Literatura | Edição #392 - 27/06/2014

Dédalo num voo pássaro para a liberdade

Diante da sensação de saber que fez a escolha certa e a pressão de todos surge o questionamento: a liberdade é possível?

Tuana Mignoso
Aluna de Jornalismo

(FOTO: Tuana Mignoso) [1]

(FOTO: Tuana Mignoso)

Liberdade, no latim, Liberare. Ainda que com a cabeça rodeada de pensamentos sobre o futuro que me cerca, o mesmo mundo que me liberta é aquele que me prende e me segura com força impiedosa.

- Mas então, minha filha, por que jornalismo?

Sabe mãe, nem sei ao certo. Talvez o fato de saber que fiz a escolha certa me humanize. Jornalismo me humaniza. Ou então a parte de mim que afirma que gosto mais de escrever do que de falar responda a pergunta. Palavras: tenho muitas de sobra, para dar e para vender, mas apenas no papel. Nasci me encantando com o mundo e com a humanidade. Cresci me intrigando com a política e com as pessoas.

 A liberdade ainda é meu assunto preferido. É como despir-me. Tudo o que eu sou. Tudo o que vejo. Tudo o que sinto

Liberdade. É essa a palavra que venho procurando desde os quinze. Certa vez, um senhor de paletó preto, um pouco descorado – certamente pelo tempo de uso – gritou em meio à praça central da cidade o sentido da palavra “liberdade” de um jeito que eu nunca havia entendido antes. O velho homem desbravou-se a falar sobre um dos contos da mitologia grega e, em meio à multidão que se juntava ao redor, ele aclamava a história de Dédalo e Ícaro. Pai e filho que voaram com asas feitas das penas de aves e cera de abelha. O filho, tão emocionado com a liberdade nunca presenciada antes, aproximou-se demasiado do Sol e suas asas derreteram. Ícaro caiu no mar Egeu e, afogando-se em sua própria sensação de liberdade, morreu.

Aos 10 anos, ganhei uma máquina de datilografia. Ainda me recordo de perguntar ao meu pai “como eu uso isso?”. Sorrindo e alisando meu cabelo, ele respondeu: “com a sua imaginação”. Desde então percebi que minhas mãos seriam meu instrumento de trabalho para o resto da vida, mas mesmo se me arrancassem os braços, ainda teria a minha imaginação.

Embora já tenha escrito sobre as minhas paixões, como extravagâncias doces e homens amargos, a liberdade ainda é meu assunto preferido. É como despir-me. Tudo o que eu sou. Tudo o que  vejo. Tudo o que  sinto. Por que o jornalismo? Seria mais fácil perguntar a um pássaro por quais motivos ele voa. E, talvez, a resposta fosse a mesma que eu daria: voamos pela liberdade.


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