Literatura / Sem categoria | Edição #462 - 18/09/2017

Menos de 20 centímetros de puro amor

Animalzinho, desde que você chegou, tornou-se nossa alegria diária

Gabriela Medrano
Estudante de Jornalismo

(Imagem/Gabriela Medrano)

(Imagem/Gabriela Medrano)

Aí está você, olhando para mim com esses olhinhos semelhantes a duas bolinhas de gude, mexendo esse pitoquinho de rabo. Quando chega a hora do almoço e sinto o cheiro de comida em casa, sei que você vai estar naquele cantinho da cozinha, ao lado dos pés da mulher que acredita ser sua mãe.

Cada vez que eu me aproximo, você abaixa as orelhas com medo de que eu te  pegue no colo. Mas você as ergue de novo quando ouve um “tó”, achando que vai ganhar alguma recompensa.

Já sei qual vai ser sua reação quando eu disser “vamos tomar banho”: as orelhinhas abaixam e a tremedeira não tem mais fim. Às vezes você acha que soluciona as artes que apronta virando a barriguinha para cima, para eu acariciar. Você se sente a guardiã, protetora da casa. Segue a mãe pra cima e pra baixo. Não pode ouvir um “vamos” porque já fica no desespero. Ouve o alarme do celular tocar e já olha desconfiada. Ainda mais quando vê a mãe colocando os sapatos, pegando as chaves e aproximando-se da porta.

Gosta apenas da família e mostra os dentes para o resto

Aprecio você porque não é falsa, gosta apenas da família e mostra os dentes para todo o resto. Mas me faz passar muita vergonha quando saímos juntas. As pessoas a acham fofinha, mas você não deixa ninguém chegar perto. Às vezes fico brava com você. Por que, na última vez que dormiu comigo, não deu um jeito de me avisar que tinha vomitado na  cama? Acordei sentindo algo molhado nos pés.

E quando estamos deitadas você na sua almofada com a bunda mirando pra minha cara e, de repente, solta um pum fedido? Será que você não pensa que isso pode me incomodar? Sem falar que posso estar horas chamando pelo seu nome e você nem aí, mas quando escuta eu abrindo qualquer pacote vem feito um foguete.

Estou orgulhosa de ter ensinado você a cantar. Fazemos uma bela dupla juntas. O único problema é que você canta bem mais alto do que eu e isso pode incomodar os vizinhos.

Cada vez que chego em casa aí está você, sentada no sofá só esperando alguém chegar. E sempre há um choro sem fim quando entramos pela porta. Sua cabecinha deve  pensar que abandonamos você, mas saiba que isso nunca vai acontecer.

Amo você apesar dessa boca sua abranger um bafo podre. Como a mãe sempre diz, hoje você é a nossa alegria, mas um dia também será nossa tristeza, querida Lola.


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