Cesumar - Centro Universitário de Maringá

Jornal Matéria Prima

 
  • Última Edição: #483 | 28/06/2018 - Ano XIX
 
Cultura / Literatura / Política | Edição #381 - 14/11/2013

“É impossível ficar indiferente à trajetória de Marighella”

Escrita por Mário Magalhães, Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo retrata a vida do comunista baiano

Victor Simião
Colaborador

Comentários
 

Carlos Marighella (1911-1969), baiano de Salvador, foi um personagem no mínimo intrigante no século passado. Autor de livros de poesia e táticas de guerrilhas, diretor de jornais comunistas e deputado federal constituinte em 1946, militou durante 33 anos pelo PCB (Partido Comunista Brasileiro), sendo expulso em 1968 por discordar da linha que a o partido tomara. Naquele mesmo ano, foi considerado o inimigo número um da ditadura. Um ano depois, morreu assassinado a tiros, numa tocaia organizada por, pelo menos, 29 agentes do Dops (Departamento de Ordem Política e Social). Durante anos, acreditou-se que Marighella estivesse armado quando foi assassinado. Fato desmentido, assim como tantos outros, pelo jornalista Mário Magalhães na biografia Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo (Companhia das Letras, 2012).

Capa da biografia escrita por Mário Magalhães (Foto: Ed. Companhia das Letras)

Capa da biografia lançada no ano passado por Mário Magalhães (Foto: Ed. Companhia das Letras)

“Marighella é um personagem que atravessa diversos momentos relevantes da história, mas quase sempre aparecia como coadjuvante em contextos nos quais, eu vim a descobrir, era protagonista”, diz o biógrafo. Para escrever a obra de mais 700 páginas, Magalhães, que já trabalhou nas redações dos jornais O Globo e Folha de S. Paulo, entrevistou 256 pessoas, leu mais de 500 títulos e consultou arquivos no Brasil, Paraguai,  Rússia, Estados Unidos e Republica Tcheca.

Por e-mail, o jornalista, que no ano passado recebeu o prêmio de Melhor Biografia pela Associação Paulista de Críticos de Arte e, neste ano, o Jabuti na mesma categoria, conversou com a equipe do Jornal Matéria Prima. Ele falou sobre o interesse na história do revolucionário baiano, a venda dos direitos da obra para as telas de cinema e sobre a censura às biografias.

 Por que escrever sobre Carlos Marighella?
Eu pretendia escrever uma reportagem de fôlego, sobre uma vida, portanto biografia. Não encontrei personagem mais fascinante do que o revolucionário Carlos Marighella, goste-se ou não dele. Como sempre reitero, é legítimo amar ou odiar Marighella, mas é impossível ficar indiferente à sua trajetória frenética. Excluindo artistas e desportistas, ele foi um dos dez brasileiros de maior projeção internacional no século vinte. Narrar sua vida me permitiu contar quatro décadas trepidantes no Brasil e no mundo, dos anos 1930 aos de 1960. E perfilar numerosos personagens marcantes. No livro, há dezenas deles que, de tão espetaculares, merecem biografias em que sejam os protagonistas.

Durante os nove anos de pesquisa, em algum momento o senhor pensou em abandonar o projeto?
Não. A tentação era outra, de continuar investigando sua vida e reescrevendo a narrativa. Mas, depois de nove anos, chegara a hora do ponto final. Há biógrafos que estimam em três ou quatro anos o limite de “convivência” de um biógrafo com um biografado, para o autor não enjoar do seu personagem. Comigo, ocorreu o contrário.

Meu desafio estético era lograr uma narrativa de tirar o fôlego do leitor, assim como a vida de Marighella foi de tirar o fôlego

Quais foram as maiores dificuldades para escrever o livro?
Na apuração, foram de duas ordens. Por um lado, certa historiografia oficial tentou eliminar Marighella da memória nacional. Por outro, ele próprio tentou apagar seus rastros, por uma questão de sobrevivência, escapar dos perseguidores.
Para escrever, o maior risco era transformar uma apuração monumental em um relato insosso, burocrático, sem encanto. Meu desafio estético era lograr uma narrativa de tirar o fôlego do leitor, assim como a vida de Marighella foi de tirar o fôlego.

