Literatura | Edição #409 - 09/12/2014

JMP, difícil e prazeroso como ballet

A insegurança de conseguir se equilibrar na ponta dos pés dá o mesmo frio na barriga do primeiro telefonema para o entrevistado

Lais Moser
Aluna de Jornalismo

“Criem uma pequena descrição sobre vocês para colocarmos no JMP”, a primeira lição que o Jornal Matéria Prima me trouxe: Eu preciso saber me descrever, preciso saber sintetizar quem sou eu, para só então conseguir descrever meus personagens. Apaixonada por pontas, de sapatilhas e do lápis. Acho que cheguei à descrição ideal.

Lais Moser (Foto:Wesley Bischoff) [1]

Lais Moser (Foto:Wesley Bischoff)

Para as pequenas bailarinas o maior sonho é dançar usando uma sapatilha de ponta, para os jornalistas ver sua reportagem publicada em um jornal. Agora que já passei pelas duas experiências posso dizer: não são tarefas fáceis, mas muitíssimo prazerosas. Acho que nunca vou me esquecer do meu primeiro “Tití de prato” (saia de tule usado por bailarinas). Aquele verde que chamava atenção para meus quadris, disfarçava os pés inseguros que se esforçaram tanto para estar ali. Também não vou esquecer minha primeira reportagem, o sufoco para ser levada a sério, para conseguir falar com a psicóloga, para entrar no Lar dos Velhinhos.

A insegurança de conseguir se equilibrar na ponta dá o mesmo frio na barriga do primeiro telefonema para o entrevistado. A vontade de dar aquela espiadinha pelas coxias para ver se a platéia está lotada é a mesma de quando publicamos um texto, a diferença é que no jornalismo, essa platéia mesmo que tenha gostado, não aplaude no final. Aprendi que os tropeços ao longo do caminho são inevitáveis, a decepção de quando o entrevistado desmarca na última hora foi como um ligamento de tornozelo rompido no mês do festival. Um trabalho de muito tempo, que parecia perdido, motivo de lágrimas de medo e desespero, mas que, no fim, foi apenas mais um aprendizado que não atrapalhou no brilho do resultado final.

O desafio de a cada edição pensar um assunto novo para escrever, uma boa história para contar é como ter que decidir o tema de um festival de ballet, tem que pensar em um tema que seja de interesse de muita gente, algo que cative quem está assistindo, ou lendo. Tem que prender o público até o fim. A diferença é que para escrever optamos pelas palavras mais fáceis e mais curtas, no ballet, escolhemos os passos mais complexos, as sequências mais longas. Pode parecer loucura, mas o jornalismo tem muito a ver com o ballet.

Pode parecer loucura, mas o jornalismo tem muito a ver com o ballet

Se tivesse que escolher um dos momentos mais marcantes na minha trajetória de bailarina, sem dúvidas escolheria o dia da minha formatura. No jornalismo, espero que muitos momentos marcantes ainda aconteçam, por enquanto, guardo cada experiência na memória, cada aprendizado no coração, e nos pés cheios de bolhas das sapatilhas de ponta, a vontade de continuar caminhando em busca de novas histórias. Ao JMP só posso agradecer como se faz depois de uma aula de ballet, cansativa e cheia de aprendizados: Obrigada, obrigada!


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