Literatura | Edição #448 - 05/09/2016

Respire fundo antes que seja muito tarde

“Alguém, qualquer um, me diga como parar isso. [Ele] está gritando, expirando e sou sua única testemunha”

Lucas Martinez
Aluno de Jornalismo

Tudo começou com uma espera. Uma espera que não deveria ser nem metade do que foi. Ele estava atrasado. Ele tinha prometido. O tempo passou. A cada três minutos e catorze segundos eu olhava para a entrada (ou saída) do local. Ninguém estava lá – havia pessoas, mas não as que me interessavam. Eu não estava entendendo por que ele havia demorado tanto. Peguei o celular. Nenhuma mensagem. Disquei o número. Fora de área. Olhei novamente. Ninguém. Passou-se o tempo necessário para que todas as possibilidades negativas por aquele atraso viessem na minha imaginação fértil e frágil. Isso desencadeou uma série de reações. Levantei e comecei a me dirigir à entrada. Peguei o celular novamente. Liguei. Ele não atendeu. Abri o WhatsApp. Ele havia dito que houve um problema e que logo que chegasse me explicaria. Eu não entendi. Ele tinha prometido. Aos poucos, fui ficando com tontura. Impaciência. Questionamentos. Suposições. Involuntariamente, a velocidade da minha respiração aumentava; paradoxalmente, eu estava ficando sem ar. A poluição sonora foi se transformando num som agudo e desesperador. Minhas pernas começaram a tremer. A tontura aumentou. Minha respiração estava cada vez mais rápida. Minhas mãos começaram a formigar. Eu tive a sensação de que logo desmaiaria – e morreria? Minha respiração ficou tão rápida que não sentia mais meus lábios. A visão ficou embaçada. Comecei a chorar. Chorar muito. Doía. Estava quase caindo no chão. Estava quase gritando. Minha respiração aumentou mais ainda. Agonia. Minha tontura aumentou mais ainda. Respire. Respire. Respire. (Minha mente não me deixava outra opção.) Ele fez algo. Ele não virá. Ele prometeu. Respire. Eu não via mais solução. Eu queria correr. Mas eu estava sem energia. Não ouvia mais nada além do choro, dos arrependimentos, das suposições, da respiração. Eu estava desmaiando. Eu estava morrendo. O pânico literalmente tomou conta do meu corpo. A cada segundo eu enxergava menos, tremia mais. Tudo foi se apagando. Tudo foi borrando. Caí no chão áspero da calçada.

Eu estava morrendo. O pânico literalmente tomou conta do meu corpo

Escuridão.

Não havia sequer um facho de luz no absoluto vazio que minha consciência se encontrava. Até que senti algo no meu ombro. Um peso diferente do que estava carregando. Uma força distinta de todas aquelas que torturavam meu corpo e meu espírito. Tentei enxergar qual a fonte daquele peso. Era ele. Ele havia chegado. Ele tentou explicar. Não adiantou. Me ajudou a levantar.

Uma parte de mim morreu naquele momento, enquanto a outra, mórbida e acabada, tentava se recompor na confiança quebrada pelas desculpas não justificáveis. O primeiro episódio de crise de pânico da minha vida acabara de ocorrer.

Imagem/Lucas Martinez [1]

(Imagem/Lucas Martinez)


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