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Literatura | Edição #406 - 06/11/2014

“Saio da zona de conforto e perturbo o leitor”

Angela Ramalho, professora da rede estadual de educação, conta como a partir de um hobby se tornou escritora

Maria Isabel Corrêa
Aluna de Jornalismo

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(Arquivo Pessoal/Angela Ramalho)

Angela Ramalho, 59, com seus mais novos livros publicados
(Arquivo Pessoal/Angela Ramalho)

Formada em pedagogia pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), a maringaense Angela Regina Ramalho Xavier, 59, seguiu um caminho totalmente diferente do proposto pelo curso. Amante da escrita desde criança lançou mais de 40 antologias publicadas por diversas editoras. Por seis anos consecutivos (2007- 2013), teve obras de autoria própria selecionadas para o Panorama Literário Brasileiro, tradicional publicação que escolhe e publica os melhores textos do ano. Ano passado, foi indicada pela Diretoria do Portal do Poeta Brasileiro ao Prêmio Wilson Carita Lopes, como uma das cinco “Melhores Poetisas” de 2013. Neste ano, recebeu o troféu e certificado pela classificação do blog Não sou patrícia, mas sou poeta, de literatura, em 1º lugar no Prêmio Top Blog Brasil 2013/14, grupo de blogs pessoais, categoria literatura.

Em entrevista ao Jornal Matéria Prima, a escritora revela como surgiu o interesse pela poesia e a literatura. Conta também, porque a profissão de escritor é um “tiro no escuro”. E ainda, aconselha os jovens escritores que desejam trilhar esse caminho, mas que não sabem exatamente por onde começar. Confira a seguir a entrevista completa:

A senhora é formada em pedagogia pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Como a escolha dessa profissão a levou para o caminho da poesia e da literatura?
Minha intenção inicial era jornalismo, por conta disso, optei por fazer no ensino médio, um curso profissionalizante. Havia várias opções, entre elas redação. Fiz o curso técnico de redação em três anos. Tive como professora na disciplina de língua portuguesa, nada mais nada menos que Alice Áurea Penteado Martha, da UEM. Esse curso foi determinante, no entanto, meu contato com a poesia vem da tenra infância. Meu pai era paraibano, chegou ao Paraná nos anos 50 e trouxe consigo sua cultura. Cresci vendo-o fazer os famosos “repentes” (poesias de improviso). Foi minha primeira influência na poesia e na literatura. Quando optei pela pedagogia, tinha intenção de eliminar matérias para jornalismo. Concluí o curso e me encantei pela profissão, mas bem antes disso, a poesia e a literatura já haviam cruzado o meu caminho, uma vez que comecei a escrever textos e poemas aos 9 anos. A pedagogia não me levou para o caminho da poesia e da literatura, mas exercendo a profissão de educadora, usei da poesia e da literatura para desenvolver nos meus alunos o gosto pela leitura/escrita.

Como surgiu a oportunidade de publicar suas obras? E qual é a temática de seus livros?
Como disse, comecei a escrever muito cedo. Tinha um caderno onde registrava minhas poesias. Aos 18-20 anos eu acumulava perto de 400 textos. Datilografava-os e armazenava-os numa pasta preta, que guardava em casa com o maior cuidado. Quatrocentos textos me renderiam quatro livros (100 páginas cada). Um dia emprestei essa pasta para uma amiga. Como havia muitas poesias, achei natural que ela demorasse a ler. Quando fui pedi-la de volta, a mesma havia sumido! Perdi todos os meus primeiros textos! Chorei três dias seguidos, e esse episódio me desestimulou a continuar escrevendo. Passaram-se os anos e a vida me trouxe outras prioridades. O sonho do primeiro livro foi postergado. Somente em 2007 com o velho “Orkut”, foi que tomei contato com a poesia através das comunidades da rede. Fazia versos e os divulgava. Ali conheci sites direcionados a novos autores. Eu não era tão nova assim, mas entendi que “novos autores” não se referia a idade, mas sim ao tempo de carreira. Daí ao primeiro livro foi um pulo! Meu primeiro livro, Palavras Pedem Passagem é um livro de poesias sobre temas diversos, direcionado a jovens e adultos. Nesse livro o que chama atenção é a minha audácia! Nele eu contrario Vinicius de Morais e discordo de Fernando Pessoa. E não fico nem vermelha! [risos].

