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Política | Edição #475 - 23/04/2018

“2013 foi uma escola política na prática”

A líder Susy Lene de Oliveira fala sobre a participação de jovens na política

Equipe JMP
edição especial

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Estudante Susy Lene Batista de Oliveira (Imagem / JP Romero)

Estudante Susy Lene Batista de Oliveira (Imagem / JP Romero)

Daqui a seis meses, exatos 167 dias, teremos que nos dirigir às urnas para eleger o presidente que irá governar o país pelos próximos quatros anos. Tempo considerado pequeno para incluir os jovens na política. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), jovens entre 16 e 29 anos representam 27% do eleitorado nacional, ou seja, o voto dessa camada da população deverá ser determinante nas eleições de outubro. Os recentes escândalos e prisões envolvendo políticos do Brasil, desmotiva grande parte das pessoas a se envolver com a política. Com os jovens não é diferente.

A participação dos jovens na política em 1989 em comparação com a atualidade não é mais a mesma, embora muitos jovens preferem não se envolver com nada relacionado à política, outros demonstram um grande interesse público pelo assunto, como é o caso da Susy Lene Batista de Oliveira, 22 anos, estudante de Filosofia da Universidade Estadual de Maringá. Susy, presidiu a UJS (União da Juventude Socialista) de 2014 até 2016. Por telefone, ela conversou com a equipe do Jornal Matéria Prima sobre a atuação dos jovens na política.

Em 2014, 140 milhões de brasileiros estavam aptos a votar. Desse total, um terço dos eleitores (quase 45 milhões) era formado por jovens de 16 a 33 anos. Qual o peso do voto dos jovens na política brasileira?

Acredito que grande, não só numericamente, mas também é expressivo ideologicamente. É o momento de a juventude questionar o que está imposto. Questiona-se a política ultrapassada, a forma e o método em que o voto se dá. Porém, temos movimentos de massa midiáticos e financeiros que desmotivam o movimento de resistência. Uma pequena parcela da juventude participa de movimentos mais clássicos, como os processos partidários e no Brasil temos grandes coletivos organizados. No entanto, nos últimos quatro anos, deu-se uma visibilidade a novos coletivos, que somados, dá bastante gente, como o movimento negro, LGBT e outros. Esses movimentos são bem expressivos numericamente se comparado a outros países. Como faço parte do movimento hip-hop vejo que, mesmo nessa vertente não partidária, muitas pessoas conseguem levar essa postura da política, como ideologia. Já os partidos, em contrapartida, vem perdendo adesão e participação dos jovens. Isso de deve, primeiramente, a pouca tradição política no Brasil. Também tem a criminalização da organização política popular no nosso país. A grande mídia mostra que é quase criminoso participar de movimentos de esquerda, como se fosse algo chato, sem interesse para vida social.

 É o momento de a juventude questionar o que está imposto.

Os jovens com mais de 16 anos, aptos a votar, cresceram vendo o PT no poder, que esteve no regime durante 13 anos consecutivos, de 2003 a 2016. Os escândalos envolvendo esse partido, como o impeachment da presidente Dilma, e a recente prisão do ex-presidente Lula desmotivou os jovens?

A gente acompanha bastante o governo que veio até então do PT, o interessante é ver que mesmo com ações e discursos mais populares, e apesar de ter transformado uma grande parcela da população em emergente, o que estava mais interiorizado na juventude não se reformulou. Tivemos um grande crescimento e incentivo da participação política dos jovens, pela regulamentação do ME (Movimento Estudantil) dos produtores culturais, pela Lei Rouanet, mas não conseguimos por exemplo, questionar a forma de construção do que é passado na televisão e nas rádios, veículos que formam ideologicamente as nações. Apesar do grande incentivo, a gestão não foi capaz de reformular os pensamentos. Teve um crescimento da participação, mas ainda não o suficiente. Talvez mais alguns anos no poder viabilizassem isso. Será que 12 anos de governo eram suficientes para fazer essa mudança? Em relação aos escândalos, creio que desmotivou não só os jovens, mas toda a população. O jovem está em momento de querer se divertir, não quer saber de perseguição jornalística. Isso só vai desmotivar. O problema não foi só em questão dos processos políticos, mas a forma que isso foi passado, toda a estética que colocavam por trás, mostrando que não existe uma política positiva, que o pobre que não é diplomado não pode ser político porque isso só vai gerar ações criminosas, todas essas máximas foram para desestimular a participação popular na política.

