Cesumar - Centro Universitário de Maringá

Jornal Matéria Prima

 
  • Última Edição: #483 | 28/06/2018 - Ano XIX
 
Tecnologia | Edição #408 - 20/11/2014

Alvos do cyberbullyng são atingidos em Maringá

Aplicativo Secret, no Brasil, foge do objetivo principal e gera discussões com postagens difamatórias e ofensivas

Equipe JMP
edição especial

Comentários
 

Uma nova porta se abriu dentro do mundo virtual. Aquilo que as mãos escrevem rapidamente por meio dos teclados touchscreen dos celulares modernos da era contemporânea, todos podem ler, mas talvez ninguém saiba quem está por trás de cada publicação feita. A privacidade nas redes sociais se torna algo contraditório quando se cita o cotidiano pessoal. Até mesmo as ações mais íntimas podem estar ameaçadas. Fundado em janeiro deste ano, o aplicativo “Secret” – segredo em português – é uma das opções para que aqueles que se sentem sem amigos possam contar intimidades sem ter a identidade revelada.

Usuários escondem identidade na internet e praticam difamação (Foto: Tuana Mignoso)

Usuários escondem identidade na internet e praticam difamação (Foto: Tuana Mignoso)

Criado nos Estados Unidos por Chrys Bader-Wechseler e David Mark Byttow, dois ex-funcionários da Google, o aplicativo tinha como objetivo inicial aproximar as pessoas que necessitavam de conselhos em situações variadas do dia a dia. No entanto, a ferramenta que tinha por objetivo ajudar acabou se tornando em arma para o cyberbullying em diversos países. Aqui no Brasil, o Secret chegou oficialmente apenas em maio. Disponível para as plataformas iOS, da Apple, e Android, da Google, o aplicativo ganhou força em meados de agosto, quando começou a liderar o número de downloads nas lojas de ambos os sistemas operacionais. A ferramenta se tornou tão acessada que virou um dos assuntos mais comentados nas redes sociais, como o Twitter e o Facebook.

Enquanto muitos se divertiam criando os famosos “memes” da internet dentro do Secret, alguns aproveitaram do anonimato presente no aplicativo para difamar colegas ou inimigos. Em cada post, a ferramenta permite que o usuário utilize uma foto de plano de fundo para um pequeno texto. Qualquer usuário pode visualizar, curtir, comentar e até mesmo compartilhar a publicação em outras redes. Além disso, o Secret também permite que uma publicação seja denunciada caso a mesma tenha caráter ofensivo (bullying) ou que ameace o sistema operacional e dados do usuário, o famoso spam.

Vítima de ofensas pelo Secret, o estudante Ygor Gomes, 20, tratou os compartilhamentos do aplicativo com indiferença. “Isso só pode vir de pessoas invejosas.” Ele também conta que teve curiosidade de saber quem estava por trás das publicações. “Eu queria saber quem mencionou meu nome lá, mas não liguei e não corri atrás de saber quem foi. Considerei os comentários bons que recebi e os ruins ignorei.” Outra vítima do aplicativo foi o estudante Arthur Henrique Leonello, 19, que, apesar de os comentários negativos e das ofensas geradas a ele, não teve desejo de vingança. “Eu sabia que era apenas mais uma vítima do aplicativo. Para mim, pessoas inseguras têm o dom de rebaixar os outros para se sentirem melhores e isso acabou não me atingindo tanto.” Leonello também conta que gostou da proposta do aplicativo em si, entretanto, o Secret acabou sendo mal interpretado. “O anonimato acaba levando as pessoas a fofocar, difamar e caluniar, o que no meu ponto de vista, tornou a proposta uma ferramenta para o cyberbullyng.”

A ferramenta que tinha por objetivo ajudar acabou se tornando em arma para o cyberbullying 

Segundo informações da 9º subdivisão da Polícia Civil de Maringá foram registrados quatro casos de cyberbullyng neste ano. Entretanto, são inúmeras as vítimas que sentem medo em iniciar um processo judicial ou, em muitos casos, desconhecem o mecanismo de aplicação penal. É o que expõe o doutor em educação Paulo Veroneze, também professor na graduação e pós-graduação de Direito na Universidade Estadual de Maringá (UEM) e Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC). Para ele, esse receio por parte das pessoas se origina da cultura do brasileiro, de querer acertar tudo no “jeitinho”. “A maioria da população não tem conhecimento que a ofensa praticada seja um crime. Não buscam entender sobre procedimentos mínimos da legislação.” Veroneze esclarece que o principal problema enfrentado não é fazer a classificação do crime, mas a fixação da competência do processo penal, ou seja, são critérios empregados por ordem jurídica para estabelecer os limites em que cada órgão desse poder possa exercer a função jurisdicional.

No caso do Secret, se compreender que a infração ocorreu pelo provedor, a situação se torna complicada para processar, sabendo que esse provedor está localizado nos Estados Unidos, discussão ampla nos tribunais. Em complemento a isso, o aplicativo se contrapõe ao Marco Civil da Internet, outorgado este ano, pelo fato de dizer que todos os serviços em território nacional devem se adequar a nossa legislação.