Somente em 2007 com o velho “Orkut”, foi que tomei contato com a poesia

Depois vieram outros livros.
Fiz Poeminhas Dedicados novamente no gênero poesia, com temas diversos, mas dessa vez direcionado ao público infantil. Mudei de gênero no terceiro livro. De Abraços & Cheiros são crônicas e contos abordando temas diversos, direcionado ao público jovem e adulto, mas eu diria que esse livro se encaixa mais ao universo feminino. As mulheres apreciam muito as minhas histórias. “De Abraços & Cheiros” foi prefaciado por Rejane Machado, escritora que trabalhou com Marina Colasanti no Jornal do Brasil, onde faziam críticas literárias.  Este ano fiz Traços livro de poemas de temas diversos, também destinado aos leitores jovens e adultos. Traços inaugura uma nova fase na minha poesia. Ando Leminskiando mais. Usando o mínimo de palavras para que se extraia delas o máximo. Provocando reflexões em cada linha. Saio da zona de conforto e perturbo o leitor. Quero mais é que ele reaja! Seguindo nessa mesma linha de pensamento, fiz Entendendo as Pessoas Grandes, uma série de contos com temas diversos, dirigidos ao público infanto-juvenil. Esse livrinho aparentemente simples aborda questões como violência, preconceito, religiosidade, educação dos filhos, situações escolares, entre outras. O livro objetiva levar as crianças e adolescentes a pensarem, refletirem, raciocinarem sobre as coisas. Chega de formar gerações manipuláveis. Paulinho, personagem central do livro, é um menino questionador. Encasquetou que queria entender as pessoas grandes. E as pessoas grandes, será que entendem as crianças? Bem, isso dá assunto para um próximo livro…

Muitos dizem que a profissão de escritora sempre são um “tiro no escuro”. A senhora teve algum tipo de insegurança na hora de trilhar por essa profissão?
No começo era mais um hobby, coisa de quem tem paixão pelas palavras. Não me imaginava escritora. Escrevia porque gostava de escrever e ainda procedo assim. Mas as coisas foram acontecendo, vieram os prêmios, o reconhecimento. Hoje eu tenho fãs. Isso gera uma responsabilidade muito grande. Eu nunca fui insegura. Sempre tive claro que era isso o que eu queria fazer.

Com os vários meios de comunicação existentes hoje, como a internet, quais são os riscos, já que o público agora sempre está querendo ter informações mais sucintas e rápidas em curto espaço de tempo?
Eu acho ótimo que o público queira saber sobre o meu trabalho. Gosto de interagir. Não vejo isso como um risco. O que acontece é que muitas vezes não consigo postar a resposta com a brevidade que o leitor deseja. Mas isso não significa que não queira responder, apenas que meu tempo é escasso. O que pode configurar-se um risco, talvez seja quando o leitor extrapola limites na sua comunicação, invadindo nossa privacidade com questões pessoais. Mas pela minha idade (sou uma “senhora”) isso não acontece muito. Outra coisa engraçada é imaginarem que tudo o que escrevemos é autobiográfico! Até tenho alguns textos nessa linha, mas são poucos!

Pretende lançar novos livros?
Já tenho dois projetos editoriais para 2015. Um é relatar as experiências de vida de uma moça que nos deixou muito jovem, acometida por um tipo agressivo de câncer. Será minha primeira biografia. O projeto é filantrópico e prevê a doação de todo o montante da venda dos exemplares às instituições de combate ao câncer na cidade. O outro projeto é mais um livro de poesias que está aguardando o resultado da minha participação em um edital de licitação cultural (Prêmio Aniceto Matti).

Qual o melhor caminho que a senhora indica para aqueles jovens escritores que desejam publicar livros para o grande público?
Existem sites direcionados aos jovens escritores, como a Câmara Brasileira de Jovens Escritores (CBJE). Indico ainda o Recanto das Letras. Todos os escritores em início de carreira já passaram por esses sites. Além disso, indico que usem blogs, Twitter, Facebook, fanpages, enfim todos os recursos que as redes sociais nos proporcionam.

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2 comentários | Deixe seu comentário

Parabéns Angela, seu trabalho estende luz por onde passa. Obrigada por existir.

Angela R. R. Xavier disse:

Obrigada amiga Railda, tenho a dizer o mesmo sobre o seu!

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Conversadeira, ama ouvir histórias e contá-las. Identifica-se com o jornalismo e é apaixonada pela família.

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