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  • Última Edição: #483 | 28/06/2018 - Ano XIX
 
Política | Edição #476 - 30/04/2018

“É preciso participar [da política] todo dia”

Cientista social Tiago Valenciano discute o desinteresse geral sobre o tema

Equipe JMP
edição especial

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Tiago Valenciano, em visita ao Plenário do senado Federal (Imagem/ Arquivo pessoal Tiago Valenciano)

Tiago Valenciano, em visita ao Plenário do senado Federal
(Imagem/ Arquivo pessoal Tiago Valenciano)

A última edição do Jornal Matéria Prima trouxe uma entrevista com a estudante de Filosofia da Universidade Estadual da Maringá (UEM) e ex-presidente da União da Juventude Socialista (UJS) Susy Lene Batista de Oliveira. A estudante falou sobre a participação dos jovens na política, que deve ser determinante nas eleições presidenciais de 2018, em outubro.

Nesta edição, a equipe do JMP, ainda abordando a participação popular na política, conversou com o mestre em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) Tiago Valenciano, atualmente professor universitário e assistente legislativo da Câmara de Vereadores de Maringá. Por telefone, ele discutiu a participação popular dos brasileiros na política, a queda do interesse pelo debate político e, ainda, as maneiras como a internet pode impactar no modo de se fazer política, seja ao criar um novo espaço para discussões ou mesmo servindo de plataforma para campanhas eleitorais. Além disso, Valenciano dá dicas de como lidar com as fake news durante o período eleitoral.

O Brasil é uma democracia. No entanto o país passou por mais de 380 anos em um regime monárquico e, já como uma república, a democracia no país foi posta em causa. Entre a proclamação da república, em 1889, até 1945 o Brasil passou pela “república da espada”, a política do “café com leite” e o voto de cabresto, e a ditadura varguista. Só entre 1946 e 1964 e a partir de 1989 o país experimentou uma democracia de fato, e ainda viveu um regime militar entre 1964 e 1985. Isso, de certa forma ajuda a explicar o porquê da imaturidade do brasileiro quanto a participação política?

Falar de participação política é pensar no interesse que as pessoas têm em relação à política. Se não houver interesse, certamente não haverá participação. Mas como é possível que as pessoas se interessem? Os políticos precisam ofertar tal interesse? Essa é uma relação ainda complexa na democracia brasileira: o despertar do interesse a partir da classe política versus o despertar do interesse do cidadão. Temos visto na atualidade uma boa parcela de cidadãos debatendo ideias políticas na internet. Porém, é preciso avançar, principalmente sobre o que é debatido e como funciona o sistema político do Brasil. A participação só ira aumentar se o eleitorado em geral entender que a participação não acaba quando ouve o barulhinho da urna eletrônica e a mensagem de “fim” quando acaba de votar a cada dois anos. É preciso participar [da política] todo dia.

Em uma democracia, pressupõe-se que haja a participação de todos na escolha daqueles que representarão os cidadãos nos cargos políticos. No entanto, percebe-se que cada vez menos pessoas têm tido interesse em eleger os representantes. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 2010 a soma de votos brancos, nulos e abstenções chegou a 34,2 milhões. Já nas eleições de 2014, 38,7 milhões de pessoas deixaram de votar em alguém. Por que essa falta de interesse?

Há a falta de interesse por vários fatores. Dois, a meu ver, são os principais: [em primeiro lugar], a dificuldade do cidadão entender como funciona o sistema político e a função de cada cargo. [Além disso,] As notícias ruins sobre a política, afastando o cidadão dela. Não há uma boa notícia nos jornais sobre a política. E olha que é possível encontrá-las. Sem a boa propaganda será difícil que as pessoas passem a enxergar a política como algo bom, positivo.

