Literatura | Edição #468 - 30/10/2017

Minha vida de acordo com minhas regras

Não me leve a mal, mas eu não sou de ninguém e eu sou problema meu

Isabella Higa
Estudante de Jornalismo

 Sonhar que eu vou poder ir a um bar e curtir a noite  (Imagem/Isabella Higa) [1]

Sonhar que eu vou poder ir a um bar e curtir a noite
(Imagem/Isabella Higa)

Não me leve a mal, mas eu não sou produto, nem marca e muito menos sua propriedade. Eu tenho um nome e com certeza uma identidade. Na verdade, não quero me basear em um documento, porque eu carrego uma personalidade, que vai muito além de um registro.

Meu amor, não se engane em acreditar naquela frase sem cabimento nenhum: “Em casa eu que mando”. Não é porque eu disse “sim”, no altar em frente à igreja que eu não possa mudar de ideia e dizer “não”.  “Hoje eu não faço o jantar”. “Esse sábado eu não lavo roupas e nem esfrego chão, porque, assim como você, eu também trabalhei pesado a semana toda”. Eu disse “sim” àquela hora e eu não disse “sim” para toda a eternidade. 

Não me leve a mal, mas eu não sou de ninguém. Eu não sou um brinde da noite, porque você chegou exausto do trabalho. Eu posso mudar de ideia e dizer “hoje não”. Afinal, quem manda aqui, também sou eu. Desculpe-me, querido, mas eu não me recordo que naqueles papeis que assinamos na cerimônia civil consta que eu sou legalmente sua.

Eu não nasci para ser um brinquedo, um jogo ou um brinde especial

Eu não nasci para ser um brinquedo, um jogo ou um brinde especial. Eu não vim com rótulos. Eu não sou mercadoria. Eu não sou um cachecol que é usado apenas no inverno e esquecido no guarda-roupa de alguém no verão. Não me leve a mal, mas eu não sou de ninguém e eu sou problema meu.
Se eu disse “hoje não”, é porque eu não quero. Eu não estou afim. Eu também cheguei cansada do trabalho. Eu também acordei cedo, tive 15 minutos de horário de almoço e também só cheguei às 19 horas em casa. Eu tenho a mesma rotina que você. Eu me desgasto. Eu sinto dores. Eu também coloco o dinheiro em casa.
Se eu disse “hoje não”, não vem me dizer que eu estou de TPM. Não seja tão machista. Não me estresse. Não me canse, meu amor. Eu estou exausta. Eu só quero dormir em paz, quero satisfazer meu sono. A minha vontade. O meu desejo de poder sonhar.

Sonhar que um dia eu vou alcançar o mesmo salário que meu colega que tem o mesmo cargo que eu. Sonhar que eu vou poder ir a um bar e curtir a noite com minhas amigas, sem que o amigo do meu marido me veja e me critique. Sonhar que nenhuma mulher irá se submeter a humilhações no trabalho, na faculdade ou em um relacionamento. Não apenas sonhar, mas acordar amanhã e continuar lutando.


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