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Educação | Edição #455 - 24/10/2016

“A fotografia sempre esteve atrelada a jogos de interesses”

O professor doutor Paulo César Boni é um apaixonado por fotografias. Ele registrou as primeiras fotos ainda quando jovem

Raysson Schimmack
Aluno de Jornalismo

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Paulo César Boni minutos antes do lançamento do livro (Foto: Raysson Schimmack)

Paulo César Boni minutos antes do lançamento do livro (Foto: Raysson Schimmack)

Ainda faltavam alguns minutos para a palestra começar. Em instantes, acadêmicos de Comunicação Social do Centro Universitário Cesumar (Unicesumar) conheceriam um pouco mais sobre a história da fotografia pela ótica do professor-doutor Paulo Cesar Boni. E esses poucos minutos foram suficientes para a conversa abaixo.

Nascido em 1958 em Cambé, distante 90 Km de Maringá, Boni, que é professor na Universidade Estadual de Londrina, veio a Maringá também para lançar o livro A Fotografia na Mídia Impressa. Como o ar, o assunto fotojornalismo pairava naquela grande sala.

A paixão por esse tipo de registro da vida surgiu quando o jornalista ainda era adolescente. Poder revelar as fotos em preto e branco, por meio de processos químicos (técnica usada antigamente), foi a peça chave para chamar atenção de Boni para o mundo das fotografias.

Aos poucos, a plateia foi ficando completamente tomada pelos estudantes. Mas foi ali, nas duas primeiras poltronas, que nos sentamos e começamos a conversar sobre os trabalhos realizados por ele no fotojornalismo, bem como sobre as novas diretrizes do curso e a não obrigatoriedade de diploma para exercer a profissão. Confira os principais momentos da entrevista.

O artigo A Margem de Interpretação e Geração de Sentido no Fotojornalismo, produzido em conjunto com André Reinaldo Acorsi, menciona que a fotografia é muitas vezes usada pela imprensa para induzir à leitura do acontecimento. Fato que coloca em discussão o que é ou não ético. Vocês concluem que o discernimento do que é ético no jornalismo ainda é algo frágil. O senhor acredita que ainda tem muito o que discutir sobre ética no fotojornalismo?
Eles [fotógrafos] começaram a trabalhar mais a linguagem fotográfica e o jornal começou a trabalhar mais a geração de sentido, o discurso fotográfico. Então hoje eles colocam, por exemplo, uma fotografia, mas colocam um título, um texto-legenda, colocam foto-legenda e o conjunto da obra, entre aspas, acaba passando para o leitor, subliminarmente, um modo de pensar do jornal. Essa discussão ética, por exemplo, a gente nunca vai esgotar porque hoje os jornais que são posição vão usar fotografias para passar opiniões positivas à situação e os que são oposição vão usar fotografias para passarem uma mensagem negativa da situação. Esse jogo de interesses sempre existiu e sempre existirá. Desde o nascimento da fotografia, ela sempre esteve atrelada a jogos de interesses. Quando você faz uma fotografia, você tem um interesse, não sei qual, mas tem.

A fotografia passa credibilidade para a notícia e abre diversas discussões. Os jornais impressos e online estão realmente aproveitando a força da fotografia para atingir o público de forma construtiva?
Tenho exemplos de sim e exemplos de não. Eu acredito que se ela [a fotografia] estiver nas mãos das pessoas certas e, pessoa certa seria aquela dotada de uma série de virtudes que dificilmente a gente encontra todas reunidas numa só pessoa, de seriedade, honestidade, de isenção, aí, provavelmente, a fotografia possa, sim, fazer um trabalho pelo bem comum. Vamos pensar o seguinte: se você pegar uma novela e a novela discute um problema, tipo adoção, inclusão, pacientes com algum tipo de doença, isso daí repercute, amplifica e é benéfico à sociedade. Elas podem ser exploradas também na fotografia. Por exemplo, uma fotografia de um menino morto lá em uma praia da Turquia, reacendeu a discussão mundial sobre esse processo de deslocamento de pessoas, de imigrantes que deixam seus países de origem para fugir de conflitos, perseguições étnicas ou de perseguições religiosas. Se pegarmos um continente como o europeu, que recebe mais de um milhão de imigrantes, isso dá um efeito economicamente social muito forte na Europa. Então precisamos discutir isso. A fotografia ajuda a discutir essa questão, por exemplo.

