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Literatura | Edição #404 - 23/10/2014

Para ser paciente é preciso paciência

Sou pobre, trabalhador e preciso cumprir com as minhas obrigações, mas tem dia que o corpo não aguenta e pede arrego

Wesley Bischoff
Aluno de Jornalismo

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Todos os dias, religiosamente, o galo da vizinha anuncia que o dia está começando. São cinco e meia da manhã e a labuta começa às oito. A Lua ainda está no céu e os primeiros feixes de luz começam a iluminar a humilde residência de madeira de apenas cinco cômodos. Alguém neste país precisa trabalhar, ou melhor, todo mundo. O happy hour de ontem, com os amigos do bar, parece que se esgotou em sua cota de felicidade. O que restou foi a dor de cabeça e a dor de estômago, além de uma tosse feroz que me acompanha há umas duas semanas. Ai, ai, ai, e por falar nelas, estão cada vez piores.

− Será que darei conta desta quarta-feira braba? Claro que sim! Afinal, pobre não pode ficar doente.

Esses foram meus últimos pensamentos antes de correr para o vaso e despejar pela boca parte daquilo que consumi nas últimas 24 horas. Talvez fosse melhor ver o doutor. Troquei de roupa e corri para o Pronto Atendimento mais perto de casa. Só fica há uns 30 minutinhos daqui. No caminho, ainda dentro do ônibus, ligo para meu chefe. Faço tom de voz de tragédia para anunciar que uma tempestade de mal-estar avança em meu corpo. Cada toque da chamada que percorre a linha telefônica é um frio na barriga. Como se meu estômago já estivesse muito bem para poder sentir algo a mais. Até que o momento acontece:

Mas filho, você precisa avisar que vai ao médico com 15 dias de antecedência. Assim prejudica todo mundo! – gritou aos berros, meu simpático chefe.

Após o sermão senhoril, chego ao Pronto Atendimento. Já na entrada me deparo com uma fila de pessoas que parecem zumbis. Gente que não dormiu, crianças chorando, idosos que clamam por piedade através do olhar. Dentre as paredes brancas, ou melhor, as encardidas paredes brancas que não recebem uma mão de tinta desde que o Posto foi inaugurado, há um amontoado de gente querendo se livrar de alguma dor ou enfermidade.

Próximo. PRÓXIMO! – grita a atendente estressada já no início do dia.

Ando até o balcão de atendimento com as forças que me restam e tossindo como um cachorro velho. Com um sorriso meio irônico a moça me diz “bom dia”, como se não fosse grosseira e o mundo fosse perfeito. Minha vontade é perguntar o que há de bom. Logo apresento meus documentos para que ela possa fazer meu cadastro. Assino uma folha que contém meus dados com uma caneta azul que já está falha.

Senhor, é só aguardar que o médico já vai te atender. POR FAVOR, O PRÓXIMO! – comunicou, bipolar.

Nomes e nomes são chamados, menos o meu. Começo a prestar atenção nos simples detalhes. O tic-tac do grande relógio, que tem uma moldura de madeira. A televisão ligada no telejornal que piora ainda mais minhas dores. As formas arredondadas em tons amarronzados que indicam onde muitas pessoas encostam e esfregam a cabeça, enquanto esperam na interminável fila. Os cartazes sobre prevenção de aids e sintomas de outras doenças, como a tuberculose. Lá se vão 30, 60, 90 minutos. Mais que uma partida de futebol em espera. Quando meu relógio digital, comprado do tiozinho da esquina, crava 9h14, ouço meu nome.

− É a sua vez, vamos entrar? – informa a moça, como se eu fosse criança.

Gente que não dormiu, crianças chorando, idosos que clamam por piedade através do olhar

Um momento de glória em um dia terrível. Entro no consultório e vejo o médico baixinho e gordo com olheiras. Tem um bigode espesso e usa aqueles óculos estilo general da ditadura, fundo-de-garrafa. Minha primeira impressão é que ele precisa de uma consulta com mais urgência que eu. A sala pequena tem uma maca velha, com um lençol sujo, além de uma escrivaninha. O doutor me estende a mão e força um sorriso.

− E, então, o que você sente?

Doutor, estou com dor de cabeça, dor de estômagofaço uma pausa para tossir como fosse colocar meu pulmão para fora. Recupero o ar − … e essa tosse infernal.

− Interessante. Vamos fazer uns exames. Sente-se na maca, por favor disse, olhando-me por cima dos óculos em tom de avaliação.

Com o estetoscópio no ouvido, pediu que eu respirasse fundo inúmeras vezes. Até que pegou um palito de picolé, enfiou em minha boca e pediu que a abrisse como nunca em minha vida. “Aaaaaaaaaaaaannnnn” foi a onomatopeia desse exame até ele ser interrompido pela minha tosse cavalar. Pede para que eu me levante e caminhe até a cadeira. Puxa um grande bloco de folhas e retira a caneta que está pendurada no jaleco branco. Começa a fazer anotações que nem Cristo pode entender.

− Isso aí é um caso típico de virose. Aposto que pegou uma friagem ontem, bebeu algo muito gelado e misturou com alguma comida pesada. Isso é comum, não é nada de tão alarmante – disse, ainda fazendo vários rabiscos no bloco.

Doutor, mas essa tosse não pode ser algo grave? Faz tempo que a tenho. Li lá fora que pode ser tuberculose.

Haha, meu rapaz. Isso é o tempo. Esse clima seco piora tudo mesmo, mas por via das dúvidas, volte aqui se a tosse não cortar. Vou passar uma injeçãozinha e uns remedinhos. Vai sobreviver. Já, já fica bom – disse, rindo, retirando a folha de papel com vários rabiscos que me lembram uma “regra de três”.

Cumprimento-o e vou a caminho da injeção. Entro na sala e saio mancando. Pelo jeito mais um estava estressado neste dia nada fácil do Pronto Atendimento. Poderia ter a mão um pouco mais leve. Enquanto mancava em direção à farmácia, xingava o enfermeiro mentalmente. Entrego os rabiscos para a atendente, que decifra todos os códigos que minha ignorância não permitiu ler.

Moço, temos todos esses, menos esse último. Mas acho que já deve estar chegando. Talvez daqui uns 20

Eu espero, já perdi o turno da manhã mesmo interrompi a moça, apenas querendo tomar todos os remédios e ir para casa.

20 dias, senhor. Mas se quiser deitar no chão e esperar, não irei impedi-lo. O local é público.

Retiro os remédios que a singela farmácia possuía, olho pela última vez para o grupo de sofredores e vou mancando até o ponto de ônibus. Nesse momento penso o quão bom seria pagar um plano de saúde. Será que evitaria reviver alguns desses momentos? Mas isso fica para daqui há alguns meses. Ainda tenho as parcelas da TV e da geladeira, sem contar esse remédio que tenho pra comprar. Ah! Como é preciso paciência para ser paciente neste país.

Foto: Lethícia Conegero

Foto: Lethícia Conegero

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