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Literatura | Edição #454 - 17/10/2016

Quando a arte entra em contraste com o céu azul

Tudo aconteceu muito rápido, nesse dia ensolarado e movimentado; em meio ao urbanismo cinza, a epifania se destacou

Lucas Martinez
Aluno de Jornalismo

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Era tarde. Uma tarde bem ensolarada e quente, digna de cena de filme. O céu estava com um azul anil saturado, com quase nenhuma nuvem espalhada. O clima fazia jus ao inverno que acabara de chegar ao término. O centro da cidade estava movimentado, como de costume. O relógio marcava 15h14.

Entrei no carro abafadíssimo, coloquei o cinto e fechei as portas. Abri as janelas, liguei o carro, liguei o som e coloquei Tame Impala para tocar. O volante estava bem quente, já que o sol o esquentara. Com certa dificuldade, comecei a dirigir, com o vento batendo no meu rosto, meu cabelo balançando e o som dando atmosfera.

Peguei o caminho de sempre. Chegando a certo ponto do trajeto, um semáforo demorado me estagnou. Havia três filas de carro, todas lotadas. Eu estava no quarto carro da primeira fileira da esquerda. Dalí, tinha visão tanto do semáforo à frente quanto dos carros a minha volta.

Observando mais atentamente, percebi que havia um homem em frente ao sinaleiro, na faixa de pedestres. Ele tinha roupas abarrotadas e rasgadas. Usava um chinelo azul marinho, uma calça cáqui bem encardida, uma camisa branca velha – que nem branca podia ser considerada mais. Pela temperatura do local, ele estava com as mangas da camisa dobradas, bem como a barra da calça levantada até a panturrilha.

Além da vestimenta, o homem carregava consigo quatro bolas vermelhas, um pouco maiores que uma laranja. Eu não tinha compreendido o porquê de ele estar ali naquele calor todo. Até que ele, com toda a precisão que um artista desenha um rosto de forma realista, jogou as bolas para cima, uma por uma, em um movimento sincronizado. O forte azul do céu ganhou naquele momento elementos em contraste: as quatro bolas vermelhas que iam e vinham, que subiam e desciam, com o equilíbrio das mãos do homem e destacadas pelos raios de sol.

O forte azul do céu ganhou elementos em contraste: as quatro bolas vermelhas

Ao finalizar o ato artístico, o rapaz foi de carro em carro, passando para ganhar alguns trocados. Quando olhei para os condutores, tive uma das maiores epifanias da minha vida. Todas as pessoas estavam sozinhas. Todas as pessoas estavam desanimadas, com cara de desprezo e tédio. Todas as pessoas estavam odiando estar ali. Todas pareciam tristes, solitárias, vazias.

Paradoxalmente, o rapaz, que levava consigo mesmo apenas quatro bolas vermelhas e roupas velhas, estava com um sorriso indescritível no rosto. Ele não ganhou um centavo das pessoas que estavam ali. Mesmo assim, a energia que passava era de alguém satisfeito, feliz e que estava onde queria. Talvez aquele rapaz tenha a fórmula que tantos procuram de como ser feliz. E com pouco.

(Ilustração/Lucas Martinez)

(Ilustração/Lucas Martinez)

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