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Crítica de Mídia | Edição #406 - 06/11/2014

Veja apenas aquilo que queremos que veja

Às vésperas das eleições, publicação foi uma das que apostou a última moeda na tentativa de eleger seu candidato

Wesley Bischoff
Aluno de Jornalismo

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Nunca neste país foi vista eleição tão disputada. Quiçá tenha sido a mais acirrada dos últimos 25 anos, ou seja, desde que o país voltou a ser república democrática. Foi também uma das eleições onde houve o maior número de baixarias e cenas lamentáveis durante as campanhas. De um lado, a candidata à reeleição Dilma Rousseff (PT) e, de outro, o tucano Aécio Neves (PSDB), que tentava quebrar o ciclo de 12 anos do governo petista. Em meio ao tiroteio da propaganda eleitoral, a mídia teve papel fundamental, e deplorável, na disputa e serviu como armamento para ambos os candidatos.

A intromissão dos meios de comunicação nas eleições prejudica a liberdade de escolha do eleitor

A revista Veja talvez tenha sido a maior representante do bombardeio eleitoral. Apesar de não realizar apoio formal ao candidato Aécio Neves, a revista de maior circulação nacional não poupou críticas à atual presidente, muito menos elogios à campanha de Aécio, que nadou e morreu na praia. O que Veja protagonizou caracteriza o grande dilema que persegue o jornalismo mundial: afinal de contas a imparcialidade existe ou é apenas mito acadêmico? Se depender do que o Brasil viu em outubro a resposta é clara e simples. Existe maior probabilidade de Papai Noel distribuir presentes no Natal do que haver prática de imparcialidade no jornalismo brasileiro.

Não foi apenas Veja que se utilizou do próprio poder de alcance durante às eleições. A revista Carta Capital, em editorial publicado, manifestou apoio à candidata Dilma Rousseff. Prática que é comum em países europeus e até mesmo nos Estados Unidos, onde jornais e revistas concedem apoio a determinado candidato por meio de editoriais. Porém, não se firmam apenas em elogiar determinado candidato e criticar exaustivamente o outro. De acordo com o vice-presidente da Federação Internacional de Jornalismo (FIJ) e presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Celso Schröder, no artigo Eleições e o jornalismo, publicado no site da Fenaj, a intromissão dos meios de comunicação nas eleições prejudica a liberdade de escolha do eleitor, além de ferir a democracia e a credibilidade jornalística. Segundo ele, “em vez de atribuir ao jornalismo um papel de investigação, com objetividade e neutralidade, as empresas brasileiras, na sua maioria, capitulam para uma militância óbvia, tosca e suicida”.

É mais fácil Papai Noel distribuir presentes no Natal do que haver prática de imparcialidade no jornalismo brasileiro

Como última cartada, Veja adiantou a publicação da edição do dia 29 de outubro para o dia 23, quatro dias antes das eleições do segundo turno. A capa trazia a foto de Lula e Dilma com os dizeres “eles sabiam de tudo”, referindo-se às declarações do doleiro Alberto Youssef, preso em março deste ano pela operação Lava Jato, sobre o escândalo do Petrolão. A partir daí se iniciou um bate e rebate entre Dilma e a revista da Editora Abril. Veja defendeu a liberdade de expressão e o jornalismo investigativo. Dilma disse que são acusações sem fundamentos. A briga rendeu direito de resposta à Coligação “Com a Força do Povo”, ao apedrejamento da sede da Editora Abril em São Paulo e uma tiragem extra da edição por causa do grande número de vendas. Nada mais.

O que fica claro é a tamanha irresponsabilidade, não só de Veja, mas de todos os veículos de comunicação que não mediram as palavras e interferiram diretamente no direito de escolha do eleitor. No fim das contas, ao fim dessas eleições houve vitória de ninguém. O que restaram foram derrotas. Perdeu o jornalismo, que nunca viu tamanho sucateamento de credibilidade e imparcialidade. Perdeu o eleitor, que se confundiu diante de exacerbado conflito. Perdeu o povo brasileiro, que agora se vê dividido entre esquerda e direita. Perdeu-se o rumo, a confiança e a esperança de que o Brasil está pronto para debater política assim como debate futebol.

Na homepage, Veja ironiza PT e insinua vitória de Aécio (Reprodução/Veja Online

Na homepage, Veja ironiza PT e insinua vitória de Aécio (Reprodução/Veja Online)

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