Literatura | Edição #472 - 29/12/2017

As fotos de famílias não revelam tudo

Naquelas fotografias, ele via também as lembranças daquela época

Weverton Klein
Estudante de Jornalismo

(Imagem/Weverton Klein) [1]

(Imagem/Weverton Klein)

Àquela manhã, enquanto arrumava a bagunça do quarto, encontrou jogado no fundo do guarda-roupa, dentro uma pasta antiga, um empoeirado álbum de fotografia. Pegou-o, e com cautela, espanou a poeira do objeto. Os olhos lacrimejaram e a rinite lhe deu os primeiros sinais de vida. Ignorou-a e sentou-se na cama, curioso pelas lembranças que estariam perdidas ali.

Logo que abriu, deparou-se com a fotografia do casamento dos pais. A mãe sorria, feliz, enquanto o pai tentava disfarçar a tensão num sorriso de canto de boca. Lembrou-se das histórias que a mãe lhe contava desse dia, da felicidade em dizer sim e das palavras ditas pelo padre ao casal: até que a morte os separe. Sentiu uma pontada no peito e uma angústia lhe consumiu de imediato. Então, trocou a página rapidamente.

As fotos seguintes, uma compilação da infância dele e dos irmãos. Uma ou outra, da família completa. Passou-a, uma por uma, e a cada fotografia, uma lembrança nova. Vezes ou outra, se prendia em uma foto. Noutras, na maioria das vezes quando era da família completa, trocava rapidamente. Parecia tentar fugir das lembranças. A última foto do álbum, contudo, onde a família sorridente posava ao lado da costela assando no chão, prendeu-lhe a atenção.

Era uma dessas fotos capaz de estampar uma propaganda de margarina. Família toda reunida, feliz e comemorado algum dia especial. Mas ele via mais do que isso naquela fotografia, via também as lembranças daquela época. Lembranças dele, pequeno, entrando no quarto dos pais e encontrando a mãe, defronte ao espelho, tentando esconder a mancha roxa no rosto com a maquiagem. Lembranças das dezenas de latas de cerveja jogadas num canto do quintal e dos irmãos apavorados quando percebiam que o pai estava embriagado.

Lembranças também de ouvir a mãe dizer que não tinha mais idade para recomeçar

Lembranças também dele, junto aos irmãos, escondido sob a cama enquanto o pai, em seus rompantes de fúria, esbofeteava a mãe. E de uma mãe, mesmo que diante da imploração dos filhos para irem embora, dizer que não conseguiria tratá-los sozinha. Lembranças também de, já grande, ouvir a mãe dizer que não tinha mais idade para recomeçar e de uma mãe, finalmente em paz, num sono profundo.

Em meio às lembranças, fechou o álbum e guardou-o novamente. Em seguida, seguiu para sala onde a filha pequena assistia um a desenho na TV. Quando viu o pai, a menina sorriu e ele não conseguiu evitar de perceber o quão parecida era a pequena com a avó. O coração apertou e tudo o que desejou naquele instante, era que ela nunca precisasse passar pelo mesmo que a mãe dele.


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