Literatura | Edição #464 - 02/10/2017

A grande caixa marrom carrega pessoas

Os velórios não são para os mortos; são uma dose de tortura aos vivos

Isabelli Raiacovitch
Estudante de Jornalismo

(Imagem/Aclizio Valério)

(Imagem/Aclizio Valério)

Estou aqui, parada nesta sala de velório. O cheiro de crisântemo me embrulha o estômago. Você sabe, eu nunca fui fã de flores. As pessoas estão falando que você está morto e toda vez que alguém me abraça e diz que vai ficar tudo bem, eu tenho vontade de gritar. Eles dizem que estou forte. Iludidos. Não percebem o meu grito sem som, nem o meu choro sem lágrimas.

Os velórios são ridículos. Nunca entendi por que temos que ficar aqui, parados, olhando para essa caixa fechada idiota. Todos deveriam saber que você não é esse corpo que está aí dentro. Você era bem mais que isso. Além do cheiro de crisântemo, existe um cheiro de tristeza, de arrependimento, de confusão. Eu não consigo acreditar que amanhã você não vai estar aqui. Sabe aqueles pesadelos que parecem muito com a realidade? É isso. Tudo um sonho. Alguém pode me explicar o que eu vou fazer na Terra sem você? Nós não tivemos tempo.

O que Deus tinha na cabeça de te levar assim, sem me avisar, sem dar tchau? Você ia fazer 20 anos agora, a gente planejou muita coisa. Acorda. Acorda. O pesadelo só piora.

Enfio os dedos na garganta para ver se vomito a saudade que já chegou de você

A sua mãe acaba de chegar. Sinto que de todos que estão aqui ela é a mais perdida. Talvez as pessoas a tenham entupido de calmante. Não julgo. Afinal, tenho certeza que o copo de água que me deram tinha droga. Ela vai ao encontro da caixa marrom fechada. Que desespero. Daqui dá para ouvi-la cantando baixinho aquela música de ninar. Você escuta daí? Não aguento olhar por muito tempo essa cena. O choro sem lágrimas não cabe mais dentro de mim.

Preciso sair daqui. Corro direto para o banheiro, onde posso finalmente chorar. O cheiro de crisântemo realmente fez mal ao meu estômago. A vontade de vomitar é muito grande. Sinto ânsia. Acho que é a distância. O seu silêncio que grita dentro de mim. Enfio os dedos na garganta para ver se vomito a saudade que já chegou de você. Encontro a mãe, também chorando, no banheiro. A abraço e digo que vai ficar tudo bem. Que idiota, é óbvio que nada vai ficar bem. Ela, com toda sua inteligência, só me abraça. Acho que era exatamente isso que estava precisando. Um abraço da mulher que te gerou e que hoje vai ter que jogar o seu corpo em um buraco.

A morte é ridícula. É a única certeza da qual temos certeza e não estamos preparados para suporta-la. Me olho no espelho do banheiro, taco uma água no rosto, mas não acordo.  Acho que não é um sonho. É só o início de um pesadelo sem você. Te amo infinito. Adeus.


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