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Cultura | Edição #375 - 03/10/2013

“Amor à vida” e o devaneio da vida real

Novela do horário nobre comete um pecado após o outro e é alvo de críticas que levantam debate sobre limites da ficção

Amanda Oliveira
Aluna de Jornalismo

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No aeroporto, a mocinha Paloma é presa por trazer drogas do Peru, colocadas pela vilã, Alejandra, na mala da pobre protagonista. Alejandra é nome mexicano e o roteiro bem que poderia pertencer ao México. Mas, a cena citada acima foi retirada da novela “Amor à Vida”, transmitida no horário nobre da Rede Globo. Walcyr Carrasco, o autor do dramalhão, tem sido bombardeado por críticas e pronunciamentos desfavoráveis a cenas como essa, acusado de ter ideias ridículas e usar da repetição e do exagero para atrair a atenção do público.

As ex-chacretes se revoltaram ao ver a atriz Elizabeth Savalla interpretando Márcia, uma ex-chacrete que se prostituía no passado. As pessoas poderiam pensar que todas faziam o mesmo. A Associação Brasileira de Psiquiatria, desapontada, emitiu nota repudiando os tratamentos aplicados à Paloma pela clínica psiquiátrica na qual foi internada – à força. Segundo eles, os procedimentos foram realizados de maneira errônea e assustadora, sem base científica. Isso sem contar as polêmicas que se referem à relação homossexual, ao linfoma de Hodgkin, doença da órfã Nicole – representada por Marina Ruy Barbosa -, que morreu com a doença e o espírito agora vaga pela casa.

Na medida em que as personagens são inspiradas em pessoas reais, cria-se a identificação, o reconhecer-se naquela pele

Só a apresentação dos fatos mais incríveis e sem nexo da novela já ocupa muitas linhas e dá nós na cabeça das pessoas, que enveredaram no labirinto confuso em que Carrasco se meteu. Porém, a teledramaturgia tem caráter de entretenimento, não de informação. Os autores têm a liberdade de exercitar a criatividade sem compromisso com a realidade. Mas, se os telespectadores sabem dessa máxima, por que o alarme soa quando algo parece muito estranho ao mundo real? Afinal, não se trata apenas de ficção? Na medida em que as personagens são inspiradas em pessoas reais, com trabalhos e sentimentos reais, cria-se a identificação, o reconhecer-se naquela pele. É aí que surgem os conflitos: a pessoa que se via representada pela mocinha indefesa se assusta ao vê-la ser internada e dopada por uma simples suspeita de que é usuária de drogas. Toda a sensação de realismo desaparece e dá lugar ao estranhamento perante ao imaginário – muitas vezes exagerado e apelativo – dos autores.

Vivemos numa época em que os símbolos têm mais validade que a realidade em si

Podemos, nessa parte, citar o sociólogo – e sempre atual – Jean Baudrillard e seu “Simulacros e Simulação”, de 1981. Vivemos numa época em que os símbolos têm mais validade que a realidade em si. A imitação tem mais valor que o imitado. A televisão, principalmente as novelas, tem papel importantíssimo nesse cenário; são parte da vida das pessoas. O comportamento dos autores pode soar como abuso à ficção, mas não é errado. Não é inválido. O comportamento das pessoas é que deveria ser mais seletivo com o que podem absorver da ficção. A arte imita a vida ou vice-versa? Nenhum dos dois. A arte extrapola a vida e a vida tenta imitar a arte até encontrar a barreira do surreal e parar. Deixemos os autores livres para imaginar, desde que faça um pouco de sentido.

Paloma em Amor à vida

Paloma é a protagonista da confusão chamada “Amor à vida” / Foto: Reprodução

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