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  • Última Edição: #483 | 28/06/2018 - Ano XIX
 
Cultura | Edição #477 - 07/05/2018

“Van Gogh é minha orelha e Belchior o meu bigode”

Gero Camilo é poeta, artista da dramaturgia, da música e da literatura

Adevanir Rezende
Estudante de Jornalismo

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Durante a edição de 2017 da Festa Literária Internacional de Maringá (Flim), o Jornal Matéria Prima teve a oportunidade de entrevistar um dos convidados do evento, o artista Gero Camilo, 47, que apresentou na noite de abertura (26 de outubro) o espetáculo “Caminham Nus Empoeirados”.

Em uma conversa sobre a história de vida e carreira, Gero mostrou que, para ele, esses são aspectos indissociáveis da própria história. Além disso, apresentou a visão que tem sobre a arte, o momento atual do Brasil e como a sociedade e a dramaturgia se relacionam.

Nascido em Acopiara, Ceará (367 km de Fortaleza), como Paulo Rogério da Silva, Gero é um homem de 1,6 metro de altura, mas artista de grande talento. Começou no teatro aos 19 anos e fez graduação em Escola de Arte Dramática (EAD) na Universidade de São Paulo (USP).

Em quase 30 anos de carreira, acumula inúmeras peças como ator, dramaturgo e diretor. Também tem livros publicados e uma ligação com a música, com dois discos lançados. Rosto conhecido também por trabalhos na televisão e no cinema, onde chamou a atenção em Carandiru, em 2003.

Você é um artista de carreira ampla, com trabalhos na música, literatura, cinema, televisão e, principalmente, teatro. “A Procissão” e “Aldeotas” são textos seus, sucesso de crítica nos palcos também. Como você enxerga sua trajetória e carreira?

Vem de muito menino a minha relação com a poesia. Digamos que é o ovo, a semente, a poética e a escrita para mim é isso. Quando comecei em Fortaleza, já exercitava a escrita como expressão da minha imaginação e fui desenvolvendo isso de lá e por toda a minha carreira. Quando fui para São Paulo e entrei na EAD, mesmo lá dentro meu trabalho era de interesse na dramaturgia, já era uma continuidade dessa compreensão poética que eu trazia comigo lá de Fortaleza desde criança. Gosto de dizer que, acima de tudo, eu sou um poeta. Isso me dá uma carta de alforria relacionada a todas as outras áreas, porque as outras, de qualquer maneira, pedem a poesia. Não necessariamente para a escrita, mas sim a poética do olhar, a poética dos sentidos. A arte lida com essa poética do susto, do espanto, mas ainda assim a poética. Eu me sinto como um artista com a liberdade de me chamar poeta, pois eu dialogo fácil com os outros canais sem gerar tanto ciúmes, invejas e conflitos de gênero, sem dividir. As pessoas gostam de compartimentar… tal pessoa é ator, a outra é cantora. Com a minha identidade poética eu consigo calar isso. “A Procissão” foi minha primeira escrita, antes de sair de Fortaleza. Fui para São Paulo em 1994 e a peça eu escrevi em meados de 1993, mas só estreei ela quando me formei, em 1998. Foi o texto que usei como parte da avaliação prática do vestibular e depois, quando me formei, fui para a vida e recuperei o texto, que ainda era inédito, mas já tinha me aberto as portas da arte dramática. Daí resgatei ele e comecei a fazer. “Aldeotas” é a minha pérola, tenho muito carinho e o público também. Já faço há mais de 12 anos e é sempre um sucesso de público e de crítica. Ela é atemporal e, pelo menos na minha pequena existência, ela consegue se ressignificar sempre e por isso ela é um sucesso. Não reescrevo minhas peças, mas é impressionante como elas, de qualquer maneira me renovam em possibilidades cênicas. O teatro tem isso, de se renovar. Eu sempre descubro coisas nesses textos. Em “Aldeotas” eu não tenho vontade de mudar absolutamente nada [ênfase especial do entrevistado]. Não costumo mexer nos meus textos depois que eles já estão soltos, não. Não por pudor, isso não tenho. É que no meu processo de escrita eu deleto mais do que escrevo, então não tenho apego às palavras, até porque para mim elas são só isso, palavras. O que me interessa é o homem. O poeta sempre teve e ele foi crescendo com o homem, então há um momento revolucionário que é dizer ser poeta, e isso é muito libertador. Não vou falar da liberdade alheia, mas na minha, ser poeta é revolucionar. Não é uma revolução armada, é uma revolução íntima, que também se exterioriza e chama a atenção.

