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Literatura | Edição #468 - 30/10/2017

Expus meus demônios em um jogo de cartas

Às três horas da manhã me abri a um diálogo pouco convencional

Gabriel Trevisan
Estudante de Jornalismo

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(Ilustração/ Felipe Franco Tomazella)

(Ilustração/ Felipe Franco Tomazella)

Na hora mais escura da madrugada, puxei a cadeira da cozinha e chamei o demônio para conversar. Iluminados por uma lâmpada incandescente, ele sorriu. Um sorriso com belos dentes brancos, que em nada eram ofuscados pela luz amarelada do local. Seus olhos demonstravam um prazer que não conseguia compreender. Não estava com medo. Estava pronto.

O demônio não quis enrolar. Achei cordial da parte dele. Com seus longos dedos negros, colocou em cima da pequena mesa de madeira sete cartas viradas para baixo. “Escolha uma”, ele disse. Meu coração começou a palpitar mais forte. Suas palavras fizeram com que eu me sentisse triste, como se as batidas aceleradas do meu coração usassem como combustível a felicidade, que logo logo acabaria.

Estiquei minha pálida mão até uma carta de cor azul. Quando a virei, pude ver a imagem de um homem sentado em um trono de ouro. Nos pés dele haviam homens e mulheres prostrados e mais para baixo da carta estava escrito “SOBERBA”. Será que esse era eu? Eu nunca me senti superior a ninguém. Bem, teve uma vez em que… E outra vez na escola onde eu… Na faculdade eu também disse… É, esse era eu. “Anda garoto, tem muita coisa que você ainda não viu”, caçoou o demônio.

Puxei a cadeira da cozinha e chamei o demônio para conversar.

Respirei fundo e virei mais duas cartas, uma roxa e outra vermelha. “LUXÚRIA” e “IRA”. Incrédulo, olhei para o demônio como se esperasse que ele me dissesse que estava enganado. Olhava-o com um olhar pedindo para que falasse que tudo era mentira. “Esse não posso ser eu”, gritavam meus olhos. Realmente devo ter gritado, pois ele respondeu. “Eu não tenho culpa de nada minha criança.”

Virei outras duas cartas, rosa e laranja. “PREGUIÇA” e “ GULA”. Neste momento já não me sentia tão “pronto” como no começo da conversa. Em minha cabeça passavam diversas perguntas. Entre esses questionamentos um em especial aparecia com mais frequência: “Que demônio eu sou?”

Em meio a uma risada de cortar a alma, o demônio disse: “Só restam mais duas”. A felicidade já devia estar se esgotando. Já não conseguia mais ouvir as batidas do meu coração. Com um peso nas costas por começar a aceitar quem eu realmente sou, virei as duas últimas cartas de cor preta. “AVAREZA” e “INVEJA”. Olhando para elas, abaixei lentamente a cabeça e comecei a chorar. Cerrei os pulsos e gritei em meio do barulho ensurdecedor do silêncio da madrugada. Então, em meio ao meu choro, o demônio me embalou em um abraço.

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