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Política | Edição #396 - 21/08/2014

“Qualquer um pode deixar de votar”

O cientista político Tiago Valenciano discute sobre as principais questões políticas em época de eleição

Nailena Faian
Especial para o Jornal Matéria Prima

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Tiago Valenciano pensa em atuar na política desde os 11 anos (Foto: Tiago Valenciano/Arquivo pessoal)

Está estampado nos carros, nos outdoors, nos folders, na televisão, no rádio, no chão das cidades, por todo lugar. Desde o dia 6 do mês passado, em que a propaganda eleitoral foi permitida, discursos, promessas e abraços de candidatos estão sendo distribuídos em massa.

Para o cientista político Tiago Valenciano, 27, as propagandas políticas não são nada ruins, já que o ajudam a completar a coleção de santinhos.  O colecionador é maringaense e se interessa pela área política desde pequeno, mais especificamente aos 11 anos, quando decidiu que prestaria vestibular para ciências sociais.

Atualmente Valenciano é doutorando em sociologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), é professor, servidor público da Câmara Municipal de Maringá e sócio de uma empresa de pesquisa eleitoral.

Além disso, no fim do ano passado publicou o livro Radiografia do poder – As elites políticas de Maringá, no qual faz um levantamento dos perfis dos vereadores de Maringá das Câmaras de 1997 a 2012, com o objetivo de apontar como uma pessoa comum se torna vereador e depois não sai mais do meio político.

Com toda essa experiência, o Jornal Matéria Prima o entrevistou e Valenciano explicou melhor sobre o desinteresse do brasileiro pelo voto, a atuação da escola como propagadora do conhecimento político, o voto nulo e branco e as maneiras possíveis de ser um eleitor ativo.

De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), na última eleição para presidente, em 2010, nunca tantos brasileiros deixaram de votar.  No primeiro turno foram 24,6 milhões de abstenções. Você acha que não votar é uma maneira de dizer não à política do Brasil ou é falta de conhecimento?

Podem ser essas duas hipóteses e mais uma. Aqui em Maringá tem normalmente 16% em média de abstenção por eleição, muito pelo fato de que a pessoa tem o título de eleitor em outra cidade e mudou para cá faz pouco tempo. O título não é como o CPF, que tem que andar o tempo todo na carteira. Você precisa mais do título de eleitor hoje no Brasil para assumir uma vaga na carreira pública e para abrir conta no banco e nunca mais. Então, também atribuo um pouco dessa falta de interesse por conta dessa questão. Também porque as pessoas preferem deixar que outras tomem conta da política do que realmente querer assumir seu papel. Aí o que eu sempre brinco, o cidadão comum trabalha das oito horas da manhã todo dia até às dezoito horas e chega em casa, tem que fazer o serviço, ajudar o filho, às vezes  tem a faculdade, enfim, o que sobra é fim de semana. Aí, como você tem outros afazeres, ninguém se interessa muito para ir à sessão da Câmara ver o trabalho dos vereadores, entrar no site da prefeitura, ir à transparência e ver o que o prefeito gastou e o que deixou de gastar.

Um dos meios mais práticos de ficar atualizado na política são os jornais. Além disso, é possível acompanhar os projetos de lei que estão em andamento nos sites do Senado e das Câmaras federal e municipal, porém é um processo mais complexo. De que outras maneiras é possível acompanhar as ações dos candidatos? 

Ou você delega o voto para uma pessoa que faça tudo ou participa politicamente

É aquele velho dilema, ou você delega o voto para uma pessoa que faça tudo e você não faça nada ou participa politicamente. Não tem muita saída se você de fato não acompanhar o trabalho e o que o candidato faz. A grande vantagem hoje são as redes sociais. Político adora gente e gosta de voto ao mesmo tempo. Cada pessoa é igual a um voto. Para ele conseguir mais voto e acessar mais o eleitorado cai nas redes sociais. Instagram, Facebook, Twitter e até mesmo o WhatsApp estão liberando para  falar com o candidato diretamente. Talvez, acompanhando o trabalho dele nas redes sociais, já facilite um pouco em relação aos portais oficiais. Aqui em Maringá tem a Câmara Mirim, do quinto ano do ensino fundamental até o nono ano. A Câmara tem dado espaço para ampliar a participação política, têm audiências públicas sobre vários temas do momento, um espaço que a população tem para discutir algum assunto. Até a própria igreja tem uma pastoral ou algum organismo voltado justamente para estipular isso.