Provavelmente a fotografia vá perder a credibilidade da qual desfruta hoje

Grande parte dos smartphones têm câmeras com alta resolução. Esses aparelhos estão acessíveis à maioria das pessoas, atentas aos acontecimentos do dia e por isso fotografam tudo. Isso é bom ou ruim para o fotojornalismo?
É aquela situação que pode ser muito bom e pode ser muito ruim. Pode ser bom porque não temos condições de termos um repórter fotográfico, profissional da imprensa, em todos os lados, em todos os cantos da cidade, em todas as áreas rurais para, de repente, denunciar uma devastação, uma exploração predatória. Aí o sujeito fotografa e encaminha essa fotografia para as autoridades, para imprensa e a imprensa repercute e isso daí é bom. Mas, por outro, lado estamos também banalizando a fotografia. Provavelmente a fotografia vá perder a credibilidade da qual desfruta hoje e que já foi maior em tempos passados porque nós estamos com excesso de fotografias. As pessoas já não leem mais fotografias. Elas mal olham a fotografia. Nesse sentido, o excesso, a sobrecarga de fotografia pode prejudicar um pouco a arte, a leitura, ideologia, a reflexão e a tomada de posições. Pode ser que a gente pague esse preço.

As novas diretrizes do curso de Jornalismo preveem maior integração entre prática e teoria, trabalho de Conclusão de Curso individual, entre outras medidas. O senhor acredita que esses ajustes vão melhorar o ensino e facilitar o aprendizado dos acadêmicos?
Precisaríamos discernir bem. Temos cursos de Jornalismo agora nominados como de Jornalismo mesmo, com diretrizes curriculares nacionais muito mais voltadas para o Jornalismo, e que isso pode dar uma capacidade técnica operacional muito maior para o estudante. Mas talvez a gente perca um pouco aquela formação humanística, estética, ética, criativa, reflexiva que é importante para o exercício do Jornalismo. Ele [jornalista] é um formador de opinião, então ele tem que ter esse discernimento, de que tem preparo para saber o que ele está produzindo, escrevendo, revisando, editando, publicando. Como tudo na fotografia, é uma coisa que nós não temos posições definidas. Se alguém falar para você: “eu tenho certeza que, “duvide desse cara, porque a gente não tem certeza de nada na fotografia, não temos certeza de nada em um currículo que está sendo implantado agora e pode ter resultados positivos ou resultados perversos.

O senhor lançou recentemente o livro A Fotografia na mídia impressa. O nome é sugestivo, mas qual é a discussão, de forma específica, que o leitor pode encontrar na obra?
Estamos com propostas de análises de como a fotografia tem sido usada na imprensa, inclusive para gerar sentido. Lá na UEL desenvolvemos uma proposta metodológica de análise, que a gente chama de intencionalidade de comunicação, mas se você usar o nome de “percurso gerativo” também está correto. Estamos pegando coisas que são do dia a dia de qualquer cidadão comum e colocando os conhecimentos metodológicos, os conhecimentos teóricos. Então, torna-se uma leitura agradável, porque está trabalhando com o seu cotidiano, e uma leitura instrutiva, porque ela está te mostrando, “olha, você pode pegar uma metodologia que o mundo inteiro conhece e aplicar aqui em Maringá. ”

Para exercer a profissão de jornalista, hoje, não precisa de diploma. Está, há alguns anos no Congresso a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 386/09, que volta a reconhecer o diploma como obrigatório. O senhor acredita que o Congresso vai aprovar a PEC?
Estou achando difícil, mas sempre tem forças de pressão. Por exemplo, há classes com as quais não se deve mexer, porque têm capacidade de resposta e de influência de opinião pública, e os jornalistas são uma delas. O problema é que os jornalistas pensam uma coisa, os proprietários da imprensa normalmente pensam o contrário. Então, se a PEC do diploma for aprovada é muito mais por pressão de formadores e multiplicadores de opinião do que, digamos assim, por uma necessidade de mercado, uma simpatia dos empregadores da imprensa, por exemplo.

Paulo César Boni autografando o livro A Fotografia na Mídia Impressa (Foto: Raysson Schimmack)

Paulo César Boni autografando o livro A Fotografia na Mídia Impressa (Foto: Raysson Schimmack)

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