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  • Última Edição: #483 | 28/06/2018 - Ano XIX
 
Literatura | Edição #483 - 28/06/2018

Entendi o que as paredes brancas queriam

Relato de um estudante perdido e confrontado no primeiro dia de aula

Murillo Saldanha
Estudante de Jornalismo

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(Imagem/Arquivo pessoal)

(Imagem/Arquivo pessoal)

Era quase horário da aula. Corri o mais depressa possível para conseguir chegar a tempo no meu primeiro dia. Tarde demais, já estava atrasado. Depois de subir alguns (muitos) lances de escada parei poucos segundos em frente à porta que tinha uma pequena fresta de vidro. Nem tive coragem de olhar pela fresta, mas sabia que depois que entrasse lá não seria a mesma pessoa.

Com a mão firme abri a porta e, muito rapidamente, sentei-me logo no primeiro lugar que vi. Comecei a reparar no ambiente em que estava, a me acostumar com a cadeira, o jeito de me sentar e o jeito que as pessoas falavam. Me perdi diversas vezes reparando nas paredes brancas daquele lugar. Me perdi nas discussões, tentando entender o que se passava por cada um que estava ali, afinal, algo devíamos ter em comum.

Em um modelo panóptico, feito para observar e vigiar todos, uma mulher despeja todo o arcabouço teórico e ao mesmo tempo a experiência. Sou péssimo em tentar descrever pessoas fisicamente como me manda este gênero textual, só me lembro que por baixo de um jaleco branco alguém tentava nos preparar para tudo aquilo que viveu, mas sabia que do muito que falasse, pouco escutaríamos.

Desafiadora. Palavra que resumia essa mulher. Perdido, eu olhava para o teto de gesso quando ela me faz uma pergunta. Imaginem só, uma pergunta no meu primeiro dia de aula.  Respondi que não sabia e não sabia mesmo. Porém, logo percebi que o objetivo era que eu entendesse que dali para a frente eu teria que preencher uma parte das minhas paredes brancas com tudo que me desafiassem.

Quero continuar ultrapassando  o limite de linhas desta lauda de texto toda a semana

Depois de um tempo ela nos apresentou o JMP. Repetiu incansáveis vezes que ali era proibido o “seu e sua”, que “ele e ela” era só para quem tem perninha e que “coisa” … Deixa para lá, ela tinha razão, não é legal escrever isso.

No JMP aprendi com cada história ou entrevistado. Fui até ombudsman, algo que nem sabia que existia, mas depois que aprendi me apaixonei pelo compromisso social do jornalismo. Importante deixar claro que nem tudo era amor, mas a cada aula e cada texto era um sentimento semelhante ao de uma criança, que depois de se perder, reencontra a mãe no próximo corredor do supermercado.

Confesso que não queria que essa experiência acabasse. Que pudesse continuar preenchendo as linhas, na verdade, ultrapassando as linhas desta lauda de texto, toda semana.

Juro que não sei se estou preparado. Ela ensinou, tentamos aprender fechados dentro de nós mesmos, na sala de aula que se tornou Redação. Agora, quero continuar, ir além das paredes brancas e do teto de gesso e escrever pelos muros da vida. Contar histórias e me sentir desafiado, sempre com uma voz dentro de mim, que continuará a me fazer perguntas em todos os meus primeiros dias.

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Simples construções textuais para contar histórias que merecem ser conhecidas.

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