa diferença, senão o que fazemos é entretenimento.

Você estava de férias até os últimos dias da greve, mas na sua ausência os trabalhos não podem parar. Como foi ver toda essa situação da greve de longe?

Fiquei conversando com os grupos de WhatsApp enquanto estive viajando e acompanhava os jornais durante a viagem. Tenho dois executivos que têm autonomia para tocar o jornal e meu gerente que na minha ausência podem tomar as decisões administrativas no meu lugar. Se eu saio de férias e eles não têm condições de tocar o jornal é porque não estou fazendo meu trabalho corretamente. Uma parte desse trabalho é formar quem fica no meu lugar.

Produzido pelos estudantes Janaina Lopes e Caio Manzano na disciplina Técnicas de Reportagem e Entrevista I.

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