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Jornal Matéria Prima

 
  • Última Edição: #483 | 28/06/2018 - Ano XIX
 
Cidade | Edição #452 - 03/10/2016

“Sou de uma época em que humor era coisa de vagabundo”

Eduardo Mascarenhas vem realizando sonho de arrecadar alimentos, brinquedos e roupas para doar a famílias pobres

Cristiano Almeida
Aluno de Jornalismo

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Foto: Paula Regina Roel/Arquivo pessoal

Xaropinho (Eduardo Mascarenhas) na Comunidade dos Ciganos Foto: Paula Regina Roel/Arquivo pessoal

Vivemos em uma sociedade regida por interesses de grupos e empresários, por isso é importante não se submeter ao desejo de consumo, e sim valorizar o ser humano além do que ele possui materialmente.

Esse é o momento de humanizar o mundo. Uma pessoa vale mais do que um Iphone ou um carro. É com essa ideia que trabalha Eduardo Mascarenhas Aguiar, 41 anos, pastor na comunidade Viva em Cristo, de Bragança Paulista (SP). Ele é humorista, mais conhecido pelo personagem “Xaropinho”, do Programa do Ratinho. Aguiar é dono de uma instituição denominada Instituto Xaropinho. Um nome “fantasia”, como ele mesmo define.

Em conversa por telefone para o Jornal Matéria Prima (JMP), o humorista demonstrou estar muito engajado com o projeto social, pelo qual ajuda comunidades de todo o Brasil, levando também humor para as pessoas.  Confira a entrevista completa:

O senhor é muito conhecido pelo personagem Xaropinho. Como surgiu a ideia do boneco e como chegou a trabalhar com o apresentador Carlos Massa, o “Ratinho”?
Venho de uma carreira construída em cima de produzir conteúdo para o público infantil. Com 14 anos eu era roteirista da Editora Abril, tenho isso registrado em carteira. Com 15 anos, trabalhei no departamento da Disney na Abril, escrevendo quadrinhos. Tenho os roteiros guardados comigo até hoje. Depois comecei a trabalhar com teatro de bonecos em escola, porque o mercado de quadrinhos caiu muito e as revistas da Disney foram tiradas das bancas. Aprendi a confeccionar bonecos, construí uns 50 bonecos e comecei a fazer palestras nas escolas para os alunos sobre higiene bucal, higiene de saúde, alimentação e segurança nas ruas. Desses 50 bonecos que construí, tinha dois que eram ratos, um chamado Justino e outro o Rato Louco. O Justino era um sujeito de gravata e uma pasta executiva, um rato trabalhador, office boy. Quando o Ratinho foi para a TV Record, já tive a ideia de pegar o Justino e colocar um bigode nele e um cassetete para apresentar para o Ratinho. Mas tinha outro boneco chamado “Minduim” que era um garoto, e esse é o que fazia mais sucesso nas escolas. Como já estava há anos trabalhando com boneco, sabia que era a personalidade mais forte dos 50 personagens que eu tinha criado. Então fui à plateia do Ratinho para assistir com mais 10 amigos e quando começou o programa, cada amigo tinha dois bonecos nas mãos. Levantamos os 20 bonecos e o Ratinho entrou no meio daquela bonecada.  Aquilo parou o programa. O Ratinho veio até nós e falou: “o que é essa bagunça?”.  Aí peguei aquele rato, que é o Justino, e falei para o Ratinho: “essa é uma homenagem para você, um ratinho com gravata e bigode, porque você é uma pessoa que aprendemos a gostar, autêntico”. No fim do programa fui procurar o Ratinho, pedi uma oportunidade para colocar o boneco no ar e na hora ele ficou meio inseguro, dizendo que boneco era para programa infantil, mas surgiu uma amizade entre mim e ele, que permitiu que eu estivesse sempre no programa.