Refletindo isso, essa importância dada à figura do homem, outra obra muito conhecida e reverenciada da sua carreira é “A Casa Amarela”, uma homenagem a Van Gogh. E o que é o homem Van Gogh na vida de Gero Camilo? Como foi adaptar essa história da Holanda para o Brasil?

[O entrevistado ficou reflexivo por alguns segundos e, com brilho nos olhos, emocionado e inspirado, voltou às palavras]

Van Gogh é muito importante na minha formação, sabe? Então ele é o homem e é o artista, nesse sentido. Eu tenho uma comunhão com os pensamentos do Van Gogh, com a literatura do Van Gogh, ou seja, ele está nessa figura de poeta que eu falo. Hoje, diria que ele é, acima de tudo, um poeta, porque ele tem essa força. Então, para mim ele é o homem poeta. As questões do homem são universais e as do artista também. Por mais que existam diferenças entre os países mais desenvolvidos e os menos desenvolvidos, a existência é a mesma. Minha identidade com o holandês está na humanidade dele, está na defesa dele em relação aos direitos humanos, na visão política do mundo, a defesa aos pobres. Van Gogh tinha uma militância política e espiritual fortíssima e que as pessoas não falam muito, mas sempre esteve presente na obra e na vida dele. Eu, como artista, também tenho pensamentos parecidos. Tenho militância política, defendo direitos humanos, vou para alguns embates intelectuais que penso serem necessários para que o mundo se transforme e seja um pouco mais igualitário. Então, essas me identificam muito com Van Gogh. A possibilidade de “comê-lo” vem de uma antropofagia que é muito brasileira e eu também trago. A minha visão em relação aos clássicos nunca é uma visão clássica, é sempre uma visão de quem quer comer aquilo e transformar em algo atual, por mais que tenha sido escrito em 1800 e tanto, como eram as cartas de Van Gogh. Elas ainda são muito atuais e transpô-las para o meu ser artístico é fato. Comer Van Gogh é muito bom. Um artista completo. Ele comia as próprias tintas e eu como as palavras dele. Sobre eu mesmo ser devorado…. Ah, eu acredito que sim. Lidar com isso…. É gostoso [risos]. Quando eu “como” Van Gogh eu gosto, então quando imagino que alguém me come isso me faz bem. Essa antropofagia é saudável, pois ela é muito fruto da nossa miscigenação, misturada entre o colonialismo e o nosso povo indígena, nosso povo negro. A gente é mesmo essa mistura e isso facilita, a antropofagia é uma expressão fácil de ser vivida, mesmo que por vezes seja difícil de ser notada.

A resistência e a inteligência humana não sucumbirão perante a idiotice

O seu estado, o Ceará, tem elevados índices de educação básica, um reflexo numérico bastante positivo, mas a educação envolve mais elementos de formação. Como a cultura, a arte e a poesia age além dos números e refletem a realidade do cidadão?

Cara, nesse momento que vivemos é tudo complicado, num regime de golpe, em que o país está sendo desmontado em todos os lugares por gente corrupta. Então, eu só posso falar de resistência agora. Estamos sofrendo as consequências de um país sem leitura, de uma educação sucateada durante décadas. Sinto nosso povo frágil, sem subsídio intelectual suficiente para poder compreender essa conjuntura e responder a ela de forma imediata, inteligente e incisiva enquanto leis que garantiam direitos básicos e conquistas sociais sejam derrubadas por legalistas. É um golpe que não se dá pela força, mas que se dá pela própria lei, uma ditadura formada e respaldada pela democracia, com leis moldadas pelos golpistas. Por falta de educação e o sucateamento de tudo isso, a resposta do povo brasileiro é uma resposta minguada, sem força intelectual. Estamos perdendo nossos intelectuais e nossos quadros não estão sendo renovados ainda. É claro, ainda serão renovados, pois a resistência e a inteligência humana não sucumbirão perante a idiotice, ainda que seja respaldada por uma aparente maioria.

