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Literatura | Edição #466 - 16/10/2017

Ela é mulher e isso não é pouco, não

Ela fazia o impossível para não desabar, para não definhar

Andressa Jhozzenvick
Estudante de Jornalismo

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Pare de ver fraqueza onde só existe força (Imagem/ Amanda Watanabe)

Pare de ver fraqueza onde só existe força
(Imagem/ Amanda Watanabe)

Todo dia era a mesma rotina. Acordar cedo. Trabalhar o dia inteiro, 12 horas por dia, para ser mais exato. Sair ás 18 horas e ás 19 horas estar na faculdade. Ela poderia dizer que estava feliz com o salário que ganhava. Ela poderia dizer, também, que tudo estava lindo e maravilhoso. Afinal, ter um emprego em uma crise é algo que se deve valorizar.

Ela fazia o impossível para não desabar, para não definhar. Mesmo que ela já estivesse definhando aos poucos, sem sequer perceber. Além do trabalho em excesso, existia alguém. Alguém que a colocava para baixo. Alguém que a xingava. Dizia que ela era inútil por ser uma mulher. E agora me diga, como alguém pode achar uma outra pessoa inútil só pelo o fato de ela ser mulher?

É, o chefe dela achava isso. Em um ano, essa mesma mulher frágil a que ele se referia, nunca havia faltado sequer um dia. Ela não tinha o direito de acordar com dor de barriga ou dor de cabeça. Até porque o que ela fazia, ninguém mais faria. Ou seja, não havia ninguém para substitui-a caso ela acordasse “morrendo”.

Mulher deveria nascer sim, por que se não fosse por elas, vocês nem estariam aqui

“Eu sou estudado, sou inteligente e você quem é? ”, “quem você pensa que é para me dizer o que eu devo fazer”. “Eu sou dono disso tudo, eu decido, você é paga só para me obedecer”. Essas eram as frases simples e diárias que ela ouvia. Sem contar quando ele a chamava de burra e, pior, ainda ligava para a mãe dela, perguntando se a mãe dela era burra igual a ela, por não ter ensinado nada para a filha.

Parece algo inventado, não é? Mas, acredite, isso foi real. Acontece, aliás, com muita gente. Agora você se pergunta. “Mas por que ela aguentou tudo isso por tanto tempo?” Nem ela mesmo sabe dizer. Talvez pelo dinheiro, ou, talvez, pelo medo de se impor. Mas o importante que chegou ao fim.

Vocês já ouviram falar em reinvindicação indireta? É quando o funcionário está sem condições de trabalhar devido a caos proporcionado pelo o patrão.

Ela gravou tudo, filmou tudo e entrou com uma ação de reinvindicação indireta, alegando danos morais contra o patrão. Nessa hora, ela queria ser uma mosquinha para ver a cara dele quando recebesse a intimação da justiça em casa.

E agora quem é a mulher indefessa e burra que ele tanto menosprezou? Quem é o estudado e inteligente agora?

Mulher deveria nascer, sim, porque se não fosse por ela, vocês nem estariam aqui.

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