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Jornal Matéria Prima

 
  • Última Edição: #460 | 06/12/2016 - Ano XVII
 
Literatura | Edição #460 - 06/12/2016

Título de despedida com 36 a 40 toques

A linha-fina deve complementar o título e consolidar o tema do texto; neste caso, acho que não deu muito certo

Gabriel Pinheiro
Aluno de Jornalismo

Comentários
 

Aquela barra vertical piscando já o estava irritando fazia mais de quarenta minutos.

Ele acordou com fome de escrever.

Lembrou-se que tinha de escrever seu texto de despedida para o Jornal Matéria Prima. Ligou o notebook, esquentou um copo de café do dia anterior no microondas, pegou o celular e os fones de ouvido e se sentou à mesa da cozinha.

O objetivo era resumir as experiências no jornal em um texto de 35 linhas

Já fazia algumas semanas que não escrevia nada, ora por falta de tempo e ora por falta de inspiração ou criatividade. Mas dessa vez queria escrever algo bom, afinal seria seu último texto no JMP. O objetivo era resumir as experiências no jornal laboratório em um texto de 35 linhas. Ele queria escrever mais que isso. Queria escrever sobre 2016 em geral, sobre amor, sobre decepção, depressão, felicidade, família, sobre sua futura profissão, sobre… a vida.

Essa barra piscando já tá começando a me irritar, pensou, ao notar que ainda estava diante de uma página digital em branco, mesmo tendo ficado concentrado por mais de quinze minutos.

Trinta minutos.

Cinquenta minutos.

A barra continuava piscando sem nenhuma palavra antes ou depois dela. E então, quando já havia perdido as esperanças de escrever, simplesmente digitou, com certa dose de fúria: Aquela barra vertical piscando já o estava irritando fazia mais de quarenta minutos.

Encarou aquelas treze palavras por um tempo considerável. No início eram apenas resultado da raiva e da frustração se acumulando em seu cérebro, mas já tinham se tornado algo mais: uma ideia. A ideia de escrever sobre aquele frustrante momento. Não era uma ideia particularmente original: lembrava-se de inúmeros filmes, livros e músicas que usavam metalinguagem. Poderia até não ser uma ideia nova, mas era, pelo menos, uma ideia.

Antes de tudo, decidiu deixar aquela primeira frase, afinal tinha feito parte de seu processo criativo (mesmo sabendo que seria difícil criar um contexto no qual uma frase tão vaga tivesse o mínimo de sentido). E então começou a escrever:

Acordei no meio da noite com vontade de escrever.

Algo parecia profundamente errado. Analisou a frase por alguns minutos e chegou à conclusão de que: 1. por ser um texto metalinguístico talvez devesse escrever em terceira pessoa para distanciar o escritor do personagem; 2. escrever que havia acordado no meio da noite parecia um bocado óbvio e maçante; e 3. a palavra “vontade” lhe parecia simplista demais. Resolveu substituí-la:

Ele acordou com fome de escrever.

Agora sim. Sentiu que poderia estar diante de algo significativamente bom. Porém, antes de continuar, fez um roteiro mental do que escreveria. Não quero ser aquele tipo de escritor que escreve sem pensar antes, pensou. Mas não sabia se poderia ser considerado um escritor ainda. É claro que já tinha escrito algumas bobagens. Já tinha tido várias ideias para bons textos e todos eles haviam acabado como plágios infantis (nem sempre de forma consciente), textos intelectualmente babacas ou histórias que só faziam sentido dentro de sua cabeça.

Mas o que realmente significava ser um escritor?

Era um texto sobre ele e sobre o ato de escrever, mas não precisava ser tão pretensioso

Não sabia se tinha uma resposta para aquela pergunta. Era uma questão tão complexa e profunda que não sabia se alguém já havia chegado à alguma conclusão minimamente palpável. Para ele, ser um escritor ia além de receber dinheiro para sê-lo. Ia além de escrever frases existenciais para postar no Facebook. Para ele, ser um escritor era saber articular as palavras para expressar seus sentimentos, ainda que contando histórias completamente surreais.

Deixou suas questões existenciais de lado por alguns instantes e voltou para o que já havia escrito naquela noite. Ele respirou fundo, selecionou a música mais relaxante que tinha na lista do celular e começou a escrever. Foram apenas trinta minutos. Aquele rapaz que não tinha escrito nada de que se orgulhasse em meses tinha escrito um texto respeitável em meia hora.

Provavelmente, ficou uma bela porcaria. E para confirmar o pensamento, releu tudo.  Reparou nos vícios de linguagem, no uso de palavras desnecessariamente complicadas e no quão narcisista o texto soava. Era um texto sobre ele e sobre o ato de escrever, mas não precisava ser tão óbvio e pretensioso. O título, a legenda da foto e a linha-fina ficaram profundamente metalinguísticos, mas vazios. Além disso, o texto pouco apresentava sua experiência dentro do JMP e tinha ficado muito maior que o padrão estabelecido pelo jornal.

Ele estava diante do fato de que tinha escrito outro texto ruim. Notou o quão ridícula a ideia era e o quão igualmente ridículo o texto tinha ficado. Outra bobagem. Apagou o arquivo e resolveu escrever uma despedida um pouco mais convencional.

Este ano foi ótimo e aprendi muito, começou a digitar.

Fotos de crônicas não precisam de legenda, mas ele decidiu colocar mesmo assim (Imagem/Lucas Martinez)

Fotos de crônicas não precisam de legenda, mas ele decidiu colocar mesmo assim
(Imagem/Lucas Martinez)

Discussão e comentários »

Um comentário | Deixe seu comentário

Josué Margot disse:

Que legal agora pude conhecer o semblante do jovem obscuro que és perante as producoes de cronica! As vezes me dava medo ler suas cronicas, parecia que tinha algo que te prendia e tinha escrever para se libertar, conte mais sobre o motivo da barba do Harry Potter?
margotempreendimentos@gmail.com

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