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Literatura | Edição #425 - 14/09/2015

O sonho de uma vida sem pontos finais

Uma vida sem vírgulas é uma vida sem aventuras; abandonar os pontos finais e fugir às regras, às vezes, é necessário

Ana Carolina Prado
Aluna de Jornalismo

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Dia desses me disseram que eu não tenho vírgulas. Só pontos finais. Fiquei me questionando. Como seria uma vida sem vírgulas? Resolvi fazer o teste.

Segunda-feira. O despertador me avisa que é hora de acordar. Nem penso em ativar a soneca. Sete horas em ponto. Nem um minuto a mais. Nem um minuto a menos. Levanto. Lavo o rosto. Penteio os cabelos. Tomo meu café. Me visto e sigo minha rotina diária rumo a mais um dia de trabalho. Sem olhar para os lados. Sem mudar o trajeto. Sem vírgulas. É claro.

Meio-dia. Hora do almoço. Chego ao restaurante de todos os dias e peço ao garçom:

– Um suco de laranja. Por favor.

– Com ou sem vírgula, digo, açúcar, senhora?

– Sem vírgula. Por favor.

Termino de almoçar. Pago a conta. Volto ao trabalho. Eis que no caminho surge um rapaz. Ele me olha e tenta me entregar um panfleto. Recuso. Não tenho vírgulas e não estou interessada. Digo isso a ele. Atravesso a rua. Entro na empresa e volto a trabalhar.

Fim do expediente. Volto para casa. Tomo banho. Dou água às minhas plantas. Janto e vou dormir. O ritual se repete por semanas. Até que mando o infeliz do “panfleteiro” à merda e aceito a porcaria do papel que há dias ele insiste em tentar me entregar. No panfleto estava escrito: “Concorra a uma volta ao mundo com tudo pago”. Não dei muita atenção. Só preenchi o cupom porque o “mala” não saiu do meu pé. Cinco dias se passaram. Novamente o rapaz me aborda e me tira da rotina de pontos finais.

– Você ganhou! Você foi sorteada!

Não acreditei. Até ele me entregar uma passagem e me perguntar se tenho passaporte. Respondo que sim. Olho para a data da passagem. Embarco em dois dias. Nesse momento todos os meus pontos finais se tornam interrogações. Mas e o trabalho? E as contas em atraso? Quem vai regar minhas plantas? Em meio a todas as perguntas, me vem uma tempestade de vírgulas. Mando tudo para o espaço, volto para casa, arrumo uma mochila e pego um táxi rumo ao aeroporto.

Mas e o trabalho? E as contas em atraso? Quem vai regar minhas plantas?

Primeira parada. Nova Iorque. Compro uma camiseta escrito I love NY e um pau-de-selfie que acabou se tornando meu melhor amigo – não é fácil viajar sozinha. Resolvo tatuar algo para me lembrar dessa viagem. Nada mais nova-iorquino do que a Estátua da Liberdade. Dois dias depois, sigo para a Cidade do México. Tomo umas tequilas, tatuo uma caveira mexicana na perna e sigo para a Itália hablando espanhol. Aterrisso em Roma e visito o Coliseu. Tiro várias selfies, como muita pasta e tatuo a Torre de Pizza no calcanhar esquerdo. No dia seguinte, sigo para o Vaticano, troco uma ideia com o Papa, peço um autógrafo que, claro, vira outra tatuagem. Próxima parada, Inglaterra. Faço uma visita no Palácio de Buckingham, viro amiga da Família Real e tatuo o rosto da rainha Elizabeth II nas costas. Dois dias depois, rumo à Alemanha. Tomo vários chopps, danço e canto com um bando de alemães bêbados e animados, sofro bullying pelo “7×1” e, quando penso em me defender, viro-me para o lado e acordo sem querer.

6h59. É hora de voltar à minha vida de pontos finais. Levanto. Procuro minhas tatuagens e percebo que tudo não passou de um sonho. Lavo o rosto e vejo em meu pulso uma vírgula. Olho para o relógio. Estou atrasada. É hora de voltar para a minha rotina e dar tchau ao meu maior desejo: uma vida repleta de vírgulas, exclamações, reticências, sem pontos finais.

Resolvo tatuar algo para me lembrar dessa viagem. (Foto: Ana Carolina Prado)

Resolvo tatuar algo para me lembrar dessa viagem. (Foto: Ana Carolina Prado)

Discussão e comentários »

2 comentários | Deixe seu comentário

Iasmin Panzarini disse:

Muito bom!!!
Vc tem dom pra isso!

leaquim do prado disse:

Massa mina,muito massa.

Gostei.

Mesmo dormindo, a moça dos pontos e vírgulas, foi muito criativa.

E a dona da estória,também.

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