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  • Última Edição: #472 | 29/12/2017 - Ano XVIII
 
Literatura | Edição #472 - 29/12/2017

Apenas um único dia para ter consciência

Calendário é marcado pela herança católica, republicana e ditatorial

Murillo Saldanha
Estudante de Jornalismo

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Estou aqui, em frente a tela do computador, pensando no que escrever e nas consequências das minhas palavras. Deixo claro que o medo de escrever esta crônica é enorme, mas vou arriscar. Talvez, leitor, você possa me achar até extremista ou radical demais, só que precisamos falar sobre isso.

Talvez, este texto possa não causar nada em você e passar despercebido em meio a tantas outras crônicas. Mas ele tem um grande potencial de despertar reações contrárias e até de ódio. Cuidado, que dependendo da reação que tiver, leitor, esse texto pode demonstrar o quanto você ainda colabora para o sistema opressor em que estamos inseridos.

Não é você que diz que no Brasil não existe preconceito e que o racismo acabou junto com a escravidão?

Resolvi falar de um passado histórico triste e desumano que reflete no nosso presente desigual e preconceituoso. A esse passado histórico, chamamos de escravidão, época em que os negros eram privados de liberdade e amarrados às correntes dos grandes senhores.  A esse presente em que vivemos, podemos chamar de correntes do racismo, que, por sinal, são fortes, e de um material que não quebra-se facilmente, a desigualdade.

Quem sou eu para abordar esse tipo de situação? Assumo totalmente minha culpa nesse processo de abismo social, afinal de contas, o que estou fazendo para diminuir as diferenças?

Olha, leitor, isso não é vitimismo, não é “mimimi” de esquerdista, é realidade. A população negra, jovem e de baixa escolaridade é ainda a maior vítima de homicídios no país. Espera aí, não é você que diz que no Brasil não existe preconceito e que o racismo acabou junto com a escravidão?A desigualdade é latente. Clama aos nossos olhos. Grita aos olhos dos nossos governantes, nas favelas e nos grandes centros urbanos. E você com a sua branquitude toda, faz o quê? Acho que talvez oprima ainda mais, assim como faço.

As senzalas são reais, os muros ainda existem. São os negros, que sofrem com duras da polícia, que são obrigados pelos padrões de uma sociedade elitista e branca, a alisarem os cabelos, a esconderem a identidade. Basta, já não foi suficiente todo esse domínio?

Com certeza, esse assunto não é algo fácil de ser retratado, assim, por quem tem privilégios. Eu sei que temos uma parcela de culpa, e não adianta dizer que não. Somos fruto do sistema opressor e violento. Muitos de nós ainda somos ensinados que existem tarefas de mulheres e de homens, de negros e de brancos. Colaboramos, mesmo que sem perceber, com o antigo sistema da escravidão, quando nos assustamos no momento em que uma negra e trans recebe um título de doutora na Universidade Federal do Paraná e torna-se capa de todos os jornais. Ou, quando uma jovem negra passa em primeiro lugar no vestibular de medicina mais concorrido do país. Como diz a grande Elza Soares “a carne mais barata do mercado foi a carne negra. Não é mais. Repitam comigo, tá bem?”.

Não precisa concordar com nenhuma das minhas palavras. Eu também sou só mais um, que ainda colabora, mesmo que passivamente, para o sistema opressor e preconceituoso em que vivemos. Com certeza, apenas um dia de consciência negra ainda é pouco para que todas as correntes do racismo e da desigualdade sejam quebradas.

(Imagem/Pixabay)

(Imagem/Pixabay)

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Simples construções textuais para contar histórias que merecem ser conhecidas.

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