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Política | Edição #372 - 05/09/2013

Assumir o erro em apoiar o golpe não é o bastante

Publicado no dia 31 do mês passado, editorial de O Globo tenta se redimir do apoio dado aos militares durante a ditadura

Victor Simião
Colaborador

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Mês de junho. Pessoas de todas as idades, cores e credos nas ruas. Bandeiras levantadas. Gritos de ordem. Gritos contra o governo. Contra o sistema. Contra veículos de comunicação. O principal deles: a TV Globo, que teve de ouvir, dentre outros gritos: “a verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura”. À época, repórteres da emissora que cobriam os protestos não utilizaram o logotipo da empresa no microfone. Era o medo de retaliação por parte dos manifestantes, afinal de contas, as Organizações Globo não haviam pedido desculpas ou admitido erros, seja de maneira formal ou informal, sobre o que fizeram e o que têm feito ao longo da história, como apoiar ditaduras e colocar ou retirar presidentes do poder.

Não havia ainda. Por que depois o fizeram? E, coincidência ou não, após manifestações públicas em frente à sede da emissora em diversas cidades do Brasil, que ocorreram no último dia 30. Na data, em São Paulo (SP), os manifestantes, além de picharem os muros, também jogaram estrume na sede da TV Globo.  No dia seguinte, o jornal O Globo, trouxe o editorial “Apoio editorial ao golpe de 64 foi um erro”.  O que não era nenhuma novidade, claro, mas era um pedido público de desculpas. Algo que, em um primeiro momento, era difícil de se acreditar.

O apoio se justificou pelo temor de um outro golpe, a ser desfechado pelo presidente João Goulart

 

Ataque dos manifestantes em frente à sede da TV Globo em SP

Ataque dos manifestantes em frente à sede da TV Globo em SP (Foto: Marcelo Brammer/ Brazil Photo Press)

 

 

 

 

No editorial, que no Facebook foi recomendado por mais de 50 mil pessoas, o jornal admite que “de fato, à época, concordou com a intervenção dos militares, ao lado de outros grandes jornais” e que o apoio se justificou pelo “temor de um outro golpe, a ser desfechado pelo presidente João Goulart”.  Golpe, que, durante anos,  O Globo chamava de “revolução”. O texto ainda ressalta que o apoio dado pelo veículo aos militares fora para garantia da ordem e da democracia. O que não ocorreu, vide os mais de 20 anos que os ditadores estiveram no poder.

A resposta dos militares, juntamente com os protestos da população, apenas mostram que as Organizações Globo têm muito a fazer para tentar limpar o passado

Os militares não deixaram barato. O Clube Militar, por meio do texto “Equívoco, uma ova”,  diz que “declarar agora que se tratou de um ‘equívoco da redação’ é mentira deslavada. Equívoco, uma ova! Trata-se de revisionismo, adesismo e covardia do último grande jornal carioca.”  Ainda ressalta que “o apoio ao Movimento de 64 ocorreu antes, durante e por muito tempo depois da deposição de Jango”.

A resposta dos militares, juntamente com os protestos da população, apenas mostram que as Organizações Globo têm muito a fazer para tentar limpar o passado. Em uma parede cheia de estrumes, para limpá-la, são necessárias zeladoras, munidas de água e produtos de limpeza específicos, e pronto: a parede fica nova.  Entretanto, limpar o passado não é tão simples. Assumir o erro do apoio ao golpe não significa retirar todo o apoio aos militares e, com isso, devolver todas as vantagens obtidas por meio dessa relação.

O primeiro passo para isso foi dado, mesmo que por trás haja o interesse de tentar evitar mais críticas e perder mais ainda o prestígio entre a população. A questão é saber se os outros virão. E se vierem, que não demorem tantos anos para chegar quanto o primeiro. E que não seja necessário mais estrume para se apagar as, com o perdão da palavra, merdas feitas no passado.

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