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Política | Edição #449 - 12/09/2016

“Não se analisa gênero ignorando as opressões de classe”

Eloísa Amaral é feminista, atua em Maringá como professora e estuda o movimento feminista interseccional

Camila Lucio
Aluna de Jornalismo

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Eloísa Amaral mediou o Colóquio de Feminismo Negro da UEM  Imagem/ Willian Gabriel

Eloísa Amaral mediou o Colóquio de Feminismo Negro da UEM
Imagem/ Willian Gabriel

Eloísa de Souza Amaral, 31 anos, é formada em Ciências Sociais e atua como professora na rede pública e estadual. Desde 2013, participa do Núcleo de Estudos Interdisciplinares Afro-brasileiro (Neiab), que estuda o feminismo e feminismo interseccional. Ela foi mediadora no Terceiro Colóquio de Feminismo Negro, que ocorreu em julho na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Participa de eventos como palestrante e ministra cursos sobre questões de gênero, raciais e os movimentos feministas.

Eloísa começou a trabalhar desde muito cedo e conciliava os estudos acadêmicos com o trabalho. Nesse período foi compreendendo as diferenças estruturais que existem na sociedade. Em conversa com o Jornal Matéria Prima (JMP)  via WhatsApp, contou que gosta de trabalhar com teorias feministas porque vê na escola que as crianças já vão desenvolvendo desde muito cedo um certo preconceito de gênero “isso é pra menina, isso é para menino”, relata.

Você sempre se considerou feminista. Mas a partir de qual momento decidiu estudar sobre o assunto?
Tive contato com as teorias feministas na academia a partir de leituras e participando de grupos organizados dentro da universidade. Mesmo assim, ainda não me identificava com muitas pautas. Com o passar do tempo fui aprofundando minhas leituras pessoais, tive contato com o feminismo interseccional, que faz o recorte de gênero, classe social e raça. Hoje desenvolvo uma pesquisa de mestrado sobre os movimentos feministas, teoria democrática e a comunicação.

Atualmente muitas pessoas criticam o feminismo e dizem que é “mi mi mi” das mulheres. Qual é finalidade do movimento?
Há muitos equívocos sobre os movimentos feministas, como dizer que as mulheres querem tomar o lugar dos homens. As lutas são por igualdade e espaço nos espaços públicos e valorização do que é desempenhado no espaço privado. O movimento pode ser divido em ondas. A primeira tem início no século 19, com as lutas por igualdade, contratos de propriedade, pelo sufrágio universal, direito ao voto. A segunda onda vem na segunda metade do século 20, com a proposta da desconstrução cultural. Nessa onda o movimento traz as questões a exclusão cultural e política. Já a terceira emerge no final dos anos 1980 e é mais plural. Vemos a emergências dos feminismos e suas subjetividades, fugindo desse feminismo branco e hegemônico, dentre eles o feminismo negro, feminismo interseccional, termo cunhado por Kimberlé Crenshaw.

O feminismo está evoluindo e expandindo com o passar das décadas. Em Maringá como o tema vem sendo explorado?
O tema feminismo é algo que está em pauta em grande parte do mundo. Consideramos que os meios de comunicação tem sido primordiais para a disseminação de informações e isso vem com um ponto de vista positivo. Maringá não é diferente. Temos tido vários eventos na cidade com o tema, principalmente sobre o conceito de empoderamento da mulher. Há pouco tempo essas discussões eram organizadas dentro do espaço acadêmico, hoje percebemos que o assunto extrapolou os limites da academia e está em vários locais . O Neiab – UEM [Núcleo de Estudos Interdisciplinares Afro-brasileiro] é um grupo institucional ligado a vários consórcios no Brasil referente ao tema. Desenvolvemos estudos com o intuito de diminuir as desigualdades sociais. Os temas abordados, racismo, questões de gênero, educação para a diversidade, são trabalhados dentro da universidade, nas escolas e com a comunidade externa de Maringá, Brasil e exterior.

O feminismo atinge diferentemente mulheres de classes, etnias e gêneros diferentes. No caso do racismo, como o feminismo aborda o tema?
Sobre racismo e feminismo, compreendemos que os grupos feministas, ao longo de sua história, foram construídos a partir de uma visão eurocêntrica. Esse fator acaba por não abarcar as subjetividades de grupos, que não fazem um recorte racial sobre as opressões sofridas pelas mulheres. Seriam mulheres oprimindo mulheres. Não podemos fazer uma análise de gênero ignorando as opressões de classe e muito menos das questões raciais. Estudos apontam que as mulheres negras acabam ficando na periferia das discussões não tendo voz e sendo inseridas em um feminismo hegemônico. Nesse sentido, as mulheres indígenas também ficam relegadas.

Você atua como professora na rede pública e estadual. Como esse assunto é abordado em sala de aula?
Trabalhamos sobre questões de gênero na educação, buscando mudar o senso comum no que se refere às divisões sociais, incluindo trabalho. A partir de dados científicos apontamos o quanto a sociedade é estruturada em posições equivocadas. Além disso, o quanto o machismo é nocivo e violento, o quanto legitima relacionamentos abusivos, assassinatos, relações de trabalho totalmente díspares, ou seja, uma mulher desempenhando a mesma função de um homem é menos remunerada.

Você foi mediadora no Terceiro Colóquio de Feminismo Negro, que ocorreu na Universidade Estadual de Maringá, em julho. Qual tema relacionado ao assunto foi apresentado?
O colóquio realizado pela equipe do Neiab-UEM, teve como objetivo o empoderamento da mulher negra. Recebemos várias teóricas para debatermos as questões que envolvem a mulher negra no Brasil. Tivemos um público, durante toda semana, de mais de mil pessoas e pudemos desenvolver estratégias que possibilitam um espaço que dá voz as questões feministas. O colóquio é realizado na semana que se comemora o Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha.

Como foi para você ser mediadora no evento?
Participei como mediadora em uma das mesas a convite do Neiab – UEM para levantar questões referentes a esse debate. O que foi motivo de orgulho e aprendizado. O feminismo é um movimento em construção e esses debates são extremamente importantes e produtivos para o movimento, corroborando com a sua construção e suas pautas.

  

 

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