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Cultura | Edição #467 - 23/10/2017

“[A música] para mim foi uma salvação”

Mesmo sem enxergar, José Bonfim tornou-se cantor sertanejo e atleta

Carlos Henrique Rosa
Estudante de Jornalismo

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Bonfim, tocando próximo a uma barraca na Feira do Produtor   (Imagem/Carlos Henrique Rosa)

Bonfim, tocando próximo a uma barraca na Feira do Produtor
(Imagem/Carlos Henrique Rosa)

José do Bonfim Batista, 61 anos, ou apenas Bonfim, como é conhecido, nasceu em Assaí (distante 46 km de Londrina e 141 km de Maringá) e desde a infância teve dificuldade para enxergar. Com o passar dos anos, no entanto, o problema se agravou. Aos 18, decidiu procurar ajuda médica e descobriu que sofria de retinose pigmentar (RP), doença hereditária que causa a degeneração da retina (região dos olhos responsável pela captação de imagens), levando à perda da visão. Doença essa que também causou a cegueira em outros três irmãos (de um total de 11). Por conta disso, Bonfim, até então ajudante de pedreiro, entrou em depressão, mas por recomendação de amigos começou a tocar violão.

Formou dupla com o irmão, João Batista, também cego, e com o amigo Nilson Carreiro, fazendo shows, gravando discos e aparecendo na TV. Com a música, descobriu também o esporte, sendo atleta de goalball e de atletismo, conquistando diversos títulos, nacionais e internacionais. Em entrevista ao Jornal Matéria Prima, Bonfim conta a história de vida dele.

Antes da retinose pigmentar, o senhor era ajudante de pedreiro quando o médico disse que, assim como seus irmãos, perderia a visão, o que o levou à depressão. Como o senhor percebeu que a música poderia lhe ajudar a lidar com a depressão?                                                                                             Quando anunciaram que realmente já estava ficando cego aí entrei em depressão e me abati. Meus amigos que começaram a falar “arruma qualquer coisa [para fazer], não fica dentro de casa, dando força à depressão e aos maus pensamentos”. E desde criança eu gostava de cantar. Aí comecei a cantar, apenas para sair daquele tédio. Nas cantorias fui descobrindo os esportes para os deficientes visuais, escolas. E hoje eu estou aqui, há mais ou menos 35 anos na Feira [do Produtor] para me distrair, não ficar parado em casa. A renda financeira é pouca, mas a de vida…  A gente acaba ouvindo pessoas com problema além da gente, não por gostar, mas nos dá mais força para lutar contra a escuridão. [A música] para mim foi uma salvação, porque a gente se distrai. Você vai aos lugares, é convidado para ir a um aniversário. E naquilo ali você se solta, não fica deprimido. 

João Batista, irmão de José Bonfim, em outro ponto da feira  (Imagem/Carlos Henrique Rosa)

João Batista, irmão de José Bonfim, em outro ponto da feira
(Imagem/Carlos Henrique Rosa)

O senhor formou dupla com seu irmão, João Batista, que também não enxerga, e com Nilson Carreiro, um amigo de anos. Como surgiu a ideia das duplas?                                      Quando me falaram [da doença] falei para o João Batista e a gente começou nas feiras, ele arranhando o violão e eu no reco-reco. Aí a gente foi ganhando gravações [de discos], porque dinheiro para pagar a gente não tem [risos]. Muita gente via e falava “eu tenho um estúdio, vou gravar vocês” e foi fazendo assim. Mas a gente continua na mesma [risos, pois a dupla não “decolou”]. O João Batista se mudou para Londrina e me convidaram para um aniversário. A gente [Bonfim e Nilson Carreiro] começou a cantar e começamos a brincar um com o outro “ah se eu tivesse um parceiro assim”. Aí ganhamos uma gravação de novo e surgiu o “Bonfim e Nilson Carreiro”.    

O senhor é bastante conhecido na Feira do Produtor. As pessoas te param para te pedir para tocar uma música?                                                                       Sim, sim. A gente só canta o “Sertanejão”, mesmo né. O Raiz. Tem “Trio Parada Dura”, “Milionário e José Rico”, a raizona mesmo. Até porque não posso cantar o Sertanejo Universitário porque sou analfabeto [risos].       

Além de cantor, o senhor também foi atleta de goalball. Como conheceu o esporte?                                                                                                                                        Cantando na feira, uma senhora disse que tinha um filho que estudava, inclusive foi vereador daqui de Maringá, o Cesar Gualberto [vereador entre 1993 e 1996]. E a gente foi para a escola, aprendemos o braile, e ali começaram a aparecer as outras coisas, os esportes. Por 26 anos mais ou menos eu fui atleta. Aí foi mais uma distração porque a gente viajava para Minas Gerais, São Paulo, fazendo campeonatos nacionais, estaduais. E em 1995 eu consegui ir à seleção brasileira como ala direita e fomos para o Parapan [os Jogos Parapanamericanos, disputados em Buenos Aires]. Aquilo enriqueceu a gente por dentro porque todo o sonho meu era ser jogador de profissional de futebol, caminhoneiro ou militar, sonho meu plausível mesmo. Depois de deficiente visual eu virei atleta, na escuridão, mas eu virei um atleta [risos].    

Durante sua carreira no goalball, o senhor ganhou diversos títulos, entre os quais oito brasileiros, sendo cinco pela Adevimar (Associação dos Deficientes Visuais de Maringá) e uma medalha de prata com a seleção brasileira nos Jogos Parapanamericanos de Buenos Aires, em 1995. Desses, qual é o mais marcante?                                                                                                     O Parapan foi o que mais marcou, porque voando pela primeira vez eu imaginava “olha aí, nem tudo está perdido. Um deficiente visual total, e eu estou viajando para um esporte, uma disputa internacional”. Então eu me senti engrandecido. 

Depois de deficiente visual eu virei atleta, na escuridão, mas eu virei um atleta [risos].

O senhor disse que foi atleta por mais ou menos 26 anos. Nesse período, em quais outros clubes ou quais outros esportes o senhor jogou?                            Eu joguei em poucos clubes. Joguei para São José do Rio Preto (SP) e em uma outra associação de Sarandi. Na sequência do goalball eu fiz lançamento de disco, lançamento de dardo e de peso e, no final, quando já não estava mais conseguindo o goalball, fiz três anos de powerlifting, que é o levantamento de peso. Em 3 anos fui campeão na minha categoria [até 85 kg]. Mas como tenho uma herança “boa” de família de cardiopatia [problemas no coração, risos], fui operado da válvula mitral. Aí fiquei impossibilitado de praticar esportes, passar alegria além do limite, tristeza. Então me resguardei.                                                                                                           

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