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Educação | Edição #473 - 09/04/2018

“Não se toca no corpo se não é permitido”

A pós-doutora Eliane Maio defende ensino igual para combater assédio

Murillo Saldanha
Estudante de Jornalismo

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Eliane acompanhou a investigação de casos de assédio na UEM (Imagem/Murillo Saldanha)

Eliane acompanhou a investigação de casos de assédio na UEM
(Imagem/Murillo Saldanha)

Mesmo recuperando-se de uma cirurgia para tratar da sinusite, a pós-doutora em Educação Escolar Eliane Maio, 56, recebeu o Jornal Matéria Prima na casa dela para uma entrevista.

Apesar de ter saído do hospital na noite anterior Eliane, que deveria estar de repouso, se animou com a pauta da entrevista: O assédio sexual no ambiente acadêmico. Professora na Universidade Estadual de Maringá (UEM), ela não fez parte da Comissão de Sindicância que apurou denúncias de dois professores do curso de história da UEM acusados de assediar alunas, mas acompanhou o caso.

Eliane também é coordenadora do Núcleo de Pesquisas e Estudos em Diversidade Sexual (Nudisex). Para ela, o assédio só pode ser combatido com educação. “Os pais ainda falam: “Vai lá e dá um beijo na menina que é sua namoradinha”. Não, isso é assédio, não se toca em um corpo se não é permitido. Se educarmos para igualdade isso vai acabar.”

Eliane descarta a ideia de que as mulheres querem privilégios. “Nunca queremos superioridade. Queremos igualdade, e igualdade vem da simplicidade da educação.” Na própria roupa que vestia no dia da entrevista, ela deixa o recado: “Féministe Revolution”.

Durante uma colação de grau no início deste ano, estudantes do curso de história da UEM protestaram contra casos de assédio de professores a alunos da universidade. Como as instituições de ensino podem tratar e combater casos de assédio dentro do campus?

Trabalhando os machismos e questões de desigualdade, tendo em cada licenciatura, bacharelado, em todos os cursos, uma disciplina que conversasse sobre isso. Sobre direitos humanos, igualdade de gênero ou pelo menos em aspecto de seminário. Mas quem permite? Tem instituição [de ensino superior] em que é proibido falar de gênero. Eu sei porque dei aula lá. Agora, está explicito que é proibido. Como vamos falar de assédio se não vamos trazer à tona todos os caminhos que nos levam ao assédio, o machismo e a educação diferenciada? Vejo muitas cenas assim: “filho vai lá passar a mão na bunda da gostosa”. Se ele faz a cena todo mundo dá risada, então o pai, mãe, avós e tios, não percebem o machismo nisso. Tem que ter uma educação de igualdade para não ter disparidades entre os gêneros. Dialogar, mesmo que tardiamente com 17 anos, para que fique internalizado como foi a sua educação machista, misógina e oprimida. É estudando que a gente tiraria as próprias pessoas das amarras sociais.

A universidade considerou desproporcionais as recomendações da comissão que investigou os professores e aplicou penas consideradas brandas pelas estudantes, que resolveram se manifestar ocupando a reitoria. Como você avalia a decisão da UEM?    

Eu acompanho o caso há bastante tempo, quando foi instaurada a sindicância. Foi feito todo um trabalho demorado e veio resultado. Foi muito difícil constituir a comissão porque a pessoas entravam e saiam, e também [convencer] que as meninas assediadas denunciassem, porque elas tinham muito medo. Então, as denúncias tiveram que ser muito bem pensadas, ouvindo os dois lados. Vindo do reitor, o que a gente ouviu foi que eles discordaram e deram essas penas que nós consideramos brandas. Porque para um professor meio que parece: “Fica lá no ‘cantinho’ para pensar no que você fez”. Para outro, noventa dias. É um caso complicado e complexo. Demanda tempo, e o que mais demanda é desgaste físico e emocional, porque a comissão trabalhou um monte, as meninas estão apavoradas e foram denunciadas por calúnia. Por isso que eu digo, se a gente empoderar, não teria mais um professor desse. Se um professor desse vai assediar, alguém vai dizer: “Meu corpo não. Não vou me dispor ao que você vai me pedir”.

Tudo é assédio. Mexeu comigo, no meu corpo ou na minha imagem sem diálogo

As alunas resolveram se manifestar na colação, quando já haviam concluído o curso. As estudantes ainda têm medo de denunciar e sofrerem retaliação dos professores dentro das salas de aula?

Provavelmente. Precisaram que outras vozes falassem por elas. As que falaram por elas são do Nudisex. Então, outras meninas puderam dar voz e nós somos vozes, eu me considero voz. Talvez elas sozinhas não conseguiriam pela opressão. Acaba que o assédio é meio direcionado a quem sabe que vai ficar calada e temorosa, e não as empoderadas. Quanto mais pessoas estudarem, mais a gente vai sair desse ‘desempoderamento’. Empoderamento não é ter poder, é obter poder sobre mim e assim as outras pessoas vão me respeitar.

Existe muita discussão sobre o que pode ser considerado assédio, levantado até em uma das defesas de um dos professores investigados. O que pode ser considerado assédio?

Acho que pela lei restrita, tenha lá as características, mas desde que venha incomodar, encostar em mim, falar de mim, sem estar presente ou estando presente sem poder me colocar, é assédio. Assédio sexual não é só estrupo. Essa coisa de falar para a criança, “vai ali dar um beijo na tia”, nunca me viu e vai me dar um beijo? Eu não permito. Eu não beijo criança. Ela não pode dizer sim ou não. Tudo é assédio. Mexeu comigo, no meu corpo ou na minha imagem sem diálogo. O diálogo é: “Olha eu gosto de você, podemos ter uma alguma coisa?”, isso não é assédio. Mas não é assim que os machistas fazem, eles invadem.

Declarações feitas à imprensa pelas estudantes que protestaram na colação de grau, mostram que a comunidade se assustou com os protestos. Para você, isso revela que a sociedade prefere se silenciar sobre o assunto ou a reação é de espanto, já que os casos ocorreram dentro de uma instituição de ensino?

Foram as duas coisas, eu estava lá dentro. Muitas pessoas sabiam, tanto que não eram só as meninas com cartazes, era uma comissão lá fora também. Muitas pessoas ficaram indignadas, eu estava lá dentro e não dialoguei tanto, queria estar na arquibancada. Foi uma forma para que sete mil pessoas, sei lá quantas, soubessem que a gente estava atenta, que a gente quer falar sobre isso e que seja divulgado cada vez mais. A divulgação bacana e idônea, para as pessoas que não conhecem, traz conhecimento adequado. Foi um ato histórico, polêmico e que valeu muito a pena.

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