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Jornal Matéria Prima

 
  • Última Edição: #483 | 28/06/2018 - Ano XIX
 
Sem categoria | Edição #479 - 21/05/2018

As instáveis veredas percorridas na vida

A ausência do não pertencimento sempre habitará na carne de quem zarpou

Gabriela Medrano
Estudante de Jornalismo

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Mesmo sendo insípida, a água não tinha mais o mesmo gosto. O frio seco de marcantes temperaturas gélidas com o que eu já me havia acostumado não se comparava com o frio úmido que filtrava as camadas de roupa chegando até os ossos.

Dessa vez, o vento arrastou-me longe demais. Fui encarnada sobre terras vermelhas, e mesmo assim sinto-me perdida no mapa – quase quatro anos passaram-se desde meu retorno.

Cruzam-se as palavras em minha insana consciência quando bebo

Dizem que, ao nascer, somos como folhas em branco que vão sendo preenchidas conforme existimos. Minha folha ainda tem inúmeras lacunas.

Faltando uma hora para a virada de ano, minha mãe já estava na cama, pois tinha que trabalhar. Por isso, aprendi a considerar datas comemorativas como se fossem dias comuns.

Ser imigrante nunca foi fácil, mas a qualidade de vida que o país oferecia valia cada desfeita. Agora, em uma cidade onde te julgam pelas roupas que veste e pelo veículo que tem, dou ainda mais valor a cada gota de suor derramada pelos meus pais nos corredores de um mercado qualquer.

Madri sempre estará presente.

Cruzam-se as palavras em minha insana consciência quando bebo algumas cervejas a mais. Sorrio a estranhos com a mesma fisionomia de pessoas de lá. Iludo-me ao pensar que posso divagar serena pelas ruas à noite – pura quimera.

Lá fora o sangue latino vibrava em minhas veias. Em certas ocasiões, o futebol e a caipirinha despertavam certo alardeio em mim. Na verdade, despertavam mais que isso: saudades da minha terra natal.

Porém, de volta às origens, restou-me um vazio. Partículas do tempo foram extraviadas. Velhas caras conhecidas por eles, no dia a dia, convertem-se em novidade.

De novo, a sensação de não se sentir pertencente ao lugar.

E os dias se passam assim. Quando todos se giram à bandeira para levar a mão ao peito e cantar, há uma voz que permanece calada. A voz de quem ao longo de quinze anos não tinha letra a ser cantada durante o hino.

Sem pátria, nem bandeira.

Espalho-me pelo mundo como uma semente de dente de leão

Espalho-me pelo mundo como uma semente de dente de leão (Imagem/Pixabay)

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Sem pátria nem bandeira, súdita da intensidade

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