Mas como o senhor acabou sendo chamado para o programa?
A amizade se fortaleceu e um dia o Rodolfo [Comediante, radialista e repórter] foi contratado pelo SBT, pelo Gugu, para poder trabalhar como “Rodolfo e ET”, uma dupla de humor que o Ratinho tinha. Quando eles foram para o Gugu, eu cheguei nele [Ratinho] e disse: “vamos pôr o boneco que vai ser registrado no seu nome eu posso até sair mas o boneco fica e você não vai ter essa decepção que você teve com o Rodolfo e ET, que abandonaram você”. Ele aceitou a ideia e colocamos o boneco no ar no dia 20 de junho de 1998 e está no ar até hoje. Eu que provoquei essa ideia de levar o boneco.

No programa o que faz o boneco Xaropinho é improviso ou é algo combinado antes?
É tudo improviso, não há nada combinado. Teve uma época que eu produzia algumas brincadeiras, mas mesmo produzindo não falava para o Ratinho que aquilo era uma brincadeira. A gente pegava ele de surpresa também, porque ele é muito bom de improviso e o humor é um fator surpresa. Alguns anos depois parei de produzir brincadeiras, porque o programa cresceu na parte do elenco e me dediquei a ajudar o elenco. Hoje, estamos buscando um novo caminho para o personagem, trazer mais para o infantil.

Na TV havia o boneco Tunico, interpretado pelo ator Fabio Galileu. Por que esse boneco desapareceu, optando apenas pelo Xaropinho?
O Tunico trabalhou com a gente bastante tempo, foi um grande sucesso aquele boneco. O Fabio Galileu foi muito querido, mas em 2006 o Silvio Santos tirou o Programa do Ratinho do ar, todos foram embora e nessa teve alguns que queriam processar o SBT, para receber os direitos trabalhistas, inclusive o Fábio. O SBT fez a filosofia da empresa que “se processar a casa, não volta a trabalhar” então, o Fábio só não volta mais porque processou. Infelizmente ele tomou essa atitude precipitada e deveria estar lá com a gente.

Você teve uma participação na “A Praça é Nossa”, como Professor Givanildo, como surgiu esse quadro e por que não teve sequência?
Esse quadro surgiu como uma brincadeira entre mim e o Ratinho nos corredores da TV. As ideias de humor surgem no improviso, na descontração. Surgiu essa ideia, e ele gostou da brincadeira e fizemos um teste no “Jornal Rational”. Esse teste deu super certo e dei sequência três vezes dentro do programa. Ele resolveu falar com o Carlos Alberto de Nóbrega [Apresentador, humorista, roteirista, produtor, diretor e escritor] desse personagem, ele gostou da ideia e falou que queria usar na praça. Mas eu venho de uma família de pastores e estou muito envolvido com a questão de igreja, do cristianismo, então eu sempre levo o boneco Xaropinho para comunidades carentes, para fazer apresentações de graça para o povo. Quando o Xaropinho surgiu, fortaleci meu trabalho e fui crescendo na evangelização. Me tornei pastor, fiz os cursos de teologia, fui estudar filosofia, aí o personagem do Professor Givanildo começou a me atrapalhar não eu, mas as pessoas que assistiam. Quando eu levei o personagem ele era político, mas os roteiristas foram levando para o lado da sacanagem e isso começou a pegar mal, porque eu estava na igreja no fim de semana com o Xaropinho, falando de Deus e brincando com as crianças e na quinta-feira eu estava lá falando de mulherada que eu quero comer. Por mais que aquilo seja um trabalho de interpretação e não tem nada a ver comigo, na cabeça de um ingênuo, de uma pessoa simples, isso choca então, fui pedindo para o pessoal da A Praça é Nossa ir me liberando. Chegou uma hora que eles não me chamaram mais e eu fiquei muito grato por isso.

