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Literatura | Edição #419 - 29/06/2015

As paranoias de uma mente perturbada

Um homem com transtorno de personalidade vê um menino e começa a se perder entre delírios e a realidade

Maria Eduarda Martins
Aluna de Jornalismo

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fotocronicaparanoia

Foto: Maria Eduarda Martins

Era a noite mais fria do ano, queria ficar em casa, assistir a um reality show qualquer, encher a cara com uma cerveja barata. Olhei para o céu e estava sem estrelas, ia chover, isso só aumentava a minha vontade de ficar em casa. Acabei cedendo ao pedido dos meus amigos e fui para uma reunião regada a queijo e vinho. As horas demoravam a passar, os assuntos eram sempre a vida das pessoas, pessoas que eu não conhecia. Afinal, eu nunca saía do meu sofá.

Já me sentia bastante zonzo.

- Será que eu já estou bêbado? Acho que os novos remédios que meu psiquiatra recomendou não são a melhor combinação com bebida alcoólica.      

Resolvi voltar pra casa. Para evitar pedidos para eu ficar mais algum tempo, não avisei ninguém. Estava satisfeito em voltar, andando pela noite. Foi aí que o vi pela primeira vez. Uma criança, aparentemente maltratada, suja, magra, com uma feição assustada. Ele estava a me olhar, eu acenei. Quando me aproximei ele fugiu. Cheguei em casa, ainda satisfeito, mas não conseguia tirá-lo da minha cabeça. Pensei ser o álcool e fui dormir.

Ouço gritos, daqueles que se misturam com lágrimas e soluços. Mãos pequeninas tentando evitar aquelas grandes mãos. Um homem com ar bruto, olhos ferozes em frente aquele menino, com olhos de terror, corpo magro, sujo. O homem tira o cinto e sorri, o menino fecha os olhos. E eu abro os meus.

- Como esse moleque foi parar no meu sonho? 

Pesadelos têm o poder de trazer aquele sentimento de desespero, nesse em específico, o desespero não parecia ser meu…era dele. Já passava das nove da manhã, eu precisava tomar café, minhas coloridas pílulas e ir para mais uma sessão. Odiava aquele homem, ele só me olhava com aquele olhar de julgamento. Mas o que posso dizer? Ele é quem tem as pílulas. Estava me sentindo atordoado, resolvi tentar a sorte e contar para ele o que havia acontecido. Ele, mais uma vez, mostrou ser um homem de poucas palavras.

- Você foi diagnosticado com transtorno de personalidade. Delírio é um sintoma e você sabe disso. 

Eu sabia disso. E mesmo assim a criança aparecia de novo e me perturbava. Às vezes ouvia gritos, choramingos, soluços, eu sabia que era ele. Cheguei a tentar procurá-lo, para tentar conversar, qualquer coisa que nos filmes tenha funcionado. Isso começou a me consumir, passava meus dias pensando sobre ele e minhas noites sonhando com ele. Meu psiquiatra resolveu aumentar a dose. Comecei a ter ataques, crises de pânico, sentia que ia morrer.

Em uma das minhas crises em especial minha irmã olhou pra mim com olhos de piedade e disse:

- Não dá mais. Isso não é normal. 

No outro dia de manhã fui para um hospital psiquiátrico, minha família recusava chamá-lo assim. Falavam que era “o lugar que vai te curar”. Eu aceitei. O que mais eu poderia fazer?

Três meses depois, eu não o via mais. Seus gritos, choros, soluços não me atormentavam mais, mas eu nunca o esqueci. Só havia resolvido que meus delírios haviam me levado à beira da insanidade.

Me perturbava, ouvia gritos, choramingos, soluços, eu sabia que era ele

Duas semanas depois, oito horas da manhã, passei um café e fui tomar na varanda. Três meses naquele lugar de paredes brancas e silêncio me fizeram apreciar o céu, as árvores e até a cantoria dos pássaros. Estava satisfeito, ainda não estava feliz, mas já era o bastante para mim. E então o vi. Em uma janela, desesperado. Não conseguia ouvi-lo, mas seus choramingos já sabia decor. Eu o vi.

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