Literatura | Edição #483 - 28/06/2018

A despedida mais amarga que cerveja

No meio do caminho tinha um boteco, tinha um boteco no meio do caminho

Gabriel Trevisan
Estudante de Jornalismo

(Imagem/Arquivo pessoal) [1]

(Imagem/Arquivo pessoal)

No percurso para casa, resolvo parar em um bar e tomar uma cerveja. Sentado em uma cadeira de metal, atrás de uma mesa de plástico amarela com dizeres “desce redondo! ”, em letras vermelhas, aprecio o copo americano cheio de cerveja – mais cheio de espuma do que cerveja, na verdade. Levando o copo à boca e bebendo bem devagarzinho, sinto o gosto amargo daquele momento. Na verdade, busco evitar escrever minha despedida ao Jornal Matéria Prima. A saudade me assusta.

Inspiro… Expiro… Então, em um momento de coragem, que começa a “subir” junto com o álcool, puxo da bolsa em meus pés uma caneta azul. Com uma mão ainda segurando o copo, estico a outra em busca de um guardanapo de papel. Como quem assina um testamento, sabendo que irá morrer, começo a escrever: “Assim eu quereria minha última crônica…”  então, subitamente paro. Essas palavras não são minhas. Um futuro jornalista deve escrever as próprias palavras.

Em um movimento de vai e volta, risco inúmeras vezes a frase com a caneta. Enquanto busco olhar em volta, atrás de inspiração, reparo que o boteco é um lugar pitoresco, com várias mesinhas de bar “amarelo-skol”, cadeiras vermelhas de metal e pôsteres de mulheres seminuas com cerveja nas mãos. Mas ainda não há inspiração. Tento buscar no cotidiano daquele lugar algo que torne a escrita mais leve e transforme a saudade em um fardo fácil de carregar.

Como quem assina um testamento, sabendo que irá morrer, começo a escrever

Fito o copo americano vazio e o encho novamente de cerveja. Bebo. Gole por gole, sinto de novo o gosto amargo na boca. Em mais uma tentativa, pego a caneta da mesa e começo a escrever no pedaço de guardanapo de papel um pedido de desculpa. “Desculpe-me por tanta raiva. Por todos os xingamentos que fiz a você. Por todas as vezes que reclamei de escrever crônicas, entrevistas, artigos de opinião, criticas de mídia e diversos outros gêneros…”

Novamente paro. “Desculpa? ”, penso eu. Esse JMP me faz passar é muita raiva. Noites em claro, pensando em pautas. Dinheiro gasto em Uber para ir atrás de entrevista. Horas escrevendo textos que, no final, teriam os erros expostos para toda a Redação do jornal. Faço um enorme X no pedido de desculpa e volto a escrever no papel. “Eu odeio você. Ainda bem que chegou ao fim, já estava cansado de tudo isso e toda a dor que você me causou, todo o esgotamento físico e emocional. Finalmente liberdade, JMP! ”

Levanto-me da mesa com o papel na mão. Dirijo-me ao balcão e pago a cerveja. Durante a conversa, enquanto aguardava o troco, a garçonete diz:

– Vi você escrevendo. Gosta de escrever? O sonho do meu filho é ser jornalista e um dia escrever para um jornal.

Engulo seco e apenas respondo com um aceno de cabeça. Esse também, um dia, foi meu sonho, escrever para um jornal.

Já na frente do bar, olho o guardanapo manchado de caneta azul e de muitos sentimentos. Em um gesto terno, faço uma bolinha de papel enquanto caminho em direção a uma lixeira. Deposito ali o guardanapo enquanto sussurro “obrigado por tudo, Jornal Matéria Prima”.

Viro as costas e continuo meu caminho para casa.


Artigo impresso de Jornal Matéria Prima:
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