Literatura | Edição #464 - 02/10/2017

Apenas no lugar errado e na hora errada

Acusado de um crime que não cometeu, simplesmente por ser quem é

Peterson Gauze
Estudante de Jornalismo

Imagem/Ilustração Pixabay

Imagem/Ilustração Pixabay

Medo… É o único sentimento que os dois rapazes conseguiam expressar. Naquela noite, que não era qualquer noite, houve um furto. Mas não foi qualquer furto. Uma casa foi furtada. Só que não foi qualquer casa. Foi a casa do delegado. Esse delegado, não é qualquer delegado. É o delegado responsável pela drástica diminuição do índice de criminalidade na cidade. Mas não é qualquer cidade. É a cidade com o menor número de negros e pardos do Estado. E o estado? Estado de choque.

Sem saber o que fazer, o que falar, o que sentir, um dos rapazes se contorce na fria cadeira da delegacia. As vestimentas são as mesmas de qualquer estudante da escola do município. O olhar? Triste, apesar de parecer calmo. Ao olhar fixamente nos olhos dele, pode-se perceber o medo escorrendo em forma de lágrima naquele rosto. Uma triste lágrima que passa sobre o leve inchaço acima da bochecha. Inchaço provocado por, talvez, uma pancada ou várias.

Nada dói mais do que tentar se explicar e não ser ouvido

Dedos são apontados na direção dele. Dedos que julgam. Dedos que condenam. “Onde ele conseguiu aquele tênis?”, “Com certeza foi o da esquerda que influenciou o outro”. Cada comentário parece doer mais do que as pancadas recebidas momentos antes. Mas nada dói mais do que tentar explicar os motivos. Nada dói mais do que tentar se explicar e ninguém lhe dar ouvidos. O suor escorre pelo rosto, sem saber o que está por vir. Será que à noite pode piorar?

Palavras ecoam na delegacia. Palavras ofensivas, de baixo calão e racistas. Até que olhares assustados cercam os rapazes. Um deles era menor. Mas não qualquer menor. Um menor filho de um prefeito. Mas não qualquer prefeito. Um prefeito loiro, de olhos azuis, adorado por toda a cidade. Mas não qualquer cidade. Uma cidade que condena, mas que protege quem não precisa de proteção.

O rapaz da direita foi liberado, levantou-se e foi para casa. Tirou o uniforme, mas não conseguiu tirar do pensamento o amigo. Mas não era qualquer amigo. Era o melhor amigo, que apenas resolveu lhe acompanhar depois da aula. O erro? Estar no lugar errado, na hora errada e com a cor errada.


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