No entanto, diversos usuários do aplicativo aqui no Brasil resolveram entrar com uma ação judicial para que o Secret fosse proibido no país. As denúncias vieram principalmente por pessoas que se sentiram ofendidas ou foram difamadas por outros usuários no aplicativo. No dia 19 de agosto, uma representação vinda da Justiça do Espirito Santo determinou que o Secret e o similar Cryptic fossem removidos das lojas de aplicativos aqui no Brasil, alegando que os mesmos violavam a proteção da privacidade dos brasileiros. No entanto, 24 dias após a determinação, a Justiça voltou atrás e resolveu liberar os aplicativos novamente para os usuários brasileiros. Em entrevista para o jornal Folha de S. Paulo, o desembargador Jorge Henrique Valle dos Santos, da terceira câmara cível do TJ-ES, entendeu que o Secret não seria totalmente anônimo, uma vez que o IP (Internet Protocol) dos usuários poderia identificá-los caso fosse necessário.

A maioria da população não tem conhecimento que a ofensa praticada seja um crime

É importante ressaltar que as vítimas acabam ignorando as inúmeras ofensas geradas pelo aplicativo, pois têm a possibilidade de realizar denúncias dentro do próprio Secret. Como citado no início da reportagem, a ferramenta fornece para o usuário a opção de denunciar o conteúdo e, caso os desenvolvedores entendam que o post foi realmente ofensivo, removê-lo. Porém, por conta da grandiosidade da rede, a remoção da publicação pode demorar a acontecer. Vale lembrar que em uma rede social, quase tudo o que é compartilhado com alguém, tem um nome e um rosto. O ambiente pode ser do mundo virtual, mas sempre terá um pé na realidade. O Secret pode ser comparado a um grande muro, onde várias pessoas que passam por ali deixam recados para os próximos ler e assim sucessivamente. Cria-se uma sensação de liberdade, bem como de impunidade, mas é preciso estar atento.

Especialistas de todos os cantos do mundo alertam: tudo o que é feito na internet deixa algum rastro. Isolamento, depressão e, em casos mais graves, até o suicídio podem ser consequências tomadas por alguém que teve a intimidade exposta nas redes sociais. O problema se acentua ainda mais quando a agressão vem de forma anônima. Porém, muitas vezes, os agressores não avaliam tais consequências que podem ser geradas após o ato da publicação. O que é feito com tom humorístico, pode perder a graça e se tornar em tragédia.

(Foto: Rodolfo Boechat)

Parte da população desconhece que a ofensa praticada seja crime (Foto: Rodolfo Boechat)

Os motivos que levam as pessoas a cometer difamação por meio do anonimato são abordados pelo professor assistente do departamento de psicologia da Universidade Estadual de Maringá (UEM) Marcos Klipan. “Creio que esse aplicativo deixou evidente o quanto nos interessamos por pensamentos particulares e, ainda, o quanto desejamos revelar muitos deles, mas que são censurados socialmente.” Ele também elucida sobre a suposta ideia do anonimato encorajar as pessoas em realizar parte dos desejos, sem precisar se responsabilizarem pelos danos, porém isso se trata de um engano. “Mesmo que muitos pensamentos e desejos não sejam controlados por nós, apenas aparecem, uma vez que temos responsabilidades sobre o destino que damos a eles.” Para Klipan, exemplo disso são os casos de racismo e homofobia, em que o ideal seria as pessoas superarem ou manter, pelo menos, a tolerância.

Foi o caso do estudante identificado com as iniciais M.G.K, de 17 anos, que publicou uma mensagem difamatória, anonimamente, no Secret. Inicialmente, ele relatou que se sentiu mais confortável ao compartilhar, justamente, pelo fato de ser anônimo, mas o medo veio à tona em seguida, após a onda de manifestos para tirar o aplicativo do ar. “Não me arrependo de ter publicado, porque o alvo foi atingido. Os meus amigos depois vieram me falar que a pessoa [vítima da ofensa dele] comentou sobre o post.” Até o momento, a vítima não entrou com nenhuma ação.

Reportagem de Caio Rosa, Tuana Mignoso e Wesley Bischoff, produzida para a disciplina Comunicação e Cultura
Professora: Licemar Vieira de Melo

Discussão e comentários »

Não há comentários | Deixe seu comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

* Copie a Senha gerada. *

* Digite ou cole senha aqui. *

33.155 Spam Comments Blocked so far by Spam Free Wordpress

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

 

Jornal Matéria Prima é produzido por alunos do curso de Jornalismo do Centro Universitário Cesumar - UniCesumar - na disciplina Técnica de Reportagem.

 

Publicado com WordPress / Laboratório de Notícias

Proibida a reprodução sem autorização do autor ou da Unicesumar

©2011-2018 Jornal Matéria Prima. Todos os Direitos Reservados.