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Literatura | Edição #445 - 08/08/2016

Uma crônica para a minha irmã mais nova

As brigas eram parte da rotina, mas uma estranha vontade de proteger a outra fez as coisas mudarem sem que notassemos

Gabriela Maia
Aluna de Jornalismo

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Há quase 18 anos, em um agosto como este, você chegava em casa. Todas as atenções e todos os cuidados estavam voltados a você. Confesso que me senti ameaçada com a sua presença. Desejava que você nunca tivesse chegado e bolava planos para me livrar de você. Nossos pais não permitiram que eu tivesse êxito em meus planos e você cresceu. Antes que eu percebesse, você havia deixado de ser um bebê indefeso e nós disputávamos de igual para igual.

As brigas eram constantes. Brigávamos por brinquedos, pela posse do controle da TV, roupas, doces e atenção dos pais. Muitas vezes, brigávamos por brigar, apenas pelo prazer de tirar a paz da outra. Puxões de cabelo, tapas e empurrões eram rotina. Mas contrariando todas as nossa expectativas, algo começou a nos unir. Um dia, no parquinho, você mordeu uma garotinha que disse “sua irmã é chata, ela não pode brincar com a gente”. Houve também uma vez em que eu bati em um garoto que riu de você, te chamando de gordinha. Aos poucos, uma proteção mútua e uma cumplicidade inquebrantável começaram a surgir entre nós duas. Não admitíamos que outras pessoas fizessem mal nem a uma nem a outra. Bater e xingar a outra era uma exclusividade nossa.

Muitas vezes, brigávamos por brigar, apenas pelo prazer de tirar a paz da outra

Você estava crescendo, assim como eu crescia. Não demorou para eu perceber que era difícil enganar você. Na verdade, não me lembro de ter conseguido alguma vez. Você sempre foi mais esperta, mais forte e mais briguenta do que eu. Até mais alta do que eu você ficou. Contestadora por natureza, sempre soube reivindicar seu espaço e não me deu muitas chances. Eu não poderia mais competir. Você fez as vezes de irmã mais velha, tirando o posto de mim.

Na adolescência, nossas diferenças ficaram ainda mais escancaradas. Eu era tímida, tranquila e com a cabeça nas nuvens. Você, extrovertida, inteligente e cheia de amigos. Eu te admirava em segredo. Achava você a menina mais linda e divertida que eu conhecia. Sentia uma necessidade inexplicável de te proteger e me preocupei quando você começou a namorar. Ainda haviam resquícios de disputa, porque eu queria ver o filme do Fellini e você queria ver O Exorcista. No entanto, sem que percebêssemos ou pudéssemos explicar, nos tornamos amigas.

Para mim, sua irmã, a sua presença e o seu riso representam mais do que os outros podem ver. Porque você começou a compartilhar comigo os seus segredos e eu passei a te adorar como nunca antes. Um indizível e fatal amor sem remédio, um elo forte e secreto que me prende a você.

Pixabay/Domínio Público

Pixabay/Domínio Público

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