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Literatura | Edição #423 - 31/08/2015

O putrefato aroma da alma dos perfumados

Muito além do que os olhos veem e o olfato é capaz de sentir; fraqueza, escolhas erradas e um caminho sem volta

Pedro Henrique Solheid
Aluno de Jornalismo

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(Foto: Mariana Kateivas)

(Foto: Mariana Kateivas)

O vento frio da manhã disparava em minha cara o forte cheiro característico de mais um dia que começava: uma mistura da fumaça dos carros, folhas úmidas e o pão quentinho da padaria da esquina. Viro de lado, arrumo o cobertor improvisado com jornal, tento ignorar as pessoas que me olham com desprezo e prendem a respiração para evitar o mau cheiro.

Fracassada tentativa de adiar um pouco mais o inevitável. Mais uma vez, ser obrigado a deixar o orgulho dormindo, se é que ainda havia algum vestígio dele em mim, para encarar o preconceito e a intolerância de uma sociedade injusta, hipócrita e mentirosa. Pois é, eu também os desprezo. Assim como os aromas não me foram tomados, os sentimentos ainda vivem em mim, repletos de inveja e ódio.

Uma vida imersa em oportunidades. O que eu fiz? Cheirei todas

Sento na calçada, vejo ao meu lado meu único amigo. Quem me dera ser um cão como ele, penso. Um bafo de quem revirou todos os lixos que encontrou e deliciou-se com algum bicho morto antes de dormir, imagino se o meu estaria diferente. O cheiro de cachorro molhado não incomoda mais, às vezes até gosto, me faz lembrar que estamos vivos. Nunca me importei em lhe dar um nome, chamava-o cão.

Dia desses ouvi de um rapaz de uns 20 anos, mais ou menos, moletom escrito Medicina, ainda cheirando a novo: “não aguento mais acordar cedo e ter que ir de ônibus pra aula”. Realmente, deve ser dureza encostar a cabeça no travesseiro de penas, ar condicionado e edredom, ter que programar o despertador no iPhone novo e perder o sono imaginando se o pai já pagou a fatura do cartão.

Tomo coragem, me levanto, cambaleando, meio tonto de fome. Vou até a frente da padaria. Mãos estendidas, não preciso falar. Aquela boa senhora, de palavras tão doces quanto o próprio perfume barato, nunca me nega um pão velho e um copo d’água. Desjejum digno de rei. Coisa rara para alguém como eu.

O resto da minha manhã pouco importa para a maioria. Quem liga para um ser invisível? Por isso serei breve: “tem um trocadinho aí, tio?”; “Vá trabalhar, vagabundo!”; não sei se me dói mais uma resposta assim ou a total indiferença de quem não me olha, faz cara de nojo, e dispara logo um “tenho não!”.

A diferença entre a manhã e a tarde? A fome que já aumentou. Sei de cor o cardápio de cada restaurante do bairro, apenas pelo cheiro. Gosto de ficar perto de qualquer um deles quando o sol está a pino. O frango assado, o tempero forte e o converseiro apressado dos clientes me fazem lembrar os domingos na casa da vó. Parece agora outra vida.

Sem almoço, espero o cão que, mais sortudo, faturou um resto de marmita azeda. Admito, ele merece muito mais que eu. O mesmo semáforo, os mesmos rostos conhecidos de todo dia. Caras feias. Perfumes importados. Carros de luxo. De moeda em moeda e com a barriga vazia. Mais uns dois dias assim já consigo uma carreira do único cheiro que ainda me dá prazer. Não me orgulho disso, mas que alternativa me resta?

Já pensei em trabalhar. Já trabalhei. Quem me olha hoje não acredita. Eu mesmo não sei se acredito. Meu nome é Victor Andrade Júnior. Filho de empresário. Ex-aluno de Direito. Faculdade particular. Carro do ano. Uma vida imersa em oportunidades. O que eu fiz? Cheirei todas. Traguei até o último sopro de paciência dos meus pais.

Consumido pelo vício. Parei de ir às aulas. Roubei. Fui expulso de casa. O primeiro passo no caminho errado, confesso foi meu. O preconceito da sociedade se encarregou do resto. Sem rumo, sem perspectiva. Vivendo da caridade alheia. Contando, não os dias ou as horas para voltar pra casa, mas as moedas. Já é noite, cão, vamos, que em sonho ainda podemos cheirar flores e contar estrelas, tomara que não chova.

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