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Cidade | Edição #450 - 19/09/2016

“Crianças e adolescentes precisam ser protagonistas das próprias histórias”

O educador João Francisco defende que projetos sociais não são favor ou caridade, e sim direitos conquistados

Kamilla Yohanna
Estudante de Jornalismo

Comentários
 
Desde 1996, João Francisco participa de projetos sociais (Imagem/Reprodução)

Desde 1996, João Francisco participa de projetos sociais
(Imagem/Reprodução)

Projetos sociais são essenciais à sociedade para garantir a valorização e os direitos dos seres humanos. Organizações como essas não são cômodas em querer mudança sem o ato de mudar, pelo contrário, são projetos que fazem a diferença e que deveriam receber mais apoio por isso.

João Francisco, 51 anos, é especialista em Políticas Sociais e desde 1996 participa e está à frente de diversos projetos sociais no Paraná. A luta e dedicação resultou em um extenso currículo. Em conversa com o Jornal Matéria Prima (JMP) o educador social demonstrou estar engajado na luta pelo direito das crianças e adolescentes desde sempre, levando para a vida o lema da Associação Novo Amanhã, que engloba os projetos sociais dos quais ele participa: “Juntos Construindo uma Nova História – porque não somos nós e nem são eles, somos todos”. A seguir os principais trechos da entrevista.

Você sempre se interessou em defender crianças e adolescentes. Mas quando resolveu se envolver com projetos sociais?
Sempre achei muito injusto a questão da legislação brasileira não reconhecer a criança e o adolescente como indivíduos. No século passado, nos Estados Unidos, teve o caso de uma criança que era maltratada, mantida em cárcere privado, e os vizinhos dela se revoltaram com isso, mas não tinha uma legislação que pudesse cessar a violência. Quem entrou com uma ação na Suprema Corte dos Estados Unidos para garantir o direito daquela criança foram os defensores de animais domésticos, ou seja, já existia legislação que amparava os direitos de animais e não existia para crianças e adolescentes. Isso me chamou muito a atenção no início. Aqui em Sarandi [8 km de Maringá], especificamente, comecei pela questão da exploração do trabalho infantil e as crianças que ficavam na rua esmolando. Foi implantado no município um programa de resgate a essas crianças e vim para analisar, acabei ficando durante quatro anos, coordenando o projeto. Esse programa tinha como meta tirar as crianças da vulnerabilidade, e pensando no que propor a elas começaram a surgir os projetos. Começamos com ações culturais e esportivas, depois veio a questão do Adolescente Aprendiz, para encaminha-los ao projeto Jovem Aprendiz.

Todo projeto, embora específico, tem uma importância para a sociedade em geral. Qual é a importância desses projetos relacionados a crianças e adolescentes para toda a comunidade?
É resgatar a valorização da cidadania. Porque com os projetos é feito com que o adolescente, a família e consequentemente a sociedade compreenda que investir em projetos sociais na área da criança e do adolescente é investimento e não gasto.

A Associação Novo Amanhã apoia os jovens para que eles mesmos busquem os próprios direitos. Mas como é organizado isso dentro do projeto?
No primeiro momento fazemos uma reunião, que chamamos de roda de conversa, onde colocamos situações e começamos a falar a respeito. A partir disso, colocamos alguns parâmetros do que pode ou não funcionar. Discutimos as prioridades e se iniciam as propostas. Os resultados surgem a partir das próprias crianças e adolescentes e não a partir da associação. Somos um mero instrumento de apoio a esses jovens.

Investir em projetos sociais é investimento, e não gasto

Em todas as lutas existem barreiras, com os projetos não é diferente.  Quais são as maiores dificuldades?
É a questão do preconceito social, envolvendo gênero, raça, religião, economia e até mesmo de espaço geográfico dentro da cidade. Lembro que em um encontro [de um projeto], uma adolescente argumentou para que fosse no salão comunitário do bairro dela. Ela disse: Quando chego aqui com o pé sujo, vocês que moram no asfalto não entendem, então precisam descer para saber qual é nossa realidade. Achei muito bonita a frase dela, porque esse tipo de preconceito que a gente não fala e até diz que não tem, é uma das maiores dificuldades. Também existe a questão da estrutura, que o município não oferta, para que a juventude mostre seu real valor. Há “n” jovens da cidade fazendo universidade, mas há dificuldade em encontrar um mercado de trabalho para estagiar.

Os órgãos públicos muitas vezes se envolvem em projetos sociais. Nesses projetos da associação há auxilio do governo ou relação com órgãos públicos?
Somos totalmente independentes e autônomos. Nunca fizemos nenhum convênio com órgãos públicos. Temos parcerias com grandes instituições, mas sempre na autonomia e na não subordinação aos interesses de determinados políticos. A meta da instituição é garantir o respeito aos jovens e as famílias.

A divulgação é muito importante e necessária para dar continuidade aos projetos. Como trabalham essa questão?
Divulgamos basicamente através dos adolescentes, porque nós entendemos que as crianças e adolescentes precisam ser protagonistas das próprias histórias. Mas temos que reconhecer que os grandes parceiros são as escolas, elas estão sempre abertas e apoiando os projetos.

Faz 20 anos que você participa de projetos. Quais foram as maiores conquistas que pode apontar?
Há duas coisas que considero importante, uma foi a reeducação do trabalho infantil e outra, encontrar vários ex-adolescentes na universidade. Isso é muito gratificante. Ouvir o depoimento de uma mãe que diz: nunca imaginava que meu filho iria terminar o ensino médio e hoje está em uma faculdade. Isso é uma das maiores conquista, porque muda a história de famílias.

Apesar dessas conquistas, você sempre está buscando mais. Se sente satisfeito com o trabalho que realiza?
Não, acho que é pouco, precisa-se fazer mais, ampliar mais, incentivar mais, não em relação à associação, e sim de maneira geral. Acredito que várias outras ações poderiam ser feitas de formas diferentes. Outra coisa que não me sinto satisfeito é que algumas pessoas confundem projetos como se fossem projetos de caridade, e não é de caridade, é de direito, é de valorização ao ser humano. Acho que quando tem alguma coisa a ser resolvida, você ainda precisa continuar fazendo. A não desistência, continuidade, sair do discurso e ir para a ação, falar menos e fazer mais, fazer e não precisar ficar falando o que fez. Colocar os adolescentes para serem protagonistas das próprias histórias, tudo isso ainda é pouco incentivado e oportunizado.

Discussão e comentários »

2 comentários | Deixe seu comentário

Joceli Bil dos Santos disse:

Também sou muito grata ao João, realmente uma pessoa que faz a diferença na vida de muitas pessoas. Parabéns pelo seu trabalho.
Obrigada!

Eduardo Nogueira Costa disse:

Olá,

Sou muito grato pelo vida desse homem fantástico que carrega um sentimento de tornar a vida das outras pessoas melhor. E além de sentir, ele grita isso com a sua atitude. Sou resultado dessa atitude.

Esse homem que injetou ânimo, incentivou o estudo, a leitura e tantas outras formas de nos tornar seres humanos melhores. Tem conseguido!

Obrigado por existir João!

abraços.

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