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Cidade | Edição #375 - 03/10/2013

Sobram adotantes para os poucos que são adotados

Número de interessados em adotar é maior do que o de crianças disponíveis e um dos motivos pode ser o Estatuto da Criança

Giovanni Froeming
Aluno de Jornalismo

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Artigo 19 do ECA dá o direito à criança de viver com a família (Foto: Marcello Casal Jr./ABr)

Artigo 19 do ECA dá o direito à criança de viver com a família (Foto: Marcello Casal Jr./ABr)

Um sorriso bobo, verdadeiro e puro. Um chute na barriga e alguns quilos a mais. Um pouco de sofrimento recompensador ali e outro aqui. Correria para lá e para cá. Um pai que não se cabe em si, a mãe que se emociona com tudo e deixa a lágrima escorrer a todo instante, e a alegria das pessoas que estão por perto. Essas são algumas das características da vida de pessoas que vivem uma gestação. Porém, muitas delas não podem ter essa sensação, colocar em prática os planos e realizar o sonho de ter um “herdeiro do próprio sangue”. O jeito, então, é partir para alternativa mais viável, a adoção.

Atualmente em Maringá, 157 pessoas estão na fila de adoção e aptas a ter um filho adotivo, enquanto apenas cinco crianças ou adolescentes podem ser adotadas legalmente.

Uma pessoa que quer adotar uma criança hoje no Brasil deve fazer cadastro, no qual preenche os dados e automaticamente entra na fila e espera a oportunidade. O tempo de espera e até mesmo o cumprimento à risca da lei acabam sendo “prejudiciais” para quem está esperando.

Segundo o promotor de Justiça da Vara da Infância e da Juventude de Maringá, Robertson Fonseca de Azevedo, a grande questão de não ter crianças aptas para serem adotadas atualmente é o artigo 19 do Capítulo III do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). “O estatuto diz que toda criança e adolescente tem todo o direito de ser criado e educado no seio da sua família e, excepcionalmente, em família substituta. Portanto, se não for criada pelos pais, ela [a criança] tem o direito de ser criada pela avó, avô, tio, tia. Então, excepcionalmente  a criança é encaminhada para adoção.”

Azevedo diz que quando a criança ou adolescente é adotado tem prazo de adaptação com a nova família. “Caso não se adapte por determinados fatores, não é obrigada a ficar na nova casa”, completa.

Existem os que acreditam que a adoção vai resolver problema conjugal

Ele revela que, ainda hoje, existem pessoas que acabam tratando a adoção como a aquisição de um bem. “Existem os que acreditam que a adoção vai resolver um problema conjugal ou preencher um vazio. Muita gente vê a adoção como forma de resolver um problema que tem. Não que isso seja errado, mas a adoção é muito mais sério. O filho adotado é filho como os outros, faz parte da família.”

Pais de coração, amor para toda vida

A gestação transforma a vida de uma mulher, mas quando não há barriga, amor chega de outra forma, pela adoção

CRIS GABINO

Aluna de Jornalismo

Ao encontrarmos uma mulher grávida, seja conhecida ou não, logo somos tomados por um sentimento de ternura e simpatia pela barriga que prepara uma vida. Mas e quando não há barriga? O amor chega de outra forma, pela adoção. Assim aconteceu na vida de Elizabeti  Shigenaga a Beti, 50, Administradora, mãe de três filhos adotivos e um biológico.

Beti, juntamente com o marido Milton Shigenaga, 53, veem a experiência da adoção como fantástica e gratificante além de acreditar que os filhos são como seres que Deus os confiou.

