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Literatura | Edição #449 - 12/09/2016

“O que me inspira é o que me envolve, o que me cerca, o dia a dia”

Jaime Vieira é professor e poeta morador de Maringá e já recebeu 36 prêmios literários, sendo alguns deles internacionais

Lucas Martinez
Aluno de Jornalismo

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Um papel e uma caneta podem ser os melhores amigos de um poeta e professor como Jaime Vieira, que já recebeu 36 prêmios literários, alguns deles internacionais. O escritor, nascido em Marília (SP),  desenvolveu-se literariamente em Maringá, cidade onde mora até hoje. Formado em Letras pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e membro fundador da Academia de Letras de Maringá (ALM), Vieira ocupa na academia a cadeira de número seis, tendo como patrono o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Atualmente, o professor é vice-presidente da União de Jornalistas e Escritores de Maringá (Unijore).

Foto/Lucas Martinez

O humor nos versos do escritor Jaime Vieira impressiona
(Foto/Lucas Martinez)

A obra literária completa do autor é composta por sete livros publicados. O primeiro livro, “Desencontros”, foi lançado em 1974, patrocinado pela UEM. A publicação, de acordo com Vieira, aconteceu graças ao professor Leônidas Querubim Avelino, doutor em Literaturas Comparadas pela Universidade de Harvard, que indicou o trabalho do poeta à reitoria da UEM. Avelino fez os prefácios do primeiro ao quinto livro do poeta. Este ano, Vieira publicou o sétimo livro, “Reencanto II”,  uma antologia poética dos melhores trabalhos do autor. A obra tem como prefácio uma carta de Helena Kolody (1912-2004) ao professor, além de apresentar logo no início um poema de Paulo Leminski (1944-1989), escrito especialmente para Vieira. Com muita gentileza e bom humor, o poeta conversou com o JMP sobre a carreira, inspiração e mais.

O senhor já ganhou 36 prêmios literários. Quando começou a escrever, imaginava que teria tudo isso te esperando?
Não imaginava, não. Meu primeiro livro, “Desencontros”, foi mandado pela UEM para cada universidade e isso me causou certo orgulho, talvez porque eu era bem jovem. Também senti isso ao ver uma reportagem [sobre o livro] na Folha de S. Paulo, principalmente porque a Folha é muito exigente. Eu era estudante, cheio de sonhos e de visões. [Nessa época] meu professor [Avelino] disse: “você não vai escrever mais para você, você vai escrever para as outras pessoas”. Ele fez o prefácio do meu primeiro ao quinto livro. Ele até exagerou um pouquinho nos meus prefácios, eu não merecia tanto [risos].

Os poemas que escreve são carregados de rimas e têm temáticas que envolvem desde a natureza até a alteridade. Quais o senhor diria serem as principais inspirações na hora de escrever?
O que me inspira é o que me envolve, o que me cerca, as coisas do dia a dia. Às vezes eu sinto até a necessidade de parar o carro, porque me vem uma inspiração que não sei da onde, e se eu não registrar aquela ideia principal talvez eu a perca e o poema se dilua. Ou até mesmo ideias que surgiram em sonhos e logo pela manhã já as anoto. Eu diria que a poesia é contra experiência de vida, sabe? Você ficar esperando chover e ficar triste para poder escrever um poema [não funciona]. Não se pode ter esse comportamento com a poesia. Você não vai muito longe assim. Esperar morrer uma pessoa pra fazer uma homenagem, um amor partido, um novo encontro… Não precisa ser um poeta bissexto, olhando para a Lua ou para a luz esperando inspiração. Já passou essa época.