As manifestações de junho de 2013 foram compostas majoritariamente por jovens. Qual foi o legado deixado pelo ato?

De grande aprendizado, tanto para a esquerda quanto para direita. Mostrou que a população que não está filiada a algum partido tem opinião política, e muito. Ficou escancarado que não é porque a pessoa não tem partido definido, que ela não pode participar ativamente do processo político. Principalmente os jovens, o estímulo foi tanto que depois de 2013 houve a movimentação da Primavera Secundarista. Na verdade, 2013 foi uma escola política na prática, tanto para quem estava organizando, como para quem não estava. Mostrou que a juventude brasileira tem força, só somos muito domesticados. Trouxe uma rearticulação dos movimentos políticos, que abriram os olhos para o fato de que não se precisa estar nos partidos para agir de forma organizada.

Na história do Brasil, é nítido que os jovens ajudaram na mudança da estrutura política, como na campanha “O Petróleo é nosso”; na época da ditadura; no movimento Diretas Já; no movimento passe-livre em 213, entre muitos outros. Por que hoje as “mobilizações” não passam somente de reclamações nas redes sociais?

Precisaríamos fazer uma avaliação da política no continente, tanto pela cultura de sermos reprimidos, reflexo da ditadura, quanto por esse ataque à participação, e também pelo fato de vivermos hoje na era tecnológica. Os movimentos contemporâneos de negros, mulheres, entre outros, que se organizam nas redes sociais, também vão às ruas, porém tão pouco quanto a esquerda institucionalizada tem tido. O que vejo é que há um certo repúdio a esse modo tradicional de organização, modo de estar em passeatas, na rua, em gabinetes e afins. Como esses movimentos estão tomando força agora no Brasil, eles também estão em um momento de transição, assim como toda a organização política nacional. Antes, o movimento tradicional era a base de panfletos, por exemplo, e estamos entrando, agora, no século 21 e isso faz com que tudo seja repensado. Como vamos atuar politicamente nas redes sociais? É um processo de transição política, a gente está aprendendo, pois existem muitos mecanismos assediando os jovens e porquê de não estarem na rua. Não sei se é por opção, medo ou por algum motivo desse processo midiático, mas eles estão tentando. É hora de renovar, um tem que aprender com o outro, estamos falando de um processo de transição para os clássico e para os contemporâneos. Espero que vá chegar o momento que essas estratégias vão se fundir, como o lema da UJS “nas redes e nas ruas”. Falta a transversalidade entre os dois.

O jovem é influenciado ou é influenciador na política? Ele seria o futuro da política?

O jovem é influenciado por ser o grande ator de influência política na sociedade. Em alguns momentos conseguimos quebrar o padrão ideológico existente na sociedade. A gente se articula de uma maneira muito da hora. Hoje tem vários coletivos independentes que questionam esse padrão de pensamento, capitalista, racista e heteronormativo só que acabam tendo pouca visibilidade dentro do processo de articulação midiática que vivemos. O jovem é o presente do país, só que, muitos partidos, sabendo disso, acabam investindo e pensando futuramente no jovem como o futuro de investimento financeiro em campanhas. Tem muitos partidos que veem o jovem como uma moeda mesmo, um objeto de investimento para agregar valor. Grandes partidos liberais e de direita investem no jovem como futuro, mas para articular as demandas deles próprios, essas demandas velhas e arcaicas que a juventude que pensa em um progresso de pensamento se opõe. Pensam em jovens como apenas futuro investimento, como se fossemos uma carta de investimento. Mas o jovem, de fato, é o presente e quando a gente se der conta e conseguirmos burlar esses mecanismos de dogmatização a gente vai conseguir modificar nosso presente de uma forma ampla e massiva a ponto de também modificarmos o nosso futuro. E nós, jovens conscientes, sabendo disso, ao mesmo tempo que nos movimentamos contra a maré, também saímos à vista de outros grupos políticos que nos impedem de desenvolver esses projetos independentes e também tentam influenciar o resto da juventude para não ter essa independência e autonomia que o jovem tem que ter para construir a sua própria história.

 

Produzido pelas estudantes Amanda Watanabe, Bia Fortunato e Bruna Araujo, na disciplina Narrativas Jornalísticas.

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