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Educação | Edição #482 - 18/06/2018

“A educação sexual não tira a inocência de ninguém; tira a ignorância”

Psicóloga Eliane Maio debate a necessidade de discutir a sexualidade na infância

Equipe JMP
edição especial

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Eliane Maio em palestra na 1ª Semana de Conscientização sobre o Abuso e Assédio (Imagem/Giulia Cordeiro)

Eliane Maio em palestra na 1ª Semana de Conscientização sobre o Abuso e Assédio
(Imagem/Giulia Cordeiro)

Em maio deste ano, duas meninas de 10 anos, moradoras da zona rural de Jaciara (MT), relataram que eram vítimas de abuso sexual após uma palestra sobre o mês de enfrentamento à violência sexual contra criança, realizada no colégio onde as duas estudavam. As meninas, que são primas, procuraram a professora e relataram terem sido vítimas dos atos narrados. O agressor, um homem de 33 anos e amigo da família, foi preso.

Para falar sobre a importância da educação sexual, a equipe do Jornal Matéria Prima conversou com a psicóloga Eliane Maio, com pós-doutorado em Educação Escolar com temática da Trajetória da Educação Sexual no Brasil. Eliane é professora da Universidade Estadual de Maringá (UEM), no Departamento de Teoria e Prática da Educação, e atua como líder do grupo de pesquisa CNPq, intitulado Núcleo de Pesquisa e Estudo em Diversidade Sexual (Nudisex).

Eliane participa de diversas palestras pelo Brasil sobre sexualidade, gênero, diversidade sexual e educação em sexualidade e já participou do Programa do Jô (Jô Soares), em 2011, sendo a única professora da UEM a ter obtido esse espaço. É autora dos livros: “O nome da coisa”, “Violência sexual contra criança: contributos para formação docente”, entre outros. Leia a seguir os principais trechos da entrevista de Eliane Maio concedida por e-mail ao JMP:

No nosso país, assim como em muitos outros, existe muito tabu em discutir e entender a sexualidade humana. Este é o tema que você mais aborda e discute em suas palestras. Como foi esse processo, de lidar com o preconceito sobre este tema e conseguir espaço para ser ouvida?

Sou formada há 34 anos, sendo da primeira turma de Psicologia da UEM. Não estudamos esses temas em nossa formação acadêmica e nem tive educação familiar. Assim, no cotidiano dos estágios, descubro um neto que estava sendo abusado pelo avô e denunciei. A partir desse dia, há 35 anos, resolvi estudar esses temas e nunca mais parei. Enquanto houver quaisquer tipos de violências, provocados pelo desconhecimento, ignorância e necessidade de poder, continuarei na luta.

Você diz que existe muita repressão quando o assunto é sexualidade. Até que ponto isso atrapalha o processo de autoconhecimento?

Sim, ainda existe e muito. O que mais atrapalha, nesse sentido, é a pessoa se conhecer física e psicologicamente, ainda mais nós, mulheres, que sofremos mais interditos e repressões sexuais. Ao não nos conhecermos, não podemos nos empoderar, muito menos dizer ao parceiro ou à parceira o que queremos numa relação sexual ou em relacionamentos afetivos.

Sempre em suas palestras você fala sobre a importância da educação sexual para as crianças. Porém, muitos usam do discurso de que ao fazer isso, estaria sendo tirada a inocência das crianças.

A educação sexual não tira a inocência de ninguém. Tira a ignorância, que é o não saber. Informar alguém, significa levar conhecimentos, discernimentos e prováveis diálogos empoderadores. O não educar reprime e faz com que algumas pessoas tentem procurar isoladamente sobre esses temas, o que podem levar a falta de diálogos pela ausência de interlocutores/as adequados/as e informações científicas.

Em 2011 você publicou o livro O Nome da Coisa, que trata abertamente sobre as várias nominações que as partes íntimas de homens e mulheres recebem aqui no Brasil. Por que a escolha deste tema?

Eu defendi o doutorado há 10 anos. Causou e ainda causa muitas reações nas pessoas, principalmente ao lerem o meu primeiro livro. Se ensinamos às crianças as diversas partes do corpo, por que não podemos ensinar pênis e vulva? Escolhi esse tema pelo tabu que ainda persiste nas escolas, o que faz com que muitas crianças não aprendam os nomes científicos e elaborem fantasias sobre a sexualidade. A recepção do livro foi muito boa. Não vi críticas científicas que pudessem desabonar meus estudos.

Educar sexualmente é educar para o respeito, diálogo e prazeres

Você fala muito sobre essa relação de educação e sexualidade. Por que você considera tão importante que se pense em educação sexual?

Tudo aquilo que aprendemos, com consistência acadêmica, científica, nos traz “conforto” na aprendizagem. Nos deixa elaborar mais conhecimentos que não venham carregados de senso comum e inverdades. Educar sexualmente é educar para o respeito, diálogo e prazeres. Isso deve fazer bem para todo mundo.

Outro tema que muito tem se falado nos dias de hoje é o estupro de vulneráveis, que faz parte também deste universo de sexualidade e infância. Você acredita que a nossa cultura em relação à sexualidade, que ainda hoje é mantida, poderia estar contribuindo para este mal?

Sim, eu creio nisso. A criança, ao não aprender sobre educação sexual emancipatória com os adultos da sua vida (pais/mães, responsáveis, profissionais da educação), pode ser vítima de violência sexual. Muito difícil se proteger do que não se conhece. Educar sexualmente, emancipa uma pessoa, tanto para proteção quanto para escolhas saudáveis em sua vida.

Produzido pelos estudantes Giulia Cordeiro, João Henrique Belli e Weverton Klein na disciplina Técnicas de Reportagem e Entrevista I

 

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