Aproveitando seu comentário sobre a política nas redes sociais, você concorda que os candidatos a usam mais como forma de propaganda enganosa?

É enganação até certa parte de como ele conduz a rede social. Tem político que mescla tanto a postagem dele do dia a dia, andando de bicicleta, por exemplo, para mostrar que ele é gente e não aquela pessoa inacessível, ou mostra que está participando de uma reunião, mas às vezes ele só tirou a foto e foi embora. Então, vai muito daquilo de como as pessoas olham e se têm um olhar crítico para ver o que ele tem feito.

A revista Educação do portal UOL de Setembro do ano passado (ed.195) discutiu sobre a atuação da escola como propagadora do conhecimento político. Como professor, você acha que é função da escola discutir a política em sala de aula no contexto atual e até existir uma disciplina exclusiva?

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Santinhos guardados desde 1997 formam coleção de Valenciano

Acho que sim. Não tem como você deixar de discutir a política no dia a dia. Na verdade, conforme os anos vão passando, mais conhecimento surge e a sociedade vai ficando cada vez mais complexa. Não tem como você dar conta de tudo isso na escola. O conteúdo de qualquer livro que você for comprar tem 20, 30, 40 grandes temas. E dentro de cada tema você vai falar da especificidade de cada tema. É impossível conseguir dar conta no ensino médio, em um semestre, um ano que seja, ainda mais um aluno que está ali tentando descobrir o que é a vida, está passando por aquele processo de aprendizagem. Então, eu acredito que deveria ter uma matéria exclusiva, supriria bem a necessidade. Se não tiver discussão as pessoas não vão conseguir entender.

Toda vez que as eleições se aproximam entra em discussão a questão dos votos nulos e brancos. Muitos defensores do voto nulo dizem que se mais da metade dos eleitores anularem o voto as eleições serão feitas novamente. O que acontece, de acordo com o TSE é uma confusão entre nulidade e voto nulo. Você poderia explicar melhor esse processo?

Isso é um dos grandes mitos urbanos da política. Era já antes de entrar em redes sociais e até hoje acham que se votarem no nulo e branco vai ter uma nova eleição. Na verdade não acontece isso. O que se conta são os votos válidos. Voto válido para a Justiça Eleitoral são todos aqueles que foram [dados] a pessoas ou a legendas.  As pessoas também não sabem que tem essa possibilidade. Você não precisa votar só no candidato, pode votar no partido. Esse voto junta na quantidade de votos totais do partido. O TSE só faz a conta a partir dos votos válidos. Tira o nulo, tira o branco, tira abstenção, e entra o voto válido que é o do partido ou da pessoa. Outra coisa interessante é que as pessoas acham que o voto é obrigatório no Brasil. E se for ver é uma mentira. Qualquer um pode deixar de votar. Você tem o alistamento obrigatório, tem que ter o título de eleitor, mas você não precisa votar. É só justificar. Falar que você mudou de cidade, ou você pode pagar a multa eleitoral, que é quatro reais e pouquinho. É uma multa irrisória.

Recentemente você expôs na Câmara de Maringá a coleção intitulada como “Estádio de Futebol: Palcos das Emoções”, que exibia imagens históricas de estádios de futebol. Além disso, você também coleciona santinhos de eleições. Colecionar, para você, é um hobby?

Tenho esse problema de coleção. A do estádio coleciono os postais faz um bom tempo, desde 1999. Tem informação, está tudo catalogado. Tenho mais ou menos 3.000 imagens de estádios de futebol do Brasil. Já os santinhos, tenho uma coleção guardada desde 1997 até hoje intocada. Está meio bagunçada, na verdade é um juntado. Toda eleição eu coleciono. Guardo todo material, os que eu pego, claro. Por exemplo, a eleição para vereador  no ano retrasado tinha um monte de candidato. Não tem como pegar santinho de todo mundo, mas a maioria eu tenho guardadinho.

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