Literatura | Edição #462 - 18/09/2017

Ela precisa ir ao supermercado sozinha

O esquecimento, o desprezo e a solidão se tornaram suas companhias

Murillo Saldanha
Estudante de Jornalismo

O dia era ensolarado, fazia muito calor. Eu estava na correria de sempre, saindo do supermercado e querendo ir logo para casa, quando o ônibus passou e me deixou para trás. Fiquei com raiva, afinal teria que esperar muito mais tempo até que outro ônibus passasse. Terminei de atravessar a rua e cheguei ao ponto de ônibus, onde duas senhoras conversavam sobre assuntos comuns: filhos, casa, netos, compras. Já que meu ônibus iria demorar, sentei e comecei a prestar atenção à conversa daquelas duas senhoras.

Elas falavam e pareciam compartilhar das mesmas experiências de vida.  Contavam que os filhos ficavam semanas sem vê-las e não faziam nenhuma ligação para saber se elas estavam bem. Era como se vivessem em uma vasta solidão, em uma sociedade onde os mais velhos não são respeitados, deixados de lado, esquecidos, como aquela roupa que não serve mais ou aquele sapato velho e rasgado que jogamos fora.

Quem sabe não encontrava um sorriso no rosto de alguém que lhe desse um ‘bom dia’ ou ‘olá’

Uma das mulheres reclamava que já não enxergava muito bem para atravessar a rua com tantas sacolas, mas que precisava ir ao supermercado. Antes de sair de casa ela já se preparava. Mesmo que o o corpo se sentisse cansado, as pernas pesadas ou a mente um pouco esquecida das memórias afetivas mais importantes, ela precisava ir ao supermercado. Quem sabe, não encontrava o sorriso no rosto de alguém que fosse cumprimentá-la com um “bom dia” ou um “olá, tudo bem?”. Talvez assim pudesse esquecer um pouco da tristeza que era viver sozinha.

A outra senhora que estava ao lado insistiu e perguntou se ela não pensava em arrumar uma companhia, uma pessoa que pudesse ir ao mercado, ajudar com as sacolas ou amenizar a solidão em que ela vivia. Com os olhos cheios d’água, a mulher respondeu que a única companhia que queria ao lado dela era o marido, mas Deus o tinha levado, porque era uma pessoa boa.

“Imagine se Deus só levasse as pessoas egoístas e mesquinhas, que fazem mal aos outros, o que seria do céu?”, dizia ela. Para ela, o marido ainda continua sendo o eterno namorado, amante. Ela ainda nutre por ele a mesma paixão de adolescente, mas agora sente a vida vazia e gelada, como está o lado da cama onde ele dormia.

Nesse momento fiquei inerte em meio à toda aquela situação. O ônibus chegou e eu entrei. Pela janela, olhava a cena daquelas duas senhoras ir se afastando dos meus olhos. Comecei a pensar se um dia seria capaz de amar alguém sem nenhum egoísmo ou se a solidão também seria minha única companhia.

A solidão e as sacolas acompanham a mulher até o supermercado (Imagem/Pixabay) [1]

A solidão e as sacolas acompanham a mulher até o supermercado
(Imagem/Pixabay)


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