No começo o senhor pensou que o boneco Xaropinho ia ser um sucesso?
Eu sempre achei que esse boneco ia funcionar porque o Louro José [boneco do personagem Tom Veiga que participa com a apresentadora Ana Maria Braga no programa Mais Você] já estava no ar começando a fazer sucesso. Cheguei no Ratinho com a ideia de fazer algo “copiado” do Louro José. Quando o Xaropinho entrou no ar, o Ratinho estava estourado, eu imaginei que não tinha como dar errado por conta do sucesso. Para ser sincero eu nem pensava nisso, não deu tempo de pensar nisso. Na época eu estava desempregado, então só pensava em fazer meu trabalho, ganhar meu dinheiro e procurar fazer de uma forma que o pessoal gostasse. No começo foi muito exaustivo, até hoje não senti o sucesso do personagem.

 O senhor já pensou em parar com o Xaropinho?
Já pensei algumas vezes. Pedi a conta para o Ratinho várias vezes e ele sempre pediu para eu continuar. Continuei e estou aí até hoje. O Ratinho está com um projeto de desenvolver o Xaropinho na linha infantil, e estou com o boneco no programa para ver o que ele vai fazer, se vai acontecer mesmo. Eu estou lá, estou cumprindo o papel de funcionário, faço meu trabalho mas precisa ser reciclado, inventar uma outra história para ele na televisão.

Quando o senhor leva o boneco para as comunidades, apresenta apenas o humor ou fala de Deus para as pessoas?
Eu levo o humor, faço apresentações com o Xaropinho. O objetivo é fazer as pessoas darem risada. A vida já é tão difícil, se elas rirem um pouquinho vou entender que vai ter algo extraordinário de Deus para a vida delas. Quando vou à uma igreja faço a parte de humor. Trinta minutos de humor com o Xaropinho e depois trago a palavra [de Deus], e esse humor é sem malícia, somente na brincadeira mesmo. Mas essas pessoas que estão em outros pontos, não levam o boneco, levam o CD do Xaropinho para vender por R$ 10, ou através de panfletos para receber doação de um produto de higiene pessoal, um quilo de alimento não perecível, uma peça de roupa em bom estado ou um brinquedo aí o pessoal pega o material arrecadado e distribui em associações da própria cidade.

O senhor tem um instituto que promove trabalho social em benefício de crianças. Com isso leva o Xaropinho para as escolas e ONGs. Essa é uma alternativa para prender a atenção das crianças e ficar mais fácil a comunicação com elas ou é só mais um momento de stand-up?
Como eu tenho esse lado de prestação de serviço de pastor, nem é de falar de da denominação a qual pertenço. Eu não quis ficar nessa vala comum de pastores que só fica falando; Quis pôr a mão na massa, comecei a fazer uma série de apresentações em praça pública, pedindo roupas, alimentos em prefeituras, escolas, eu me apresento e peço algo em troca. O instituto leva o nome fantasia de Instituto Xaropinho, mas na verdade é Instituto Eduardo Mascarenhas, Instituto Relacionado ao Desenvolvimento Nacional e Cultural Eduardo Mascarenhas. É meu, não é do Ratinho. Ainda estou aprendendo a mexer com o instituto. Tenho alguns amigos que estão em Minas Gerais, Paraná, arrecadando esses produtos através do instituto. Fico feliz em ver as pessoas que ajudam e ver aquilo que sonhei um dia. Não tenho interesse político, é de coração aberto para ajudar o próximo.

Fora os bonecos, como chegou à ideia de ser humorista?
Foi sem querer, não foi algo programado. Sou de uma época em que jogar bola era coisa de vagabundo, música era coisa de vagabundo e humor era coisa de vagabundo. Eles não conhecem a envergadura de profissões que têm, de trabalhar com alguma coisa fazendo o que gosta, fazer um trabalho que gosta, era uma coisa fora da realidade da minha família. A gente tinha que trabalhar para viver. Caí nessa sem pensar, quando vi já estava fazendo shows. Hoje, estou buscando outras coisas para minha vida, buscando a área acadêmica mesmo, área da filosofia que eu aprendi a gostar bastante. Foi algo que acabei me identificando. A TV tem um lado bom mas tem um lado muito difícil, muita concorrência, muita luta.

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