Literatura | Edição #461 - 11/09/2017

O assassinato da mulher no cotidiano

Chame de histeria se é isto que te convém; eu chamo de sobrevivência

Giulia Cordeiro
Estudante de Jornalismo

Diz pra ela que é besteira. Diz pra ela que o discurso dela é infundado, que é sentimental, inválido, irracional. Diz pra ela que ela é louca, histérica. Diz pra ela que é exagero. Diz pra ela que os sentimentos dela são exacerbados demais para uma pessoa madura, são imaturos. Diz pra ela que ela não tem controle, emocional e da própria vida.

Diz que nela não habita nenhuma deusa interior. Só existe um Deus, masculino, poderoso. Diz que a “deusa” dela deve apenas servi-lo e ouvi-lo. Deve ser mãe-terra para cuidá-lo, e para que ele possa pisar nela ou limpar os pés sujos. Mas deve ser riacho para purificá-lo, acalmá-lo. Para isso que a sua sensibilidade serve. Nasceu para cuidar, gerar, amamentar, alimentar, segurar, acariciar, nutrir.

Diz pra ela que a opinião dela é burra, não nasceu para pensar. Diz que os gostos dela são podres, não nasceu para opinar. Arranca dela a própria divindade e amor interior, rasga a essência e alma dela de deusa, e transforma-a em serva.

Seu sangue e sua carne só servem para uso de outrem. Não é dela, não é para o seu próprio prazer, seu próprio bem.

Seus sentimentos não são desperdício, são refúgio, força interior, são seu sexto sentido

Levanta mulher, sai do teu armário de más construções. Você é filha de Atena, dona de sabedoria, estratégia, justiça, habilidades e artista. Filha de Lua, luz brilhante de sensibilidade e amor.

Seu sangue não é dos outros, nem para os outros. Seu sagrado não é dos outros, nem para os outros. Não deixe que te convençam do contrário da sua própria natureza.

Seus sentimentos não são desperdício, são refúgio, força interior, são seu sexto sentido. Sua vida é de valor imensurável. Seu amor é teu maior escudo e não apenas escudo para os outros.

Ela é mulher. Ela é mãe. Ela é Maria. Ela é tia. Ela é prima. Ela é filha. Ela é todas nós, ela está dentro de nós, fora de nós, dentro dos nós, ela é como nós.

(Imagem/Marieli Rossi)

(Imagem/Marieli Rossi)


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