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Literatura | Edição #429 - 26/10/2015

O ser líquido na era do botão “delete”

Em um mundo cada vez mais fluído e rápido, a solidez se perde na medida em que eliminamos memórias e pessoas

Ademir Freitas
Aluno de Jornalismo

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“Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar”, já dizia Zygmunt Bauman na obra Amor Líquido. Foi exatamente com essa frase que eu deixei o ceticismo de lado. A rotina e a monotonia me transformaram em um cavaleiro com armadura de ferro: voraz por dentro, inacessível por fora. Estamos cada vez mais equipados com celulares, tablets e notebooks ultramodernos. A tecnologia mascarou o medo do abandono e da solidão, mas distanciou o contato humano e abriu portas para a superficialidade e a indiferença. Os relacionamentos de hoje são líquidos, passageiros, frágeis e momentâneos.

Eu era uma pessoa racionalmente equilibrada, até me dar conta de que estava caminhando na corda da indiferença. Os relacionamentos eram rápidos como um amor de verão, os amigos evitavam qualquer aproximação e a família nem sequer ligava para saber como estava o trabalho. Eu era um ponto de interrogação em uma folha branca e isso me bastava.

Foi a partir daí que percebi o desatino no peito: precisava de amor e não sabia

O relacionamento familiar e afetivo deixou de ser a coisa mais importante e deu lugar aos prazeres momentâneos do cotidiano. O pior de tudo: eu estava cego pelas amarguras do passado. Senti que algumas qualidades (para mim, no caso) se tornaram frequentes no meu modo de pensar. Eu tinha um escudo contra a solidez e insistia em me perder na inconstância de um rio. Entre a liquidez e o desejo, a superficialidade fazia o papel de vilão.

Respirei pausadamente, meditei por meses. Havia uma voz que pedia para eu parar. Desacelerei de uma rotina que não me cabia mais. Vi pessoas se afogando, enxerguei o caos que estava vivendo. Foi a partir daí que percebi o desatino no peito: eu precisava de amor e não sabia. Escorria entre os dedos feito água, fechava a mão e não salvava. Não escolhemos o amor, é ele quem nos acolhe: amor de mãe, pai, namorado, amigos. O elixir da vida é de graça.

Viver no mundo líquido requer consciência e compaixão. Caso contrário, o afogamento é inevitável. Consciência para não se perder na superficialidade dos laços humanos. Compaixão para curar feridas quando necessário. Sair da zona de conforto é olhar do alto de um arranha-céu. É sentir alívio após carregar uma bagagem pesada nas costas. É encontrar o equilíbrio. Enfim, transbordei.

(Foto: Álvaro Lara)

(Foto: Álvaro Lara)

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