Literatura | Edição #471 - 20/11/2017

O embate do menino que temia crescer

O menino, a Vida, o Tempo e aquela que não pode ser mencionada

Matheus Alves
Estudante de Jornalismo

Os relógios fazem tic-tac (Imagem by Pexels) [1]

Os relógios fazem tic-tac
(Imagem by Pexels)

O relógio faz tic-tac, o Tempo parece correr como nunca corre. O meu medo exposto aos quatro ventos. Medo, porque ainda não entendi como esse raio de Vida funciona. No momento em que acredito ter entendido, vem mais uma rasteira. Sem avisos prévios ou cortesias, estou eu, no chão, mais uma vez. Sorte a minha que ela nunca contou com minha astúcia. Todo marrento, sempre levantei. Cheio de marra, com aquela cara de quem pergunta; “Esse é o máximo que você pode fazer?”.

      O grande problema se encontra agora no Tempo. A hora dos sinos soarem parece cada vez mais perto. O meu coração escuta o som dos ponteiros indo a uma velocidade de carros de fórmula 1 e tenta competir a cada batida. Tum-tum-tum-tum-tum, alguém me ajude, meus pulmões não estão preparados para tamanha ansiedade.

      A minha voz não sai, os olhares estão fixados em mim e bocas a proferirem as maiores dúvidas; “Será que ele vai aguentar?”. “Ele ainda é só uma criança, não está pronto”. Meu corpo está travado, estou em uma jaula imaginária, da qual somente eu posso me libertar.

      O meu instinto é correr, correr até que a única saída á minha frente seja uma ilha deserta. Sem necessidade nenhuma de conforto, só desejo ficar sozinho e chorar os rios acumulados a cada minuto de vida. Rogo ao relógio que pare, eu sei que ainda não estou pronto. Em estado de espírito, à Vida eu digo; “Por favor, me dê mais tempo, eu sei que ainda não estou pronto. Eu sei que fui apressado, me perdoe”.

Só desejo ficar sozinho e chorar os rios acumulados a cada minuto de vida

      Eu fico a esperar por aquela risada maléfica dos filme de horror antigos, mas o que reina agora é o silêncio e o velho tic-tac do relógio na contagem final. Sinto o coração sair pela boca, talvez eu nem chegue vivo ao timbalar dos sinos. Só que não, que orgulho ridículo, eu não desisto.

      Blém-blém! Repicam os sinos. Chegou a hora. Os olhos deles continuam fixados. Contudo, a jaula lhes pertence agora. Eu estou livre e agora é meu momento de falar. A eles eu grito e afirmo, quem dita se está preparado ou não sou eu. À Vida afirmo; “eu sei que nunca viveremos em paz, mas não me importo, eu te aceito hoje, espero que me aceite também”. Ela espanta os olhos, vem em minha direção e logo penso: “Lá vem, mais uma rasteira”. Toda agressiva ela vem e me abraça. Choramos ambos. Mal sabia eu que o maior desejo dela era aquela ilha deserta também. Entendo agora que ambos nos decepcionamos.

      Enxugo as lágrimas e me viro para o Tempo. “Tempo, tempo, tempo, hoje completo 20, mas rogo a ti que seja meu amigo e converse com aquela à qual nem o nome pronunciei, que me forneça mais tempo”. Ele me encara seriamente e dá aquele sorriso de lado. Um sorriso que diz que ele aceita o desafio, mas que sabe que a ela ninguém dá comando.


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