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  • Última Edição: #483 | 28/06/2018 - Ano XIX
 
Literatura | Edição #478 - 14/05/2018

Ele já estava morto, só faltava provar a todos

Engulhou-se dos próprios passos que levaram-no àquele arranha-céu

Weverton Klein
Estudante de Jornalismo

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Imagem / Pixabay

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Deu  três passos para esquerda e sentiu o vento acariciar a face. Lembrou-se do toque suave da mãe, dos dedos delicados que percorriam pelos cabelos enquanto contava-lhe histórias que nunca tinham fim. Angustiou-se. Há meses que não a via. Culpou a vida adulta por tamanha blasfêmia. Culpou as contas, a faculdade e os 700 km que os separavam. Não culpou a si, porém, porque não tinha culpa. Fazia apenas o que dava. Não o que queria.

Deu mais um passo e sentou-se. Os pés ficaram suspensos no ar. Flutuavam como os pensamentos nas tardes do trabalho. Lembrou-se delas. Todas iguais. Sem vida, sem emoção. Eram apenas recortes da mesma cena repetidas inúmeras vezes até enjoar. Já havia enjoado, porém.

Engulhou-se do mesmo modo por outras mil coisas. Dos dias que eram iguais e das conversas que não lhe ensinavam nada. Dos discursos vazios e dos gritos angustiados que só ele ouvia. Engulhou-se de cada ser sobre a Terra e até mesmo dos que estavam no céu. Engulhou-se inclusive dos próprios passos que levaram-no àquele arranha-céu.

Olhou para baixo. As pessoas, os carros e tudo pareciam minúsculos sob seus pés. Por um instante, pareceram-se como ele. Insignificante. Não satisfez-se com isso, porém. Repudiava tal conduta. Repudiava quem diminuísse os outros, para publicitar suas qualidades. Conseguiu sentir apenas pena daquela gente toda. Estavam fadados a se tornar um dia o que ele foi. Nada.

Para ele, o medo só existia quando poderia perder algo; ele já tinha perdido tudo

Inclinou-se para frente. Não sentiu medo. Sentiria, se tivesse algo com o que se importava. Mas não tinha. Para ele, o medo só existia quando poderia perder algo. Ele já tinha perdido tudo.

Soltou o corpo e flutuou como uma folha numa tarde de outono. O vento tocou a face novamente. Dessa vez mais forte. Como se repreendesse-o por tal blasfêmia. Lembrou-se da mãe, outra vez. Dos dedos enrolando nos cabelos e das histórias que ela lhe contava. Numa dessas vezes, ela havia lhe dito que a vida era como uma das histórias que ela contava.

Na dele, como sempre fazia, havia adormecido antes do fim.

Discussão e comentários »

Um comentário | Deixe seu comentário

Sandra disse:

Que pena, cara, às vezes a sabedoria está em esperar a solução no minuto seguinte, na próxima semana ou no mês que vem, mas você não quis dar essa chance a você mesmo e achou que tudo iria acabar quando na verdade, NADA ACABA. Você já deve ter descoberto isso, quando despertou no mesmo lugar, sendo você mesmo, com a mesma falta de tudo e de Deus.

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