Não precisa ser um poeta bissexto, olhando para a Lua esperando inspiração

O senhor tem um poema com referência à música “Imagine”, de John Lennon. Quando e como aconteceu o insight que resultou nessa obra?
Eu fui escrever o poema “Sonhos para John Lennon” já fazia cinco anos que ele tinha sido assassinado. Eu me senti agredido, entende? “Cinco tiros não calam uma geração”, conforme dito no meu poema, mas provocam certo mal estar. O mundo não era violento assim [naquela época]. Poderia até ser, mas a gente não sabia. [Com esse acontecimento] As pessoas passaram a se preocupar mais com a sua segurança. O Lennon foi vítima da violência que ele tanto criticou e brigou contra. E eu fiquei devendo alguma coisa. Eu mergulhei a mão no poço, fui fundo com as palavras, e creio que trouxe à superfície os adjetivos mais justos que esse pacifista merecia. E daí surgiu o “Sonhos para John Lennon”.

Trouxe à superfície os adjetivos mais justos que esse pacifista [John Lennon] merecia

O senhor se encontrou com Paulo Leminski e ambos trocaram poemas. Como foi essa experiência?
O encontro foi em 1986. A Secretaria de Cultura de Maringá fez um convite para o Leminski vir à cidade, para fazer uma palestra sobre a técnica e sobre a criação literária dele. Ele era um líder, um bandido que sabia falar latim [risos]. Eu fui escalado para mostrar a cidade a ele após o evento, na parte da manhã. Fomos ao Parque do Ingá e lá passamos a tarde. Ele falou: “vou fazer um poema para você colocar na abertura do seu livro”. Eu não sei se alguém falou muito bem de mim para ele, porque ele não era de escrever poesia para ninguém, não [risos]. Aí ele me passou por telefone o poema chamado Máquinas Líquidas para Jaime e eu o respondi com o poema Líquidas Máquinas para Paulo.

Este ano o senhor publicou seu sétimo livro. Já tem algum projeto futuro em mente ou em andamento?
Meu próximo livro já está pronto há dez anos. Eu não consigo mexer mais nele. Ele mesmo já disse para mim: “já chega!” [risos]. Talvez seja minha obra prima de tanto que foi polido. Vai trazer um prefácio da Helena Kolody. Não é uma carta dela [como no livro “Reencanto II”], mas um prefácio que ela escreveu [especificamente] para esse livro. Chama-se Contra espelho. Eu ainda estou pensando em talvez mudar esse título, porque poucas pessoas entendem o que é um contra espelho, que é quando um espelho está na frente do outro e ambos criam mil imagens. Eu recebi essa recomendação de [fazer essa alteração]. Então ainda vou pensar quanto ao título, mas o livro está pronto.

O senhor é membro fundador da Academia de Letras de Maringá e vice-presidente da União de Jornalistas e Escritores de Maringá. Como vê o cenário literário atual de Maringá?
Conheço muita gente [daqui]. Alguns escrevem e outros tentam escrever. Mas o cenário literário de Maringá está crescendo junto com a cidade. Tudo mudou e novos ares vieram. A gente tem convivência com o pessoal da área. Alguns eu até respeito, mas quando eu não respeito também não digo nada, por delicadeza. Eu não vou dizer para alguém desistir ou algo do tipo. A gente até tenta dar uma orientação, se for possível. Para se meter a poeta, é necessário ter talento e adestramento, que a pessoa leia e estude sobre as formas de fazer o poema.

Discussão e comentários »

2 comentários | Deixe seu comentário

Joel Cardoso disse:

Questionamentos bem feitos que proporcionaram respostas coerentes e elucidativas.

Reinaldo Silva disse:

Conheci o trabalho de Jaime Vieira quando estava na quinta série (ou foi na sexta?). Fiquei apaixonado. Ele foi inspiração para minhas (não tão bem sucedidas) tentativas de “poetizar”. Não conheço todas as obras dele, mas do que já li, senti uma predileção bem forte pelo poema citado na entrevistas (“Sonhos para John Lennon”) e por outro chamado “Se”. Por causa dessa experiência, ler a entrevista foi extremamente gratificante, principalmente por ser de autoria do Lucas Martinez, com quem tive pouco contato, mas suficiente para admirar. Parabéns, meu jovem. Grande abraço.

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Aspirante a fotógrafo, chocólatra e corrijo erros de português mentalmente.

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