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Literatura | Edição #472 - 29/12/2017

A dor que sobrevive não quer denunciar

Inquietante meu coração palpitou, não de alegria, e sim meu último suspiro

Laís Rocha
Estudante de Jornalismo

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A realidade transita muitas vezes perto de nós. Que o silêncio não cegue a dor de uma alma Foto/Gabriel Amaral

A realidade transita muitas vezes perto de nós. Que o silêncio não cegue a dor de uma alma (Foto/Gabriel Amaral)

Ele sempre me olhava com um olhar apaixonado, um olhar que falava por si mesmo. E eu? Me derretia toda. Não sei explicar direito como ele era, mas dentro de si, era assustador. Ele sabia que eu era fraca, me considerava covarde, não tinha mais ninguém além dele. Aproveitava para fazer o que queria de mim. E eu? Deixava, pois o medo de ir embora era maior que as bofetadas que ele me dava. Cada tapa, empurrão e soco me deixaram marcada.

A minha pele está toda roxa, está vendo? Tenho grandes hematomas espalhados por todo meu corpo. Eu sei. Isso não é vida. No começo, não vou negar, gostava de ser propriedade dele. Mas com o passar do tempo, mostrou ser uma pessoa repulsiva. Chegava em casa com flores nas mãos e todo dia um pedido de desculpas, por suas grosserias e esbofeteadas. Mas ele nunca parava. Olhava-me como se eu tivesse feito algo. Sempre chegava do trabalho muito nervoso, descontando seu furor, ódio e raiva.

Certo dia, quando ele chegou em casa, eu com medo, quis agrada-lo, para não ser açoitada mais uma vez. Logo preparei um jantar, queria que visse algo bom em mim e sua alma tivesse piedade de não me machucar novamente. Estava toda arrumada, perfumada, esperando-o. Mas ele não gostou. Disse que não precisava daquilo tudo, pois era inútil. Senti-me humilhada e começamos a discutir. Ele segurou firme em meus punhos e, com força, empurrou-me.

O caminho foi sem volta e a última dor sentida era do fogo acertando meu peito

Caí em cima do vaso da sala de estar. Os cacos de vidro perfuraram meus braços e pernas. Eu só queria sair dali, daquela casa. Mas como? Se não conseguia me levantar. Pegou-me em seus braços e deitou-me na cama, pedindo perdão, dizendo que perdeu o controle “mais uma vez”. No dia seguinte, quando levantei, respirei fundo e tomei uma atitude. Assim que ele saiu para o trabalho, peguei a chave do carro e fui à delegacia prestar queixa. Voltando para pegar minhas coisas em casa, ele estava lá.

Tarde demais. Demorei para denunciá-lo e agora ele sabia o que eu tinha ido fazer. Dessa vez, o caminho foi sem volta e a última dor sentida foi o fogo e a pressão intensa, acertando meu peito. Não era pra ser assim, meu silêncio durante anos, foi o que restou em poucos segundos. Aos poucos meus pensamentos cogitavam e as lágrimas eram a única coisa que ele não poderia, más ferir, espancar e abusar.

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