Durante nove anos, Magalhães pesquisou a vida de Marighella (Foto: Ana Carolina Fernandes/Companhia das Letras)

Durante nove anos, Magalhães pesquisou a vida de Marighella
(Foto: Ana Carolina Fernandes/Companhia das Letras)

No livro, há diversos momentos em que a cena é descrita com detalhes, como a morte de Marighella ou mesmo os tiros que ele levou dentro do cinema, em 1963. Desde o começo a intenção do senhor era seguir a linha do New Journalism, criando uma biografia romanceada?
Não escrevi uma biografia romanceada, mas uma biografia jornalística. Portanto, não há um só espirro que não tenha ocorrido. Toda a narrativa é escrupulosamente lastreada em fatos. Não é à toa que ao fim do volume eu organizei 2.580 notas sobre fontes, compartilhando com os leitores a origem de todas as informações importantes ou relevantes. A licença para introduzir fantasia em relatos supostamente de não ficção os descaracteriza, tornando-os um monstrengo que não pode ser mais classificado como reportagem, que é um gênero do jornalismo. O que eu afirmo é que escrevi o livro como um romance, porém com uma única e gigantesca diferença: tudo é verdade. Os ingredientes são de romance, como ação, aventura, paixão, amor, ideias, luta. E a carpintaria literária também é, porque não basta contar uma grande história, é preciso narrá-la sem que o leitor se desmotive, até a última página.

 Em relação à compra dos direitos da biografia para se tornar filme, feita por Wagner Moura e pela O2 Filmes,  o que o senhor espera ver na telona?
Com o enorme talento do Wagner e do pessoal da O2, espero um grande filme. Mas advirto que se trata de um filme de ficção, e não de um documentário. A história se baseia em fatos e personagens reais, a começar pelo protagonista. Seria injusto, porém, cobrar fidelidade absoluta aos fatos. Quem quiser saber o que Marighella fez, disse e, na medida do possível, pensou, deve ler a biografia que eu escrevi.

Além da venda dos direitos, o senhor vai colaborar em algo mais?
É possível que sim, mas não há nada fechado. A minha contribuição fundamental é oferecer matéria-prima para um grande filme. A matéria-prima é a história de Marighella, capaz de deixar um espectador sem piscar durante todo o filme.

 O grupo Procure Saber defende uma legislação obscurantista e antidemocrática

Agora sobre a discussão das biografias. O que o senhor pensa a respeito do grupo liderado por Paula Lavigne “Procure Saber”?
No caso da controvérsia acerca de biografia e censura, penso que o grupo Procure Saber defende uma legislação obscurantista e antidemocrática, que está em vigor.

Se não houvesse o problema de censura prévia, qual biografia o senhor gostaria de escrever? Por quê?
A de [o político brasileiro] Carlos Lacerda [1914-1977]. Porque é um baita personagem, em todos os sentidos. Afora uma breve passagem pela esquerda, ele foi grande antagonista de Marighella e seus companheiros.

Discussão e comentários »

Não há comentários | Deixe seu comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

* Copie a Senha gerada. *

* Digite ou cole senha aqui. *

37.237 Spam Comments Blocked so far by Spam Free Wordpress

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

sobre o autor

Apaixonado por boa literatura, fã de MPB e curioso ao extremo. Faz do jornalismo uma janela para o mundo.

ver mais posts do autor »

 

Notícias

 

Calendário

novembro 2013
S T Q Q S S D
« out   dez »
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
252627282930  

galeria de fotos

Chico Buarque George Carlin Mario Quintana

enquete

Você gostou das edições do JMP deste primeiro semestre?

Ver Resultados

Loading ... Loading ...
 

Jornal Matéria Prima é produzido por alunos do curso de Jornalismo do Centro Universitário Cesumar - UniCesumar - na disciplina Técnica de Reportagem.

 

Publicado com WordPress / Laboratório de Notícias

Proibida a reprodução sem autorização do autor ou da Unicesumar

©2011-2018 Jornal Matéria Prima. Todos os Direitos Reservados.