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Literatura | Edição #432 - 23/11/2015

As despedidas que não aprendi a lidar

A cada dia, um novo aprendizado; dentre os inúmeros que o jornalismo me deu, posso dizer ‘não aprendi dizer adeus’

Ana Carolina Prado
Aluna de Jornalismo

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Eu definitivamente não nasci para lidar com despedidas (Foto: Ana Carolina Prado)

Eu definitivamente não nasci para lidar com despedidas (Foto: Ana Carolina Prado)

Amanheceu, os raios de sol começam a entrar pela janela, o canto dos pássaros me diz que é hora de acordar. Levanto, vou até a cozinha, preparo o café e sento para ler o jornal. Leio a primeira reportagem e meus olhos se enchem de lágrimas. Bebo meu café, largo o jornal sobre a mesa, me arrumo e saio rumo ao trabalho. Não é fácil lidar com despedidas.

Chego ao escritório, cumprimento os colegas, vou até minha mesa e já me deparo com o lembrete de toda a semana: “Terça-feira! Dia de pauta!”. Um nó se forma em minha garganta. Pego o papel, amasso e jogo no lixo. Ligo o computador, acesso a internet, dou de cara com a página inicial do navegador e novamente me vem a vontade de chorar. Decido enfrentar o sofrimento e leio todas as notícias na íntegra – ou pelo menos finjo que leio. Passo os olhos sobre as embaçadas linhas que minhas lágrimas não me permitiam decodificar. Lidar com despedidas é um tanto quanto complicado.

Passo os olhos sobre linhas que as lágrimas não me permitiam decodificar

Saio para o almoço e, no caminho até o restaurante, avisto uma senhora oriental dando aula de origami para crianças de rua. “Isso daria uma ótima reportagem”, penso. Pena que acabou. Aperto o passo, olho para o chão tentando disfarçar o choro e a vontade de conhecer aquela senhora. É muito difícil lidar com despedidas.

Entro no restaurante, olho para a TV e vejo a abertura do telejornal. Engulo a comida, pago a conta e volto ao trabalho. Lidar com despedidas está sendo pior do que eu pensava.

Na volta para casa ligo o rádio do carro justo na hora da Voz do Brasil. Desligo o rádio, desligo o carro e tenho uma crise de choro no meio do trânsito caótico das seis da tarde. Escuto buzinas e xingamentos, me obrigo a ligar o carro novamente e descongestionar a Avenida Brasil. Despedidas me tiram do sério.

Passo na farmácia, compro um calmante e na fila do caixa escuto duas mulheres conversarem sobre a reportagem do jornal local. Pago o medicamento e saio o mais rápido possível, tentando evitar uma nova crise. Despedidas são insuportavelmente péssimas.

No caminho até o carro, passo em frente à banca e vejo o vendedor se desiquilibrar e cair com uma pilha de revistas aos meus pés. Me obrigo a ajudá-lo e ele me entrega uma delas dizendo: “essa é de brinde”. Agradeço, pego a revista, enfio na bolsa e continuo caminhando. Lidar com despedidas está cada vez mais angustiante.

Já na rua de casa, avisto uma multidão e percebo que houve um acidente. Curiosa, me aproximo e vejo um cinegrafista e uma repórter cobrindo o ocorrido. Novamente a tristeza toma conta de mim. Desisto de querer saber o que aconteceu, atravesso a rua e caminho direto para o portão de casa.  Lidar com despedidas tem sido uma facada no peito.

Ao entrar em casa, tiro os sapatos, deito no sofá e evito ligar a TV, tiro o rádio da tomada e desligo o computador. Enfio as revistas na gaveta, rasgo o jornal e jogo no lixo. Finalmente estou livre. Agora sim, vou conseguir superar essa tal de despedida. Eis que recebo uma notificação de e-mail em meu celular. “Pautas da 432ª edição”. É, eu definitivamente não nasci para lidar com despedidas.

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