Quando falamos de uma resistência, uma das grandes figuras que vêm na memória do Brasil é Belchior, também cearense e para quem você recentemente gravou um CD. Como a figura dele influencia a sua resistência?

O Belchior representa na minha trajetória, o mesmo que o Van Gogh, como um artista de resistência, que traz o novo. Van Gogh é minha orelha e Belchior o meu bigode [risos]. Aí vou montando esse corpo que eu sou a partir dessas referências. A antropofagia, esse ato de “comer” a obra do outro e expressar de uma forma própria aquilo é libertador. Quem assiste à minha interpretação de Belchior, assiste a exatamente isso, não vai me ver tentando ser o Belchior. Quando “como” os outros eu dou o meu próprio depoimento sobre isso.

Não tenho como fugir disso, da sua carreira no cinema e na televisão. Você trabalhou em obras muito diferentes, como “Carandiru (2003)” e “Hoje é dia de Maria”. Como é essa experiência entre o teatro, a telona e a telinha?

Para mim o audiovisual depende muito do teatro e, às vezes, nem tem entendimento disso, muitos diretores e produtores não sacam isso. Acho muito importante, mas confesso que nesse momento em que estamos vivendo o esgarçamento do visual, estamos nas redes sociais e fazendo um videozinho aqui, outro ali… tudo isso é muito legal, mas também se esgarça pela falta de realismo. No sentindo que não é o naturalismo das interpretações que o audiovisual, careta, se apega em reprodução. Também porque é o país que tem uma formação televisiva muito marcante, com teledramaturgia rasa, pois supõe-se que o povo não precisa se aprofundar. Teledramaturgia não tem que ser rasa e o cinema tem que buscar mais o teatro do que a televisão. Os diretores escolhem atores de televisão para os filmes, que são formados no naturalismo superficial, de teledramaturgia baixa. Isso me faz criticar o audiovisual e considerar ele frágil nesse momento, longe da representação brasileira. Por vezes, é mais amador que o teatro e torna-se. O cinema brasileiro ainda é branco, de classe média, de olhos azuis e de dramaturgia rasa, salvo alguns poucos diretores. Conta-se na mão, e contar na mão num país que é continental, como o Brasil, significa que o teatro está melhor que o cinema. O teatro não é de elite, não. As pessoas que estão acostumadas a achar que o teatro é essa caixa burguesa com ingressos a R$ 120, R$ 150, e não entendem que o teatro acontece nas periferias, nas escolas, nas praças públicas, nas resistências, é onde acontece mesmo. Eu tenho preocupação com o homem de teatro, na questão da sobrevivência. Mas o teatro está falando em todos os quesitos de quem precisa, seja do cinema ou do artista de rua. O teatro é igual água, vai se espalhando e sem forma definida. Claro, precisa de estrutura, de uma sociedade que entenda e invista nisso, que valorize. Agora, isso é mais importante do que isto [aponta para o celular]. Cada um tem sua caixa de Pandora, com as próprias tragédias e desgraças, e há de ter uma esperança em cada um. Mas esperança está no sol, enquanto isso é um satélite, mas nós somos o sol e o teatro é o próprio brilho. Você tem que decidir entre ver o brilho da estrela ou o satélite. Devemos receber o brilho natural e não uma onda mastigada. O audiovisual é legal, mas é o brilho da estrela morta da dramaturgia. Para sentir isso vivo, precisa ir para o teatro. É lá que isso acontece e, quando você encontrar com ele, desliga a caixa de Pandora e traga só a esperança.

Gero Camilo conversou com o JMP sobre a arte e sociedade

Gero Camilo conversou com o JMP sobre a arte e sociedade (Arquivo Pessoal/Adevanir Rezende)

 

 

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