Um levantamento feito pelo instituto de pesquisas Mapa e da empresa de inteligência digital MrPredictions, divulgado em janeiro pelo site da revista Exame, apontou o candidato a presidente Jair Messias Bolsonaro (PSL) como o mais popular nas redes sociais, e percebe-se um forte engajamento por parte dos seguidores em difundir as ideias do candidato. O que o faz, mesmo não realizando campanha em mídias tradicionais (TV e Rádio, por exemplo), um dos favoritos a eleição. Visto isso, você acredita que ele seria um exemplo de como realizar campanha política nas redes sociais?

Engajamento na rede social não significa, necessariamente, conversão em voto. Não somente o Bolsonaro, mas diversos candidatos, cada um de um modo, têm utilizado as redes sociais para fazer a chamada pré-campanha. A experiência que tenho trabalhando com candidatos e políticos, aliado aos estudos sobre o tema, nos mostra que sem conteúdo não há engajamento. Não estou aqui afirmando que o candidato tem conteúdo ou não, mas o que ele “vende” nas redes sociais certamente atrai boa parcela de seu eleitorado, tem chamado a atenção. Se, de uma hora para outra, por exemplo, o Bolsonaro postar algo que não condiz com o perfil dele, certamente o engajamento irá diminuir. Logo, o estilo de fazer política permanece, só mudou a plataforma. É preciso ter ou vender algum tipo de conteúdo, transformado em confiança na hora de votar, para que alguém seja eleitor. A propaganda saiu da TV e das ruas – em menor escala – e migrou para a internet.

A propaganda saiu da TV e das ruas – em menor escala – e migrou para a internet

Às vésperas das eleições presidenciais americanas, em 2016, notícias (mais tarde confirmadas como falsas) publicadas na internet apontavam a candidata a presidente Hillary Clinton como líder de um esquema de abuso sexual infantil, que funcionava nos fundos de uma pizzaria, um caso que ficou conhecido como “pizzagate”. Apesar de falsas, as notícias afetaram a candidatura da democrata. Com as eleições presidenciais no Brasil se aproximando, como lidar com a proliferação de fake news na política?

O fenômeno fake news é inevitável no processo eleitoral brasileiro, muito por conta de dois fatores: a não aceitação da derrota, por parte de alguns grupos políticos, que produzem as próprias notícias falsas, elevando o sentimento de torcida, aliada à paixão – e não de racionalidade – na política. [O segundo fator,] O forjamento de conteúdo, criando uma espécie de “vitimismo”, seja para difamar o opositor, seja para se autodifamar. Esses aspectos complicam – e muito – uma melhoria na qualidade do debate político do país. É preciso saber conferir, com diversas fontes, se as notícias que soarem estranhas são verdadeiras ou não. Só assim é possível amenizar este fenômeno.

Certas pessoas, como especialistas, executivos, celebridades, jornalistas, etc., pela presença na mídia, têm a capacidade de moldar a opinião do público. No entanto, a internet permitiu o surgimento dos chamados influenciadores digitais (por exemplo, os youtubers) que, por meio das redes sociais e das plataformas digitais, formam a opinião daqueles que os seguem. Quais os impactos dessa nova classe de influenciadores no debate político?

Os influenciadores digitais até agora não tiveram nenhum papel relevante para as eleições de 2018, muito em conta do tipo de conteúdo que eles “vendem”: entretenimento. O Youtube, plataforma mais utilizadas por esses “profissionais” é um espaço de entretenimento por natureza, e não do debate político, mais direcionado atualmente para o Facebook. Considerando essa característica do Youtube, principal plataforma utilizada por essas pessoas, creio que o papel delas é muito mais voltado para influenciar comportamentos, tendências da moda, venda de produtos do que de candidatos. Basta observar as recentes polêmicas de artistas que se envolveram em questões políticas polêmicas e foram bombardeados negativamente por seus fãs. Creio que os youtubers não almejam atrair esta “fama negativa”, pois esses, sim, precisam de audiência diariamente para sobreviver na rede.

 

Produzido pelos estudantes Carlos Henrique Rosa, Laís Rocha e Talita Camozze, na disciplina Técnicas de Reportagem e Entrevista I.

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