Ele foi questionado e chamado de cego, porque não ‘via’ que as crianças eram brasileiras e ele japonês

Com quadro de endometriose, a administradora não podia ter filhos. Ela e o marido ajudavam uma família com alimentos e roupas, mas não conheciam as crianças. Um médico que trabalhava com ela, disse que os meninos estavam muito doentes e correndo risco de vida. A mãe biológica estava perdendo a guarda dos filhos.  Estavam recolhidos em um abrigo e iriam para a adoção. Naquele momento, Beti conta que  não tinha a intenção de adotar, e sim oferecer todos os cuidados para que Igor uma das crianças na época com 3 anos, tivesse a oportunidade de sobreviver pois já estava na sexta pneumonia. Chegando ao abrigo a responsável pelo lar informou que o menino tinha um irmão, Vitor que na época tinha apenas 2 anos, e que eram inseparáveis. “Ela pediu que eu levasse os dois, foi complicado porque o Milton nem sonhava que eu ia cuidar das crianças. Quando ela [a funcionária] trouxe o Vitor ele olhou para mim e disse: ‘Você vai ser minha nova mãe’? Aí me desarmou por inteiro. Resultado, peguei os dois e levei para casa”.

A segunda adoção foi de Carla, que na época tinha 6 anos. A mãe passava por dificuldades financeiras e não tinha onde morar com a filha. Beti, então, se propôs a cuidar até a situação melhorar e também a levou para casa.

Eles enfrentaram muitos problemas. Beti conta que o preconceito existia. “Quando nos viam com as crianças, pensavam que eu traia o Milton. Em algumas ocasiões ele foi questionado e chamado de cego, porque não ‘via’ que as crianças eram brasileiras e ele japonês. O Milton dava risada, mas não falava que eram adotados e respondia: ‘pai é quem cria’”.

Aos 36 anos Beti teve uma surpresa. Ao fazer uma viagem com o marido aos Estados Unidos, para conhecer a Disney, ela passou mal. Retornando ao Brasil, marcou uma cirurgia de lipoaspiração, pois estava “barrigudinha”. As amigas dela diziam para não fazer, achavam que estava grávida. Beth não acreditava, pois já havia tido gravidez psicológica, mas decidiu fazer o exame. “Pensei até em rasgar sem ver, tinha muito medo de sofrer com o resultado negativo, mas abri e quando vi pulava de alegria, entrei em  casa gritando para o Milton que estava grávida ele ficou sem reação,só acreditou quando fomos no mesmo dia fazer o  ultrason no qual ele ouviu o coração do Matheus”.

A gravidez de Beth foi de alto risco, ela tomou vários medicamentos e ficou de cama durante a gestação. A vinda de Matheus, hoje com 14 anos só veio para aumentar a alegria na casa dela. Beth diz que nunca houve tratamento diferenciado ou ciúmes por parte dos filhos.

Carla Patrícia Sá, 23, filha adotiva de Beti, conta como é o relacionamento com os irmãos. “Nossa relação sempre foi muito boa, como todos irmãos temos nossas diferenças. Acredito que me pareço mais com o Matheus no sentido de que somos mais quietos, mas nós quatro nos amamos muito, isso é o que importa.”

Emocionada, Beti define o contato que ela e os filhos mantêm com as famílias biológicas. “Porque filho não é posse, é um presente que recebemos de Deus para zelar, cuidar e amar. Não temos o direito de negar a eles o contato com as famílias, afinal a elas devo só agradecer por ter nos dado a alegria de sermos pais.” Beti declara que para ela, Deus é perfeito e nada é por acaso, e que a felicidade dela e do marido é graça as mães que abriram mão dos filhos delas para que ela e o Milton pudessem se tornar pais. “Como podíamos nós, negar a eles [Igor, Vitor e Carla], o contato com essas mães que deram a vida aos nossos filhos? Para nós amar é não ser egoísta.”

Da esq para dir Carla, Igor, Beth, Milton, Matheus e Vitor

Da esq. para dir. Carla, Igor, Beth, Milton, Matheus e Vitor (Foto: Cris Gabino)

Discussão e comentários »

Um comentário | Deixe seu comentário

Ana Cláudia de Sousa Froeming disse:

Linda reportagem , quando uma pessoa pensa em adotar uma criança , ela tem que olhar para elas com os olhos do Amor. Parabéns a Beti, e seu esposo Milton…lindo gesto…

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